COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

A bicicleta

Não foi a pobreza que me chamou a atenção. Foi a liberdade.

Kécio Rabelo

Cheguei ao Centro de São Luís com a pressa habitual de quem tem hora marcada.

O compromisso me esperava alguns quarteirões adiante, e eu fazia mentalmente aquela conta inútil dos minutos: quanto faltava, quanto ainda precisava andar, quanto tempo perderia procurando onde estacionar. A cabeça já estava no lugar onde eu ainda não havia chegado.

Foi quando vi o menino.

Devia ter uns sete anos. Estava na calçada, inclinado sobre uma bicicleta velha. Velha mesmo. A pintura quase desaparecida, marcas de ferrugem, pneus gastos e, para completar, não havia assento.

Ele mexia em alguma coisa perto da corrente. Não sei se consertava ou apenas tentava fazê-la funcionar. Estava bastante concentrado naquela tarefa.

Diminuí o passo.

Havia algo de curioso ou de estranho naquela cena. Ou, quem sabe, o estranho estivesse em mim.

O menino não parecia aborrecido com a bicicleta. Não reclamava do que faltava, nem olhava para os lados procurando outra melhor. Não parecia constrangido diante de quem passava.

Ao contrário, havia certa serenidade no rosto dele. E, misturada à serenidade, uma alegria difícil de explicar.

Quando conseguiu ajeitar o que estava mexendo, levantou a bicicleta e a empurrou alguns passos. Olhou para ela como quem contempla uma conquista.

Eu, que estava atrasado, segurei um pouco o passo para tentar acompanhar a cena, o que não foi possível.

Ele, que não tinha assento na bicicleta, parecia não estar com pressa alguma.

Segui para o meu compromisso, mas alguma coisa daquela cena veio comigo. Na volta, ele já não estava por lá. Havia outra criança na janela, também olhando a rua e a vida com aquela cara de amiga do tempo.

Passamos boa parte da vida projetando a felicidade para depois, jogando o ideal para o dia seguinte. De certa forma, fomos “treinados” para isso. Quando eu tiver, quando eu chegar, quando, quando, quando...

Criamos versões futuras de nós mesmos e depositamos nelas a responsabilidade de sermos felizes. A casa melhor, o trabalho melhor, a viagem, o reconhecimento, a conta bancária, o objeto desejado.

Quase sempre existe alguma coisa faltando entre nós e a vida que imaginamos merecer.

E então aparece um menino de sete anos, no Centro de São Luís, com uma bicicleta velha e sem assento.

Não quero nem devo romantizar a falta. Naquela rua, a vala aberta onde corria o esgoto denuncia a precariedade da cena. Há ausências que doem, desigualdades que precisam nos incomodar e necessidades que não podem ser transformadas em poesia apenas para aliviar nossa consciência.

Aquele menino certamente merecia uma bicicleta melhor, uma rua melhor, um presente decente para um futuro melhor.

Mas não foi a pobreza que me chamou a atenção.

Foi a liberdade.

Naquele instante, ele não permitia que aquilo que lhe faltava diminuísse aquilo que possuía.

Aí está uma diferença enorme.

Nós, adultos, aprendemos a medir a vida pelo que falta. Falta tempo, dinheiro, reconhecimento, espaço, oportunidade. E, quanto mais conseguimos, mais sofisticadas parecem se tornar as nossas faltas.

Vivemos cercados de projeções.

Projetamos como deveríamos estar aos quarenta, aos cinquenta, aos sessenta. Projetamos a performance do corpo, o sucesso dos filhos. Projetamos viagens, cargos, casas, relações, futuros. E, de tanto olhar para a vida projetada, corremos o risco de passar distraídos pela única vida que efetivamente temos: a que está acontecendo agora.

O menino não tinha uma bicicleta ideal.

Tinha aquela.

E, naquela tarde, aquela parecia suficiente para produzir alegria.

Continuei andando pelas ruas do Centro. Portas antigas, fachadas marcadas pelo tempo, gente entrando e saindo, carros apressados.

Meu compromisso continuava importante. Minha pressa também tinha suas razões.

Mas já não era exatamente a mesma pressa.

Fiquei pensando no tanto de coisas que acumulamos, imaginando que elas nos aproximariam do essencial e que, algumas vezes, apenas nos afastam dele. Porque o essencial quase nunca faz barulho. Não costuma chegar embalado. Não exige anúncio.

Às vezes, o essencial está numa calçada.

Tem sete anos.

Está com as mãos sujas de graxa.

E sorri diante de uma bicicleta velha, sem assento, como se a vida, apesar de tudo o que falta, ainda fosse uma coisa extraordinária.

Talvez seja.


As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.