A varanda
Não há tempo para convencer todo mundo. Nem para voltar a cada lugar onde fomos feridos e exigir que reconheçam a ferida. Tudo segue junto. A vida não é um desfile uniforme, retilíneo.
O pai estava na varanda quando o filho chegou.
Fim de tarde e, sobre a mesa, uma xícara de café pela metade. Dessas que a gente esquece e deixa enquanto olha o movimento da rua.
O filho sentou.
— Dia ruim?
— Mais ou menos.
O pai não perguntou mais nada.
Ficaram ali. Um cachorro passou puxando o dono pela calçada. Do outro lado da rua, o buzinaço tomava conta da esquina, no frenesi da volta para casa. A vida, indiferente aos nossos dramas, seguia cumprindo suas obrigações, ditando seu próprio ritmo.
Depois de algum tempo, o filho falou:
— Você já se decepcionou muito com as pessoas?
O pai sorriu.
— Já.
— Muito?
— O suficiente para também descobrir que decepcionei algumas.
O filho não esperava por aquilo.
— Mas tem gente que machuca a gente sem motivo.
— Tem.
— E fica por isso mesmo?
O pai pegou a xícara, percebeu que o café estava frio e colocou-a novamente sobre a mesa, balançando a garrafa marrom que, pelo peso, já estava vazia.
— Nem sempre.
— Então?
— Então você precisa escolher.
O filho franziu a testa.
— Escolher o quê?
— O que merece você.
O pai contou que, durante muito tempo, teve dificuldade em deixar as coisas terminarem. Uma palavra atravessada podia acompanhá-lo por dias. Uma injustiça ocupava pensamentos inteiros, bagunçando seu dia e sua rotina. Se alguém fazia dele uma ideia errada, sentia necessidade de explicar, esclarecer, colocar os fatos em ordem.
— E hoje?
— Hoje algumas pessoas podem continuar erradas sobre mim.
O filho riu.
— Ficou mais conformado?
— Fiquei mais velho.
Riram os dois.
— A idade vai ensinando uma coisa meio incômoda — disse o pai. — Não há tempo para tudo.
Não havia tristeza naquela frase. Apenas constatação.
Não há tempo para todas as discussões, todas as respostas, todas as explicações. Não há tempo para convencer todo mundo. Nem para voltar a cada lugar onde fomos feridos e exigir que reconheçam a ferida. Tudo segue junto. A vida não é um desfile uniforme, retilíneo.
— Mas também não dá para fugir de tudo — disse o filho.
— Claro que não.
O pai ajeitou-se na cadeira, puxando a perna direita sobre o joelho.
— Tem coisa pela qual você precisa lutar. Tem gente que precisa de você. Tem princípio que não se negocia. Tem hora em que ficar calado custa mais caro do que falar.
— O problema é achar que tudo é essa hora.
O filho olhava para a rua.
Havia alguma coisa acontecendo com ele, o pai sabia. Talvez uma amizade, um trabalho, uma dessas decepções que, quando chegam, parecem ocupar a casa inteira.
Mas não perguntou.
Algumas dores precisam primeiro encontrar suas próprias palavras.
— E como você sabe qual batalha vale a pena?
O pai demorou a responder.
— Muitas vezes eu não sei.
Aquilo pareceu aliviar o filho.
Talvez porque descobrir que o pai ainda tinha dúvidas tornasse as próprias dúvidas menos graves.
— Mas aprendi a perguntar uma coisa.
— O quê?
— Quanto da minha vida isso merece?
O filho ficou em silêncio.
O pai também.
Toda batalha leva alguma coisa de nós. Uma noite de sono. Uma manhã perdida. Um almoço em que estamos à mesa sem realmente estar. Uma conversa que não ouvimos. Um domingo que passa enquanto continuamos discutindo, por dentro, com alguém que talvez nem esteja pensando em nós.
Esses são alguns dos maiores desperdícios da vida: não apenas as coisas que perdemos, mas o tempo que entregamos ao que já deveria ter passado.
A noite chegou sem que percebessem.
O pai levantou-se.
— Vou entrar. Vai ficar aí?
— Mais um pouco.
Ele caminhou até a porta.
— Pai.
— Oi.
— E quando a gente escolhe errado?
O pai pensou.
— Escolhe de novo.
E entrou.
O filho ficou sozinho na varanda.
Na mesa, a xícara de café continuava pela metade.
Ele ficou ali por algum tempo.
Depois se levantou.
Não levou a xícara.
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