O Quintal da Minha Avó
O da minha avó tinha duas figuras centrais: uma galinha e um papagaio
Tenho a impressão de que toda avó deveria ser obrigada a ter um quintal. Não por causa das plantas, embora elas quase sempre estivessem lá. Mas porque um quintal é uma espécie de laboratório onde a vida faz experiências sem avisar. Já escrevi outras vezes sobre quintal.
O da minha avó tinha duas figuras centrais: uma galinha e um papagaio.
A galinha era dessas que levavam a existência a sério. Acordava cedo, ciscava o dia inteiro, investigava cada centímetro de terra como quem procurasse petróleo. O papagaio, ao contrário, parecia ter descoberto o segredo da vida: deixar os outros trabalharem enquanto ele fazia comentários do alto do poleiro.
Ele era um especialista em interromper o silêncio.
Bastava alguém atravessar o quintal para que resolvesse emitir sua opinião — normalmente, uma repetição de alguma frase que ouvira dentro de casa. Era curioso: não compreendia uma única palavra do que dizia, mas dizia com uma convicção que faria inveja a muita gente.
A galinha fingia não se importar.
Continuava ciscando, com aquela elegância meio apressada de quem vive ocupada. Mas bastava o papagaio receber um pedaço de banana ou uma goiaba mais madura para ela abandonar imediatamente todos os seus princípios e correr em sua direção, convencida de que havia uma profunda injustiça sendo cometida naquele quintal.
O papagaio, naturalmente, fazia questão de comer devagar. Não por fome. Por vaidade.
Aprendi cedo, olhando para aquele quintal e para aquela varanda, que há criaturas que se alimentam menos da fruta do que da plateia.
Mas também havia dias em que a sorte mudava de lado. Quando minha avó espalhava milho pelo terreiro, a galinha transformava-se numa rainha. Caminhava com um ar solene, cercada por um banquete que o papagaio, preso à sua condição de espectador, só podia contemplar do alto. Nesses momentos, ele gritava sem parar. Nunca soube se reclamava da injustiça ou se apenas não suportava ver a felicidade alheia em paz.
Hoje penso naquele quintal. Quintal de bichos, realidade de gente.
Há pessoas que vivem ciscando: trabalham, constroem, sustentam a rotina e raramente fazem barulho. Outras preferem o poleiro. Observam tudo, comentam tudo, repetem tudo e, por algum mistério da natureza, acabam sendo notadas antes.
O curioso é que umas invejam as outras. Cada uma, do seu ângulo, alimenta sonhos e desesperos.
E assim seguimos, convencidos de que o terreiro do outro sempre esconde o milho mais saboroso
Minha avó nunca fez um discurso sobre convivência. Nunca leu um livro sobre liderança e também não distribuía conselhos. Apenas alimentava os dois, todos os dias, como se soubesse que o mundo não precisa de iguais para funcionar; precisa apenas que os diferentes não transformem cada pequena disputa numa guerra.
Acho curioso como, naquela época, eu imaginava estar apenas vendo uma galinha e um papagaio. Demorei muitos anos para perceber que, na verdade, minha avó estava me apresentando às pessoas.
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