COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Cordas Invisíveis II

Filmamos antes de acolher, publicamos antes de compreender, compartilhamos antes de sentir.

Kécio Rabelo

Quando publiquei o artigo Cordas Invisíveis, imaginei que ele encerraria, para mim, a reflexão sobre aquele acidente. A imagem da jovem lançada ao vazio sem que a corda estivesse presa era suficientemente eloquente. Eu havia escrito sobre aquilo que me parecia essencial: a confiança invisível que sustenta a vida em sociedade. Mas os textos, às vezes, têm vontade própria.

Nos dias que se seguiram, recebi muitas mensagens de leitores. Algumas concordavam, outras discordavam; várias acrescentavam detalhes que eu não havia percebido. O mais curioso, porém, é que nenhuma delas falava apenas do acidente. Todas, de alguma maneira, falavam de nós, das nossas relações e complexidades.

Foi então que me dei conta de que talvez eu tivesse deixado escapar outra pergunta.

Voltei ao vídeo. Não porque quisesse reviver a queda, mas porque queria entender o que continuava me inquietando. E percebi algo que, na primeira vez, havia permanecido quase tão invisível quanto a própria corda.

Vivemos cercados por telas. Registramos tudo. Fotografamos, filmamos, compartilhamos. Nunca foi tão fácil transformar qualquer instante em memória digital. Ainda assim, tenho a impressão de que, quanto mais documentamos a vida, menos a habitamos. É apenas uma impressão, talvez. Mas ela insiste.

Pergunto-me quando começamos a acreditar que testemunhar um acontecimento passou a ser mais importante do que participar dele. Em que momento a câmera deixou de ser um instrumento para se tornar uma espécie de filtro entre nós e a realidade?

Filmamos antes de acolher, publicamos antes de compreender, compartilhamos antes de sentir.

Não escrevo isso como quem condena a tecnologia. Seria injusto. Graças aos registros, preservamos a memória, denunciamos injustiças, revelamos violências que antes permaneciam ocultas. O problema não está na imagem. Está no risco de ela ocupar o lugar da presença.

Uma marca do nosso tempo é esta: confundimos exposição com participação. Acreditamos que estar diante de um acontecimento é o mesmo que estar disponível para ele, mas não é.

Há ainda uma consequência mais perversa dessa lógica. Nunca estivemos tão acompanhados nas fotografias e, paradoxalmente, tão sós na vida. As memórias digitais estão repletas de rostos sorridentes e abraços. Mas nem sempre a alegria registrada corresponde ao que habita o coração. Quantas vezes, por trás de uma imagem perfeita, existe alguém atravessado pela dor da ausência, pelo abandono, pela sensação de não pertencer verdadeiramente a lugar algum? É a estranha experiência da solidão acompanhada — aquela descrita pelos místicos do passado: cercados de pessoas, conectados o tempo inteiro e, ainda assim, profundamente desencontrados. Essa é uma das engrenagens mais sofisticadas do individualismo contemporâneo. Multiplicamos conexões, mas enfraquecemos vínculos; ampliamos a exposição, enquanto diminuímos a intimidade; colecionamos presenças nas telas, mas perdemos a capacidade de sermos presença real na vida uns dos outros.

Nenhum vídeo consola alguém, nenhuma fotografia segura uma mão, nenhuma postagem substitui o silêncio de quem permanece ao lado de quem sofre quando todos os outros já foram embora.

Começo a pensar que o verdadeiro oposto da indiferença não seja a opinião. Seja a presença.

Porque cuidar exige tempo. Escutar exige demora. Acolher exige disponibilidade. E nada disso produz, necessariamente, boas imagens; às vezes, pelo contrário. É no anonimato que as lágrimas mancham o rosto.

Talvez por isso o cuidado seja tão invisível.

Ele acontece antes da fotografia, antes da manchete e da tragédia. Está no profissional que revisa um equipamento pela terceira vez. Na enfermeira que percebe um detalhe que ninguém percebeu. No motorista que reduz a velocidade. Na mãe que espera acordada. No amigo que permanece em silêncio ao lado de quem sofre.

São esses gestos que sustentam o mundo.

Continuo convencido de que a vida depende de cordas invisíveis. Mas agora penso que elas talvez sejam ainda mais numerosas do que imaginei. Algumas chamam-se confiança. Outras, responsabilidade. Outras, cuidado. E talvez a mais frágil delas seja justamente a capacidade de estarmos verdadeiramente presentes uns para os outros.

Se for assim, o maior risco do nosso tempo não é apenas o de uma corda se romper. É o de, ocupados demais em registrar a queda, deixarmos de perceber tudo aquilo que poderia tê-la evitado.


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