COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Guerra da Indiferença

A guerra não é apenas um confronto entre Estados. Ela também revela um estado moral de cada um de nós e das sociedades.

Kécio Rabelo

Vivemos um tempo estranho. A guerra deixou de nos surpreender. Ela chega às telas dos celulares, atravessa os noticiários, percorre as redes sociais e, em poucos minutos, já disputa espaço com memes, receitas, publicidade e distrações. A dor do mundo se mistura ao cotidiano como mais um ruído. Assim, sem perceber, vamos aprendendo a conviver com a violência e, consequentemente, a naturalizá-la.

Os recentes acontecimentos envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel recolocam diante de nós uma pergunta antiga: por que a guerra continua sendo tratada como solução possível? E talvez uma pergunta ainda mais incômoda: por que nos acostumamos tanto a ela?

A guerra não é apenas um confronto entre Estados. Ela também revela um estado moral de cada um de nós e das sociedades. Cada bomba lançada, cada ameaça militar, cada escalada diplomática carrega consigo narrativas que procuram justificar o inevitável: segurança, defesa, equilíbrio estratégico, interesse nacional. A linguagem da guerra costuma vestir a força com argumentos de necessidade. Sempre a mesma lógica da agressão, seja ela no campo individual ou na dimensão coletiva.

Mas por trás dessas narrativas existe uma engrenagem mais complexa.

Há interesses geopolíticos evidentes: disputas por poder regional, controle de rotas estratégicas, influência política e militar. Há também interesses econômicos. A indústria armamentista, que movimenta trilhões de dólares ao redor do mundo, depende de tensões permanentes. O lucro, nesse e em outros casos, se alimenta de sangue. Conflitos sustentam mercados, justificam investimentos militares e reforçam alianças estratégicas.

Nesse cenário, a guerra deixa de ser apenas tragédia humana e passa a integrar uma lógica de funcionamento do sistema internacional.

No entanto, existe um elemento menos visível e talvez ainda mais inquietante: a cultura da força. Durante séculos, fomos educados a admirar a vitória militar, a exaltar conquistas, a transformar guerras em narrativas heroicas. A violência, quando apresentada como instrumento de ordem ou segurança, ganha legitimidade. O poder que se impõe pela força passa a parecer inevitável.

A repetição dessas narrativas produz um efeito silencioso, sem deixar de ser nocivo: a indiferença.

Quando a guerra acontece sempre “em algum outro lugar”, ela se torna distante. As vítimas ganham números, não nomes. As cidades destruídas aparecem em imagens rápidas, logo substituídas por novas notícias. Aos poucos, a guerra deixa de nos escandalizar.

Essa é talvez a mais profunda das derrotas humanas: quando a violência deixa de provocar espanto.

Perguntar a quem interessa a guerra é necessário. Mas perguntar por que nos tornamos capazes de conviver com ela sem indignação suficiente talvez seja ainda mais urgente. Também não sei a resposta, ou seja duro demais encará-la. O certo é que ela questiona nossa humanidade.

A indiferença não é neutralidade. Ela também participa da lógica que permite que conflitos se repitam. Quando a dor do outro deixa de nos mobilizar, o mundo torna-se terreno mais fértil para a brutalidade, campo aberto onde o ódio e a violência são semeados com louvor.

A história mostra que guerras terminam não apenas quando cessam as armas, mas quando as sociedades passam a rejeitar profundamente a lógica que as sustenta.

Enquanto isso não acontece, seguimos assistindo, muitas vezes em silêncio, à repetição de velhos enredos: ameaças, ataques, retaliações, novas ameaças. Um ciclo que se alimenta de medo, poder e interesses.

O maior desafio do nosso tempo talvez não seja apenas evitar guerras, mas romper com a cultura que nos ensinou a aceitá-las como inevitáveis. Romper os pequenos e grandes elos de violência que sustentam a narrativa e legitimam os bombardeios.

Porque toda guerra começa muito antes do primeiro disparo.
Ela começa quando a violência deixa de nos escandalizar.

Na canção de Cazuza, um verso atravessa o tempo como um aviso incômodo: “Eu vejo o futuro repetir o passado.” Enquanto estas linhas são escritas, bombas continuam matando sonhos e interrompendo sorrisos — sobretudo daqueles que chamamos de futuro: as crianças.

E então a pergunta se impõe: que futuro é esse que insistimos em anunciar? Talvez a tragédia maior não seja apenas a guerra que explode nos céus, mas aquela que já se instalou em nós, quando a dor do outro deixa de nos ferir.

Nesse momento, antes mesmo das bombas caírem, a humanidade já foi atingida pela mais devastadora das armas: a indiferença.


As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.