COLUNA
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão, pós-graduado em Direito e vice-presidente do Moto Club. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

O menino que atravessou a Rua Grande

A gratidão, afinal, tem muitos rostos.

Vítor Sardinha

Atualizada em 18/01/2026 às 10h54
 

Há histórias que não começam com anúncios, diplomas ou solenidades. Começam com o peso do corpo ainda pequeno empurrando o dia para frente. Começam na Rua Grande, onde o comércio pulsa como um coração antigo, onde o sol castiga e a pressa nunca pergunta o nome de quem passa.

Em 1999, um menino cruzava aquelas transversais com as mãos ocupadas e o futuro em suspenso. Vendia sombrinhas, mochilas, qualquer coisa que coubesse no gesto e ajudasse a sustentar o amanhã. Não era metáfora: era trabalho. Não era romantização: era sobrevivência. Havia dúvidas, calos, tropeços — muitos. E havia o silêncio de quem aprende cedo que cair faz parte, mas levantar é escolha diária.

Foi a educação pública que lhe ofereceu chão quando o caminho parecia inclinar demais. Não como promessa vazia, mas como presença concreta. Professores atentos, salas simples, livros compartilhados. A matemática abriu método, o magistério revelou vocação, a História fincou raízes. E o Direito surgiu como direção — não como privilégio, mas como responsabilidade.

Foi nesse ponto que nossas trajetórias se cruzaram. Fomos colegas no curso de Direito da Universidade Federal do Maranhão, dividindo corredores, aulas, inquietações e aquele cansaço silencioso que só quem estudou em universidade pública conhece. Ali, entre debates acalorados e leituras intermináveis, já se percebia que a Justiça, para ele, não era abstração. Era matéria viva. Era compromisso.

Quando a Defensoria entrou em sua vida, não veio como cargo, mas como reencontro. Garantiu alimentos, conteve prisões injustas, ajudou a viabilizar moradia, defendeu trabalhadores informais, caminhou ao lado de comunidades tradicionais espalhadas pelos cantos mais distantes do Maranhão. Onde o mapa rareia, ele chegou. Onde a palavra faltava, ele falou.

O tempo seguiu — não em linha reta, mas em espirais. Tornou-se professor da universidade pública. Aprendeu ensinando. Compreendeu que a Justiça não simplifica: aprofunda. E que pensar o Direito exige mais do que códigos — exige escuta, estudo contínuo e coragem para não se acomodar.

Até que, um dia, o nome apareceu numa lista curta demais para quarenta mil sonhos. Menos de um por cento. A aprovação para a Magistratura Federal da 3ª Região. O menino leu. Respirou. Ajoelhou. Não por vaidade, mas por reconhecimento. Pela fé que o sustentou quando o chão faltou. Pela educação pública que o conduziu da Rua Grande aos bancos da universidade, da Defensoria à sala de aula.

Os olhos marejados não miravam apenas a chegada. Miravam a estrada inteira. Porque ninguém chega só. Há pais, irmãos, amigos, professores, colegas — há uma universidade inteira que caminha junto, mesmo quando não aparece nas fotografias oficiais. A gratidão, afinal, tem muitos rostos.

Começa agora outra jornada. A ascensão social é digna, merecedora e sempre pela porta da frente. Trata-se até mais de gratidão do que esforço. E aquele menino — o da Rua Grande, o colega de Direito na Federal do Maranhão — já aprendeu, há muito tempo, a agradecer e abraçar as oportunidades que Deus lhe deu!


As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.