Síndrome de Down

Educação inclusiva para crianças com síndrome de Down é multiprofissional

Acompanhamento deve ser feito por tutor e escolas devem estar preparadas para receber aluno com Down.

Maurício Araya / Imirante.com

- Atualizada em 27/03/2022 às 11h51
Acompanhamento deve ser feito por tutor e escolas devem estar preparadas para receber aluno com Down. (Divulgação / CVI-Rio)

SÃO LUÍS – Pessoas com um grande potencial de absorver conhecimento e desenvolver competências: essa é a nova visão de profissionais de diversas áreas e das famílias sobre as crianças com síndrome de Down. Trata-se da educação inclusiva, que mostra resultados positivos, ampliando, ainda mais, a capacidades acadêmicas e criando benefícios para a socialização dessas pessoas.

O trabalho de inclusão deve iniciar-se já na família. A terapeuta ocupacional Juliana Bandeira destaca que as escolas e a própria sociedade são os outros pilares do desenvolvimento das crianças com síndrome de Down. "Hoje em dia, a gente fala muito na questão de inclusão. Quando a gente fala de inclusão, a gente pensa só escola. Mas, não. Essa criança tem direito a ir a um parquinho, a um cinema. Quando a gente fala isso, a gente pensa que é só o pai levar essa criança a esses locais. A gente precisa ter um trabalho, além de social, de conscientização da sociedade em estar recebendo essas crianças de uma forma que não haja preconceito, que não haja aquele olhar discriminativo, que existe. O início disso aí é a gente estar trabalhando as nossas cabeças e pensar que, hoje em dia, essas crianças estão nos nossos convívios, que são adultos. Já foram crianças, e são adultos. Nós precisamos criar, principalmente, oportunidades no mercado de trabalho para essas pessoas", enfatiza a especialista em entrevista ao Imirante.comouça na íntegra.

Multiprofissional e interdisciplinar

Como há atraso em diversas áreas, o trabalho de acompanhamento das crianças com síndrome de Down deve ser multiprofissional e interdisciplinar, conforme explica a terapeuta ocupacional. "O desenvolvimento da criança com síndrome de Down, ele é um desenvolvimento atrasado. Quando a gente fala de atraso neuromotor, a gente fala de uma criança que tem mais dificuldade em sentar, engatinhar e andar do que as outras crianças. Mas, hoje em dia, isso é algo que, com as terapias, com equipe multidisciplinar, está sendo alcançado, o objetivo que é essa criança alcançar o ápice do desenvolvimento motor", explica.

A psicopedagoga Gardênia Abreu, também ouvida pela reportagem do Imirante.com, esclarece que o desenvolvimento de uma área – como a neuromotora, por exemplo –, ajuda no desenvolvimento de outra – como na escrita. "Essa criança, ela traz um atraso não só motor, mas ela traz atrasos cognitivos. Atenção, a questão da memória, linguagem, existe um deficit em todas essas questões cognitivas e, consequentemente, há uma necessidade de ter uma intervenção maior para que essa criança possa desenvolver todas essas áreas, e não ficar só na área motora. A gente quer uma criança integral. Para que isso ocorra, há necessidade de uma equipe multidisciplinar: terapeutas ocupacionais, psicopedagogos, psicólogos, para dar orientação para a família também; a própria família, no apoio ao trabalho; as escolas; enfim, todos os profissionais envolvidos precisam trabalhar de uma forma única, uma forma permanente", diz.

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Para o melhor acompanhamento dessas crianças, pode haver a necessidade, ou não, de um tutor, que irá facilitar o desenvolvimento de suas aptidões. "O tutor tem o papel de acompanhar essa criança nesse processo de desenvolvimento dentro da escola. Como a Juliana já enfatizou, essas crianças têm um atraso cognitivo. Muitas vezes, não é suficiente a atenção que ela tem, dentro da escola, para o aprendizado de um determinado conteúdo. Esse tutor é como um facilitador. Ele vai como um acompanhante, como alguém que entende e conhece sobre essa criança especificamente. É como se fosse um elo entre a criança e os conteúdos aprendidos na sala de aula, na escola", completa a psicopedagoga.

Situação nas escolas

A terapeuta ocupacional Juliana Bandeira revela sua preocupação com a falta de preparação de profissionais em algumas escolas do Maranhão. Segundo ela, o Estado não possui uma "escola ideal", que siga todos os requisitos para a educação inclusiva. "Aqui em São Luís, onde a gente pode ter uma visão mais próxima da realidade, é, ainda, meio desesperador, porque muitas escolas já tentam ter essa visão de inclusão, já tentam trabalhar de uma forma mais diferenciada com essas crianças, mas a gente sabe que, ainda, não é o ideal. Essa criança quando está em estimulação e chega à idade escolar, eu fico quase que desesperada com os pais. Qual escola escolher? Nós fazemos visitas; vamos juntos com e equipe multidisciplinar, com psicopedagogos, pedagogos, fonoaudiólogos. A escola ideal, não tem, mas há aquela mais adequada para receber essa criança", declara.

Mas tanto para Juliana quanto para psicopedagoga Gardênia Abreu, atualmente, a escola pública é a mais preparada para receber as crianças com síndrome de Down, porque há políticas públicas muito bem definidas para esse objetivo, que criam condições estruturais nas unidades.

"Preparar para incluir"

Além da estrutura, outro ponto fundamental é formação dos profissionais para a inclusão. "Há uma necessidade de preparar para incluir. Não só a inclusão de crianças ou pessoas com Down, mas a inclusão de todos. As equipes pedagógica, técnica e administrativa precisam ter uma preparação adequada para o processo de inclusão. Quando a gente fala de inclusão, de acessibilidade, a gente pensa que é mais uma questão física, mas não é só uma questão física. Tem uma preparação pessoal, tem uma preparação dos profissionais, desses professores que vão trabalhar com essas crianças. Nisso, a gente tem um deficit que começa nas nossas formações", destaca Gardênia.

E esse trabalho deve ir além das fronteiras da escola. "Inclusão é um fato. Ninguém pode negar. Então, nós precisamos, sim, nos adaptar a essa realidade, e da melhor forma possível. Não é só aceitar, mas, vou usar aquele velho jargão, 'vestir a camisa' e ir ao trabalho. A família tem sido um cobrador, um verificador, um termômetro de que se essas escolas estão fazendo a coisa certa. Com o conhecimento, com a informação que a família tem hoje, houve uma grande mudança nessa proposta educativa, que, antes, era só de um ambiente socializador. Hoje, as famílias sabem que seus filhos têm potencial, que eles podem render muito mais", conclui.

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