Tem Mulher na Batera

Vanessa Espíndola quebra preconceito e diz que bateria tem efeito terapêutico

Há 10 anos como baterista da banda Mr. Simple, Vanessa também atua na área da Psicologia.

Pedro Sobrinho / Jornalista

Atualizada em 27/03/2022 às 10h57
Vanessa Espíndola: personalidade firme e visceral ao tocar bateria
Vanessa Espíndola: personalidade firme e visceral ao tocar bateria (Vanessa Espíndola)

Dona de uma personalidade firme, visceral, Vanessa Espíndola é o que definimos como 'uma virtuose' na bateria, embora tenha começado com instrumentos de cordas aos 13 anos. Aos 32 anos, a também psicóloga desde 2005, com várias especializações e mestrado, Vanessa equilibra delicadeza, desde os 15, com o completo domínio da bateria.

Para aqueles machões e machistas que, ainda acham, que a bateria é "coisa de homem"? Melhor pensar duas vezes. E quem quebra paradigmas e preconceito em um bate-papo com o jornalista Pedro Sobrinho, para o site da Mirante FM, é a própria Vanessa Espíndola, há 10 anos como baterista da banda Mr. Simple.

PEDRO SOBRINHO - A vocação veio primeiro com a bateria ou psicologia?

VANESSA ESPÍNDOLA - A bateria veio primeiro, aos quinze anos, já tocava instrumentos de corda desde os 13 e resolvi me aventurar na batera aos 15. Logo em seguida, cerca de um ano e meio depois, fiz o vestibular para psicologia e passei.

PEDRO SOBRINHO - Como você consegue conciliar duas atividades distintas ?

VANESSA ESPÍNDOLA: Desde a época da faculdade e logo depois de formada, era meio complicado. Achava que tinha que escolher entre a música e a psicologia. Depois a dicotomia ficou entre a música e a psicanálise. Por algum tempo, sofri com isso. Mas pude me dar conta de que é possível, sim, trabalhar nas duas áreas. Elas dialogam. Existem vários trabalhos sobre psicanálise e música, inclusive minha monografia tratou sobre a música guardar uma dimensão de manifestação do inconsciente. Hoje, trabalho com música mais aos fins de semana. Uma atividade que me diverte muito. Durante a semana me dedico aos estudos e trabalhos como psicóloga.

PEDRO SOBRINHO - Na área de psicologia, você trabalha no Detran, na Prefeitura de São Luís. Qual o trabalho que você desenvolve como psicóloga nas duas instituições ?

VANESSA ESPÍNDOLA: No Detran, estou na área de Educação para o Trânsito, trabalhando com a estimulação e sensibilização da comunidade em prol de um trânsito mais seguro. O principal veículo da nossa coordenação hoje são as blitzen educativas/fiscalizatórias, em parceria, com Polícia Militar, CPRV, SMTT, demais instituições de trânsito. No âmbito municipal, trabalho no Centro de Referência à Mulher em situação de violência - Casa da Mulher, onde presto acompanhamento psicológico às mulheres.

PEDRO SOBRINHO - Na Prefeitura de São Luís, você disse trabalhar com mulheres em situação de risco. Como você vê essa questão da violência contra a mulher ?

VANESSA ESPÍNDOLA: É algo que necessita de muita atenção e seriedade. A violência é um fenômeno multifacetado e complexo. Vivemos num momento social em que ela é tão recorrente que tem sido banalizada. Isso é preocupante. A violência entra onde não há mais palavra que dê conta. Cada mulher advém de uma cultura de submissão, mas ela é autônoma em sua vontade, e a responsabilidade de decidir sobre a vida é sua. Essa perspectiva de trabalho permite que ela possa se questionar como ela está implicada nas suas escolhas. Afinal, é ela quem paga o preço por elas. É por aí, que eu conduzo meu trabalho com cada uma delas. O trabalho com a política para as mulheres é árduo, porque não soa tão interessante a alguns gestores públicos. Daí, a ralação que quem está nessa área faz.

PEDRO SOBRINHO: No campo da arte, você escolheu a bateria, um instrumento mais tocado por homens. Como foi a reação em casa, dos amigos e dos próprios músicos, quando você resolveu tocar bateria?

VANESSA ESPÍNDOLA: A reação é diversa. Meus pais não gostam, mas na maioria das vezes, eles respeitam. Ganhei minha primeira bateria do meu pai, depois de muita insistência da minha mãe. Eles me apoiaram, deixando-me estudar e ensaiar com as bandas em casa. Olha que batera incomoda e muito; mas não me acompanhavam em shows não. Quanto aos amigos e músicos, a maioria dá um bom suporte, valorizam e me ajudam a carregar o instrumento, além de me prestigiarem indo aos shows, comprando os CDs da Mr. Simple.

PEDRO SOBRINHO: O que te fascina ao tocar bateria ?

VANESSA ESPÍNDOLA: O som, principalmente, e a possibilidade de descarregar tensão. Pra mim, a bateria tem efeito terapêutico.

PEDRO SOBRINHO: Quais as suas influências como baterista ?

VANESSA ESPÍNDOLA: Gosto dos grandes nomes, bateristas que ficaram famosos como banda ou instrumentistas solo. Sou fã do Mike Portnoy (Dream Theater). Ele é extremamente criativo e técnico. Gosto muito do Tommy Aldridge, o batera da minha banda favorita, o Whitesnake, e de algumas outras. Dos nacionais, curto o Aquiles Priester, Alexandre Aposan, Maurício Meinert, normalmente bateristas de bandas de rock mesmo.

PEDRO SOBRINHO: E no Maranhão ?

VANESSA ESPÍNDOLA: Daqui do Maranhão, admiro muito a técnica do meu antigo professor Oliveira Neto; Fofo Black, Daniel Aranha e o Isaías Alves, também são muito bons.

PEDRO SOBRINHO: Você já tocou com vários músicos, mas a sua relação mais forte é com a banda Mr. Simple, onde você é baterista há oito anos. Como é sua relação com o restante da banda, onde você é a única mulher ?

VANESSA ESPÍNDOLA: É, tenho uma boa experiência com a galera que toca aqui em São Luís, pelo menos do rock. Os meninos da Mr. Simple são uns fofos, Paulinho e Otávio. Já estão na estrada alguns anos antes de mim e sempre foram muito parceiros e pacientes. A Mr. Simple faz 10 anos de banda agora e uma década de convivência não é feita só de coisas boas, mas nós nos tornamos muito amigos com o passar dos anos, viramos uma família já. É muito legal estar de volta na banda depois de uma pausa de dois anos. Hoje, estamos com muitos planos e trabalhando bastante em novos projetos.

PEDRO SOBRINHO: Você é a única mulher a tocar bateria em São Luís ?

VANESSA ESPÍNDOLA: Não, tem muita gente boa aqui, muitas 'gurias' pelas escolas de música estudando com afinco para viverem de bateria e de música.

PEDRO SOBRINHO: Como é a reação das mulheres quando veem você tocando bateria ?

VANESSA ESPÍNDOLA: Elas gostam, algumas fazem questão de me cumprimentar e elogiar pela coragem de encarar um instrumento que sustenta o ritmo da banda.

PEDRO SOBRINHO: Qual a mensagem que você manda para as mulheres no Dia Internacional da Mulher, festejado nessa terça-feira, 8 de março ?

VANESSA ESPÍNDOLA: Que cada uma possa se responsabilizar por suas escolhas e se implicar naquilo que as move, o de cada uma para cada uma: o desejo.

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