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COLUNA
Pedro Sobrinho
A cultura é rica e diversa. Como jornalista convido você pra colar na coluna PEDRO SOBRINHO com resenhas e abordagens sobre: artes visuais (pintura, escultura, fotografia), música, literatura
Resenha

Ouvir música maranhense é a melhor pedida para 2026

Na primeira versão da coluna em 2026, a gente destaca a vida de quem faz música independente a partir do Maranhão. E destaca quem fez acontecer em 2025. E o que ouvir no ano que se inicia

Pedro Sobrinho / Jornalista

Atualizada em 06/01/2026 às 23h26

Hoje, dia 5 de janeiro de 2026, primeira segunda-feira do ano, fui pela manhã ao neurologista e, à tarde, ao psicólogo, fazer um check up, pois "estou com os nervos à flor da pele", ao assistir a série Black Mirrors, que na verdade, se refere à coleção de distopias futuras sombrias já assombrando o presente embriagado de Fake News.

Célia Sampaio: um dos destaques da música maranhense em 2025 ao ser convidada por Iza para participar do show da artista carioca no Festival The Town, em SP. Foto: Divulgação
Célia Sampaio: um dos destaques da música maranhense em 2025 ao ser convidada por Iza para participar do show da artista carioca no Festival The Town, em SP. Foto: Divulgação

Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo, descreveu não a um regime de opressão pela violência, mas pela anestesia geral causada pelo prazer artificial, consumo constante, desinformação e ausência de vínculos reais. Em um mundo saturado de estímulos digitais, redes sociais e diversões infinitas, percebe-se o eco direto dessa previsão. Estamos diante de uma sociedade queima-livros, onde o perigo não é apenas o fogo das chamas, mas a indiferença em um “naco” de pessoas: “Não é necessário queimar livros para destruir uma cultura. Basta que as pessoas parem de lê-los”, diz Ray Bradbury, em Fahreinheit 451. E o reflexo são as narrativas absurdas e equivocadas das redes sociais, as teorias da conspiração, o comunismo engolindo crianças. São tantos delírios causando efeitos colaterais na lucidez, coerência e no bom senso. E o melhor remédio foi procurar um neurologista e um psicólogo, que foram unânimes e recomendaram pra minha saúde mental e qualidade de vida: viagem, leitura e músicas relaxantes.

Núbia: um dos destaques da música maranhense em 2025. Foto: Divulgação
Núbia: um dos destaques da música maranhense em 2025. Foto: Divulgação

E não é que acertaram em cheio com estas receitas básicas e exatas, pois são três coisas que mais gosto de fazer na vida. E já que a música, além de diversão, é a cachaça no meu dia a dia, resolvi ativar a minha coluna de 2026, destacando a vida de um músico independente em qualquer lugar do mundo. Uma coisa é certa: a tarefa é nada fácil. É uma jornada de autonomia total, pois assume vários papeis, com grande controle criativo, muito trabalho, instabilidade como realidade, disciplina e resiliência para equilibrar a arte com gestão financeira, a conexão com o público, os desafios da carreira, que exige preparação emocional para lidar com algumas frustrações, sempre a espera por reconhecimento.

Convivo com o stress constante porque sou um jornalista cultural, inquieto e, também, inconformado, com algumas coisas que observo na cena musical brasileira independente, especial no Maranhão. E com o olhar não de querer humilhar, mas apenas o de iluminar, vejo que não é por falta de cena que o mundo artístico não se sustenta, não é apenas por falta de política pública cultural, não é por falta de público, nem de crítica. Às vezes por falta de seres pensantes, ousados, criativos, humildes, que também aprendam a entender que existe a diversidade com coerência para dialogar. Também sinto falta de um movimento local efervescente concebido a partir do espírito coletivo. Já que isto não acontece por diversos fatores, entre os quais, às vezes pela dispersão entre a classe artística e da ausência de um política cultural, que contemple com dignidade o artista local, principalmente, os autorais (bandeira essa levantada por mim sempre). Enfim, em meio imbróglios, insatisfação, do mais do mesmo em São Luís, penso (eu) que resta, também, para o artista independente que se permita a construir um caminho solo autêntico, sustentável, que atenda mercados e "nichos", sejam eles formados por grandes plateias ou para uma imensa minoria.

Vinaa lançou o disco
Vinaa lançou o disco "Quando os Guarás Ecoam as Vozes da Floresta”, correu o Brasil e participou do Festival Nativos, na Cop30, em Belém (PA). Foto: Divulgação

Mesmo em tempos conturbados pela distopia, incompreensão humana, desinformação, guerra fria e cultural, a música, ainda, é uma das manifestações artísticas que salva. Portanto, vamos celebrar 2026 à base de muita música brasileira produzida no Maranhão. E só para não esquecer 2025, os meus parabéns a quem com atitude correu riscos, no ano que passou, entre os quais, Núbia, Célia Sampaio, Vinaa (trio que deu tapa de luva naqueles que não acreditam que a música feita em nosso território é possível). Tivemos, ainda, como destaques: Itaercio Rocha, Gugs, Isaías Alves, Enme, Paolo Ravley, Orquestra Guajajara, Beto Ehong (Vixe Beat), Paulão, Luiz Cláudio, Luma Pietra, Criola Beat, Bastardzz, Klicia, Rejane Araújo, Ross, Rayslla, Seu Garrê, Clara Madeira, Nicolle Terrestre, Emanuele Paz, João Beydoun, PV Silveira, Os Tropix, todos músicos independentes da terrinha, donos de uma trajetória musical independente marcada por resiliência, perserverança e resistência. 

E que toda essa trupe continue a brilhar, fazer barulho, em 2026, e que novos nomes apareçam, e que aquela geração de músicos lá atrás, considerados por mim divisores de águas em tudo que existe hoje produzido na música local, continuem a produzir. E como ouvintes o que nos resta é consumir o que é nosso ano que se inicia, até porque a vida é bela, breve, só nos resta viver intensamente e acreditar que, sempre, existirá uma luz no fim do túnel.


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