COLUNA
Fernando Coelho
Diretor do Instituto Experiência do Cliente, escritor e professor universitário.
Gestão de pessoas

Como receber um novo colaborador na empresa?

Muitas empresas ainda cometem um erro clássico na gestão de pessoas, contratam um novo colaborador, mas não sabem como recebê-lo adequadamente.

Fernando Coelho

O que mais tenho observado nos últimos tempos são organizações que investem tempo e dinheiro em recrutamento e seleção, mas negligenciam uma das etapas mais importantes da jornada do colaborador: o onboarding, ou seja, o processo de integração de novos profissionais. O primeiro dia e a primeira semana de trabalho são momentos especialmente sensíveis. É nesse período que o novo colaborador começa a construir suas percepções sobre a cultura organizacional, a liderança, o ambiente de trabalho e as expectativas relacionadas à sua função.

E essa experiência não pode acontecer de qualquer maneira, segundo o Panorama do Treinamento no Brasil 2025/2026, 95% das empresas participantes da pesquisa oferecem onboarding estruturado. Embora esse número não represente a totalidade das organizações brasileiras, ele demonstra a relevância que o tema vem conquistando na agenda corporativa.

Entretanto, faço uma provocação: ter um programa de onboarding não significa necessariamente realizar uma integração eficaz.

Não adianta entregar uma apresentação institucional, mostrar as instalações e acreditar que o novo profissional está preparado para desempenhar suas atividades. Um processo de integração precisa ser planejado, executado e acompanhado por indicadores de adaptação, aprendizagem, satisfação e desempenho.

Sempre defendo que a experiência do cliente começa com a experiência do colaborador e essa experiência começa antes mesmo do primeiro dia de trabalho.

SE VOCÊ É GESTOR, COMPARTILHO SEIS ORIENTAÇÕES PRÁTICAS PARA RECEBER MELHOR UM NOVO COLABORADOR.

1. Prepare a empresa para a chegada do novo colaborador

A experiência começa antes da chegada! Organize os equipamentos, computadores, senhas de acesso, e-mail corporativo, fardamento, materiais de trabalho e demais recursos necessários para o exercício da função.

Informe antecipadamente aos colegas sobre a chegada do novo integrante, sua função e suas responsabilidades.

Imagine a percepção de alguém que chega ao primeiro dia de trabalho e descobre que ninguém sabia da sua contratação, que não existe computador disponível ou que seus acessos ainda não foram liberados.

Que mensagem essa empresa está transmitindo? Organização também é uma demonstração de respeito e cuidado.

2. Prepare um momento especial de boas-vindas

As pessoas precisam sentir que estavam sendo esperadas. Receber bem não exige necessariamente grandes investimentos financeiros, mas exige intencionalidade e atenção aos detalhes.

Uma prática que considero especialmente interessante é envolver a equipe na recepção. Imagine o novo colaborador chegando e recebendo uma carta de boas-vindas assinada pelos colegas, acompanhada de uma mensagem da liderança.

Pode parecer algo simples, mas esse gesto comunica acolhimento, pertencimento e valorização. Também recomendo apresentar o novo profissional individualmente aos colegas, explicar como será sua primeira semana e reservar um momento para uma conversa genuína com o gestor.

3. Alinhe as atividades, responsabilidades e expectativas

Um dos grandes problemas que encontro nas empresas é a ausência de clareza sobre o que se espera de cada profissional.

O novo colaborador precisa receber sua descrição de cargo, conhecer os Procedimentos Operacionais Padrão (POPs), compreender suas responsabilidades e saber como seu desempenho será acompanhado.

Minha orientação é estabelecer expectativas claras para os primeiros 30, 60 e 90 dias. O que esse profissional precisa aprender? Quais atividades deverá dominar? Quais resultados são esperados? Quais comportamentos serão avaliados?

Quando a empresa não estabelece expectativas, abre espaço para insegurança, retrabalho, desalinhamento e conflitos.

4. Apresente a cultura do negócio

Cultura organizacional não pode ser apenas um conjunto de frases bonitas na parede. Durante o onboarding, apresente a história da empresa, sua missão, visão, valores, posicionamento e propósito.

Mas vá além da apresentação institucional, compartilhe histórias reais que demonstrem como os valores são praticados no cotidiano.

Se a empresa afirma que valoriza o cliente, apresente situações em que a equipe tomou decisões para garantir uma experiência positiva.

Se valoriza a colaboração, mostre exemplos de projetos desenvolvidos entre diferentes áreas.

O novo colaborador precisa compreender não apenas o que a empresa faz, mas principalmente como ela pensa, decide e se comporta.

5. Faça um tour pela empresa

Parece óbvio, mas muitas organizações não realizam essa atividade adequadamente. Apresente os ambientes, departamentos, áreas de apoio, espaços de convivência e as pessoas responsáveis por cada operação.

Explique como os setores se relacionam e de que maneira contribuem para os resultados do negócio.

Esse momento também é uma oportunidade para apresentar normas de segurança, orientações administrativas e canais de comunicação. O objetivo é reduzir a insegurança inicial e facilitar a adaptação do profissional ao novo ambiente.

6. Realize um job rotation na primeira semana

Sempre que possível, recomendo que o novo colaborador tenha uma experiência breve em diferentes áreas da organização. Essa prática é conhecida como job rotation e pode ser adaptada à realidade de cada negócio.

Imagine um profissional contratado para o setor comercial que, durante sua primeira semana, conhece a operação, o financeiro, o atendimento, a logística e o pós-venda.

Ele passa a compreender melhor o funcionamento da empresa e como suas decisões impactam outros departamentos e a experiência do cliente. Essa visão de 360 graus contribui para ampliar o entendimento dos processos, melhorar a colaboração e desenvolver uma perspectiva sistêmica do negócio.

Naturalmente, essa atividade deve respeitar as características de cada função e as condições operacionais da empresa.

O onboarding não termina no primeiro dia

Outro ponto que considero fundamental é compreender que a integração não deve se limitar a uma recepção ou apresentação institucional.

Recomendo que as empresas desenvolvam uma jornada de acompanhamento dos primeiros 90 dias, com conversas periódicas, feedbacks estruturados, avaliação da aprendizagem e acompanhamento do desempenho.

O gestor precisa perguntar como está sendo a adaptação, quais dificuldades o profissional enfrenta e quais recursos são necessários para melhorar sua atuação. Também considero importante avaliar a experiência do novo colaborador por meio de pesquisas de satisfação e indicadores como tempo até atingir a produtividade esperada, cumprimento da trilha de aprendizagem e retenção nos primeiros meses.

Afinal, aquilo que não é acompanhado dificilmente será gerenciado com consistência.

RECEBER BEM TAMBÉM É UMA RESPONSABILIDADE DA LIDERANÇA

Quero encerrar com uma reflexão que considero essencial, a responsabilidade de integrar um novo colaborador não pertence exclusivamente ao departamento de Recursos Humanos.

O RH pode estruturar o programa, organizar as etapas e oferecer ferramentas, mas o gestor imediato tem papel decisivo na experiência de integração.

É a liderança que precisa acolher, orientar, ensinar, acompanhar e garantir as condições necessárias para que o profissional tenha sucesso.

Uma empresa que deseja entregar uma experiência extraordinária aos seus clientes precisa começar cuidando da experiência das pessoas que trabalham nela. Receber, integrar e inserir o novo colaborador na cultura organizacional não é um favor. É uma responsabilidade da empresa e, principalmente, de quem ocupa uma posição de liderança.

E deixo uma pergunta para os empresários e gestores, se um novo colaborador começasse a trabalhar amanhã na sua empresa, ele encontraria uma organização preparada para recebê-lo?

Para mais dicas, ouça meu podcast.

Me siga no Instagram: @coelhofernandofalou

Fernando Coelho

Professor de Negócios, Pesquisador Pós-doutorado em Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão; PhD em Educação com foco desenvolvimento de competências de vendas, negócios e experiência do cliente pela Universidade de Coimbra e UFMG.

Selecionado pela Favikon como profissional mais influente de experiência do cliente do Brasil. Criador da teoria do octógono da experiência do cliente.

Diretor do Instituto Experiência do Cliente e Diretor Técnico do Cliente Oculto IEC.

Palestrante e Autor dos livros Gestão de Vendas e Experiência do Cliente, CX Descomplicado, Fidelizando o Cliente na Prática e mais 4 obras. Selecionado pela Metricx como um dos melhores autores brasileiros na área de Experiência do Cliente.

Conselheiro Consultivo de empresas. Professor convidado na ESPM Rio, Winzper Goiânia, UEMA, FAP Lab e Instituto Navigare.


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