COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kecio Rabelo

Cordas Invisíveis

A civilização não se sustenta apenas por leis ou tecnologias. Ela se sustenta por uma extensa rede de responsabilidades invisíveis.

Kecio Rabelo

A notícia ocupou manchetes, telejornais e redes sociais. Uma jovem foi arremessada em uma atividade de aventura sem que a corda de segurança estivesse devidamente presa. O vídeo correu o mundo em segundos. A cena é impactante. A queda é real.

Mas, como quase tudo em nosso tempo, aquilo que mais chamou atenção talvez não seja aquilo que mais importa.

Estamos na era da imagem. O que se vê adquire relevância instantânea. O que pode ser filmado, compartilhado e comentado transforma-se em acontecimento. O que permanece invisível, muitas vezes, desaparece da nossa capacidade de reflexão.

Todos viram a queda. Poucos perceberam a confiança.

Antes de ser lançada, aquela jovem entregou sua segurança a outras pessoas. Acreditou nos procedimentos. Confiou nos equipamentos. Depositou sua integridade física nas mãos de profissionais treinados para protegê-la. Essa confiança, que não aparece nas imagens, talvez seja o elemento mais importante de toda a história.

A vida em sociedade é construída assim. Todos os dias, confiamos em pessoas que não conhecemos: no motorista do ônibus, no piloto do avião, no médico que nos atende, no engenheiro que calculou uma ponte, no eletricista que instalou uma rede, no servidor público que analisa um processo. A civilização não se sustenta apenas por leis ou tecnologias. Ela se sustenta por uma extensa rede de responsabilidades invisíveis.

Quando essa rede falha, enxergamos apenas o resultado e raramente observamos as causas.

A jovem caiu porque uma corda não estava presa. Mas quantas vezes, em nossa vida cotidiana, outras cordas deixam de ser verificadas? Quantas vezes a pressa substitui a atenção? Quantas vezes a rotina transforma o cuidado em automatismo? Quantas vezes acreditamos que um pequeno detalhe não faz diferença?

O nosso tempo cultua a velocidade: produzir mais, responder mais rápido, fazer mais em menos tempo. Entretanto, a qualidade da vida humana continua dependendo de virtudes antigas: prudência, responsabilidade, atenção e cuidado. Nem mesmo a inovação tecnológica foi capaz de substituir essas virtudes. Nenhum algoritmo consegue compensar a ausência de responsabilidade.

Talvez por isso o episódio tenha provocado tanta comoção. Não foi apenas o risco de uma tragédia. Foi o reconhecimento, ainda que inconsciente, de nossa própria vulnerabilidade. Percebemos que a vida é sustentada por inúmeras cordas invisíveis. Cordas feitas de compromisso, competência, ética e cuidado.

Quando elas estão presentes, quase ninguém as nota. Quando faltam, todos percebem.

Não se deve, portanto, perguntar quem errou naquele instante. A pergunta é se estamos construindo uma sociedade que valoriza suficientemente o cuidado. Uma sociedade que compreende que vidas dependem de detalhes. Que atenção não é um luxo, mas uma obrigação moral.

As imagens da queda desaparecerão com o tempo, como tantas outras notícias. O que deveria permanecer é a reflexão.

No fim, o que sustenta o mundo não é aquilo que aparece. É aquilo que, silenciosamente, impede que as pessoas caiam.


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