COLUNA
De Olho na Economia
É economista com experiência nacional e internacional em análises macroeconômicas e microeconômicas. Possui habilidade em análises setoriais, gestão do capital humano, orçamentos e finanças.
de olho na economia

A fragilidade do agro brasileiro

Dependência externa de fertilizantes expõe o agro brasileiro a crises globais e pressiona custos, produção e segurança alimentar.

Wagner Matos - Economista

A fragilidade do agro brasileiro. (Divulgação)

O mercado mundial de fertilizantes está passando por mudanças complexas. O agravamento de conflitos em regiões estratégicas, como o Oriente Médio e o Leste Europeu, impacta diretamente a oferta global, eleva custos e resulta em menor disponibilidade, volatilidade extrema e preços recordes.

Esse cenário evidencia a urgência de uma estratégia de Estado robusta para o agro brasileiro, setor que representa aproximadamente 27% do PIB brasileiro. Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados em sua produção. Em 2025, o volume importado atingiu 43,5 milhões de toneladas, com Rússia e China consolidando-se como os principais fornecedores, respondendo por quase metade desse montante.

A produção desses insumos é altamente dependente de matérias-primas sensíveis ao mercado energético, como o gás natural, essencial para a síntese da amônia e produção de ureia, além de rochas fosfáticas e sais de potássio (NPK). Como as principais zonas de extração e refino coincidem com áreas de instabilidade geopolítica (Rússia, Ucrânia e Irã), o choque de oferta é imediato. Atualmente, o custo dos fertilizantes nitrogenados e fosfatados tem subido em ritmo superior ao das commodities agrícolas. Na prática, isso significa margens de lucro pressionadas para o produtor, risco de desabastecimento e um inevitável repasse de custos para o consumidor final.

Mesmo diante de um eventual alívio nas tensões geopolíticas, a normalização das cadeias logísticas e produtivas demandará tempo e uma gestão de risco impecável. A pressão sobre a rentabilidade no campo é contínua e os reflexos já transbordam para a segurança alimentar global, alimentando um ciclo inflacionário severo, especialmente em economias em desenvolvimento.

Diante deste cenário global tão instável, a redução da vulnerabilidade externa brasileira dos fertilizantes não é apenas uma questão de mercado, mas de segurança econômica. O fortalecimento de políticas como o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), o investimento em tecnologia de biotransformação e a exploração sustentável de reservas minerais internas são caminhos mandatórios. O momento exige que a eficiência operacional no campo seja acompanhada por uma visão estratégica de longo prazo na tomada de decisão governamental e empresarial, garantindo que o "celeiro do mundo" não fique refém de variáveis que fogem ao seu controle.


As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.