COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Carta de Judas

Não sei a quem escrevo

Kécio Rabelo

Atualizada em 02/04/2026 às 11h29

Não sei a quem escrevo.
Talvez a ninguém. Talvez a todos. Talvez à parte de mim que ainda insiste em procurar sentido depois que o mundo escureceu ao meio-dia.

Conheci Jesus como quem encontra um caminho no meio da poeira.
Não o compreendi de imediato. Ninguém compreendia por inteiro.
Havia nele uma calma que inquietava. Um silêncio que dizia mais que qualquer palavra. E, quando falava, não era apenas ouvido — era sentido, como se suas palavras atravessassem a pele e tocassem algo que ainda não tinha nome.

Eu o segui.

Como tantos outros, segui com esperança e cálculo misturados.
Esperança de redenção. Cálculo de futuro.
Queria nele o libertador — mas um libertador à minha medida.
Talvez tenha sido esse o meu primeiro erro: tentar encaixar Deus dentro das minhas expectativas.

Houve dias luminosos.
Multidões, curas, pão repartido que não se esgotava.
Mas houve também momentos que me desarmaram — como aquele jantar na casa de Zaqueu.
Ali, vi um homem que todos desprezavam ser acolhido sem reservas.
E algo em mim se revoltou.
Não era apenas incompreensão — era incômodo diante de um amor que não fazia distinções.
Um amor que não obedecia à lógica dos merecimentos.

E havia o silêncio dele…
Sempre o silêncio.
Um silêncio que me expunha mais do que qualquer acusação.

Na última ceia, tudo pesou.

O tempo parecia arrastar-se.
Cada gesto carregava um adeus escondido.
Ele falava de entrega, de corpo, de sangue… falava de traição.
E nós — tão próximos e tão distantes — fingíamos não entender.

Quando disse que um de nós o trairia, senti o chão ceder.
Mas permaneci.
Imóvel por fora. Em ruína por dentro.

Na noite do jardim das oliveiras, tudo se decidiu.

A escuridão tinha peso.
Havia passos, vozes, pressa.
E havia o beijo.

Nunca um gesto tão simples carregou tanta condenação.
Nunca algo tão pequeno abriu um abismo tão grande.

Não foi ódio. Foi pior.

Foi fraqueza disfarçada de decisão.
Foi pressa vestida de propósito.
Foi tentativa de controlar o que só poderia ser acolhido.

Talvez eu tenha acreditado que estava apressando Deus.
Que estava provocando o desfecho.
Que Ele reagiria com poder.

Mas Deus… não reage como esperamos.

Na sexta-feira, eu vi de longe.

Entre sombras, escondido entre gritos que mudaram de lado com uma facilidade assustadora.
Os mesmos que aclamaram, condenaram.
Os mesmos braços que ergueram ramos agora apontavam sentenças.

Eu vi o peso da cruz.
Vi o corpo ferido.
Vi o céu escurecer.

E, pela primeira vez… vi com clareza.

Não havia estratégia.
Nem havia erro de cálculo.
Não havia derrota.

Havia amor.

E eu não soube reconhecê-lo.

O som dos martelos não saiu de mim desde então.
Cada golpe não ecoa apenas na cruz — ecoa dentro de mim.
Porque não foi apenas a Ele que eu traí.

Eu me traí.

Traí aquilo que vi.
Traí aquilo que soube.
Traí a verdade quando ela exigiu de mim algo que eu não quis dar: confiança.

Carrego moedas que não compram silêncio.
Carrego lembranças que não permitem descanso.
Carrego um nome que será repetido como sinônimo de queda.

E talvez seja justo.

Mas escrevo.

Escrevo porque minha história não termina em mim.
Ela se repete — silenciosa — em cada escolha pequena, em cada desvio quase imperceptível, em cada momento em que trocamos o essencial pelo imediato.

Há em nós uma fissura.
Uma distância entre aquilo que sabemos ser o bem… e aquilo que escolhemos fazer.
E é nessa distância que nascem as maiores quedas.

Eu caminhei ao lado da verdade — e ainda assim a perdi.

E é isso que torna tudo mais duro.

Porque o perigo não está em não conhecer.
Está em conhecer… e ainda assim não sustentar.

Hoje entendo:
o erro mais profundo não é trair por ignorância — é trair por incapacidade de permanecer.

Na manhã da ressurreição, eu não estava lá.

Mas eu sabia.

Sabia porque o vi devolver vida onde só havia morte.
Vi-o acender esperança onde tudo era ruína.
Porque, mesmo quando tudo parecia perdido… Ele permanecia.

E é por isso que escrevo com a última verdade que me resta:

há sempre uma manhã depois da noite — mas nem todos suportam atravessar a noite.

No fim… não se enganem.

Eu não sou apenas o homem que o traiu.

Eu sou o homem que quis atalhos.
Que preferiu o imediato ao eterno.
Que trocou confiança por controle.

E, por isso mesmo,
sou o espelho que ninguém quer encarar.

Porque Judas, o Escariotes,
não é apenas um nome na história.

É a possibilidade que habita cada um de nós.
É a escolha silenciosa que fazemos quando abandonamos o que sabemos ser certo.
É o gesto pequeno que abre grandes abismos.

Mas outra vez é Páscoa.

E, outra vez, a travessia está diante de nós.

Sem moedas.
Sem cálculos.
Sem atalhos.

Apenas um caminho estreito — onde só passa quem tem coragem de confiar.

E talvez seja essa a diferença entre mim…
e aqueles que ainda podem recomeçar.


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