COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Ressurreição e/é travessia

A ressurreição não resolve a vida, ela a reabre.

Kécio Rabelo

O tema da ressurreição sempre me causou interesse. Talvez porque, como afirma São Paulo, é nela que a fé cristã encontra o seu fundamento mais radical. E talvez também porque a morte permanece, para mim e para todos nós, como um grande mistério, silencioso, incontornável, sempre à espreita das nossas certezas.

Mas pensar a ressurreição como um evento extraordinário, quase espetacular, é reduzir sua força e, de algum modo, esvaziar sua essência. Não se trata de pirotecnia divina, nem de uma ruptura arbitrária da ordem natural. A ressurreição, antes de tudo, pode e deve ser compreendida como uma experiência profunda de encontro, um modo de presença que transforma por dentro, que reabre caminhos onde só havia fechamento. Aliás, todos os relatos do Ressuscitado contidos nos Evangelhos se desenrolam em cenas de encontro.

O episódio dos discípulos de Emaús, narrado no Evangelho de Lucas, talvez seja uma das imagens mais delicadas dessa experiência. Eles caminham entristecidos, retornando às suas vidas e ao seu povoado, atravessados pela frustração e pela perda. Carregam não apenas a ausência de Jesus, mas o colapso de suas expectativas. É nesse estado, humano, frágil, desorientado, que o Ressuscitado se aproxima.

Não se aproxima com imposição, mas com companhia, até mesmo como uma “estranha” companhia. Não com evidência imediata, mas com escuta, com partilha, com presença. É a experiência que todos já tivemos alguma vez: a de uma palavra, de um abraço ou de uma presença silenciosa que, sem explicar tudo, sustenta o nosso caminhar.

“Não ardia o nosso coração enquanto Ele nos falava pelo caminho?” O reconhecimento não vem pelo espetáculo, nem decorre de uma apresentação formal, mas da experiência interior. É no partir do pão, no gesto simples e cotidiano, que os olhos se abrem. É nos gestos, sempre na concretude deles, que reconhecemos o outro e também a nós mesmos. O gesto, muitas vezes, antecede a própria consciência da presença.

Aqui, a ressurreição revela sua densidade mais profunda: ela acontece como acolhida de um Outro em nós. Não é apenas Jesus que vive, é Ele que passa a viver em quem O reconhece. A experiência pascal, nesse sentido, é menos um fato isolado no tempo e mais uma abertura contínua da existência.


 

Por isso, a ideia de travessia se impõe.

A Bíblia é, em grande medida, uma narrativa de travessias: do Egito à liberdade, do deserto à terra prometida, da morte à vida. Mas, com os discípulos, essa travessia ganha uma dimensão existencial e espiritual. Eles não mudam apenas de lugar, mudam de condição. Saem da paralisia para o movimento, do luto fechado para a esperança que se reabre.

A travessia pascal é, portanto, interior.

Ela acontece quando, mesmo presos às nossas dores, angústias e frustrações, somos capazes de continuar caminhando. Quando permitimos que uma presença, discreta e muitas vezes não reconhecida de imediato, nos acompanhe. Quando, no meio do caminho, algo volta a arder dentro de nós.

Mas essa travessia não se dá no vazio. Ela se inscreve nas tensões concretas da existência contemporânea.

Há, em nós, uma sede de algo maior que nenhuma conquista plenamente satisfaz. Vivemos rodeados de estímulos e possibilidades, mas permanece uma sensação de incompletude, como se carregássemos a memória de uma plenitude ainda não realizada. Ao mesmo tempo, experimentamos uma solidão acompanhada: nunca estivemos tão conectados e, ainda assim, tantas vezes incapazes de verdadeira presença. Como os discípulos a caminho de Emaús, podemos até caminhar juntos, mas fechados em nós mesmos, sem reconhecer o outro que nos atravessa.

A isso se soma o peso da finitude, ainda vivida como ameaça e ruptura absoluta. Evitamos a morte, silenciamos sobre ela, mas ela continua a moldar nossos medos mais profundos. Não apenas a morte física, mas também aquelas pequenas mortes que se insinuam no cotidiano da vida. E, não raro, nos vemos presos a ciclos de opressão, externos ou interiores, que se repetem, se reinventam, se perpetuam.

Romper com esses ciclos exige coragem, porque implica deixar para trás o que, embora limitador, nos é familiar. Por isso, há também a tentação constante de voltar à “normalidade”, ao conhecido, ao que parece seguro, ainda que já não seja plenamente vivo. É o risco sempre presente de escolher a estagnação, ou, em última instância, de optar pela morte em vida.

É nesse cenário que a ressurreição se revela não como evasão, mas como deslocamento. Ela não elimina o sofrimento, nem dissolve o mistério da morte, mas oferece outra chave de leitura: a de que nem tudo se encerra onde parece terminar. Ela nos impede de regressar intactos ao que éramos antes. Quem atravessa a experiência pascal já não cabe mais nos antigos limites.

Seguir o Nazareno é, nesse sentido, aceitar entrar nessa dinâmica, não como quem possui respostas prontas, mas como quem se dispõe ao caminho. A ressurreição não resolve a vida, ela a reabre.

E talvez seja isso o mais exigente - e, ao mesmo tempo, o mais belo: reconhecer que a travessia não é apenas dos discípulos de Emaús, mas de cada um de nós.

A ressurreição, assim compreendida, deixa de ser um ponto final extraordinário e se torna um movimento contínuo, um chamado a atravessar, a cada dia, aquilo que em nós ainda não encontrou vida.

É, portanto, travessia, para eles, ontem, para nós, hoje, e sempre, em todo tempo e lugar, como ecoa na canção de Milton Nascimento: “eu não quero mais a morte, tenho muito que viver”.


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