A mensagem do engenheiro eletricista Sandoval Feitosa no II CBME
Ao rememorar sua própria trajetória, trouxe ao debate uma dimensão que reforça o papel transformador da formação técnica e da educação continuada.
Em um cenário internacional marcado por instabilidades geopolíticas e crescentes tensões no fornecimento global de energia, o Brasil passa a se posicionar diante de uma oportunidade histórica, mas também diante de desafios que exigem elevada maturidade institucional. Foi nesse contexto que o Diretor-Geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Eng. Eletric. Sandoval Feitosa, apresentou uma reflexão de elevada relevância técnica e estratégica durante sua participação no painel de abertura do II Congresso Brasileiro da Modalidade Elétrica (CBME).
A programação do II CBME (Congresso Brasileiro da Modalidade Elétrica), realizada em 23 de março de 2026, evidenciou, de forma inequívoca, a centralidade do debate regulatório para o futuro do setor elétrico brasileiro. No painel “Regulação, Segurança Jurídica e Investimentos no Setor Elétrico”, realizado às 10 horas, foram reunidas visões complementares que convergem para um ponto essencial: a construção de um ambiente institucional estável, capaz de sustentar, com segurança jurídica e previsibilidade, a expansão da infraestrutura energética.
A condução dos trabalhos esteve a cargo da Eng. Eletric. Adriana Resende Avelar, Presidente do CREA-DF, e do Eng. Comp. Ricardo Nascimento, Presidente da ABEE Nacional, que imprimiram ao debate um caráter técnico qualificado, favorecendo a articulação entre regulação, engenharia e desenvolvimento setorial, em um ambiente propício à construção de entendimentos estratégicos.
Nesse contexto, Juliana Viana Rodrigues Pimentel, Superintendente de Relações Institucionais da Neoenergia, apresentou o posicionamento da empresa, destacando que a segurança jurídica e a previsibilidade regulatória não constituem apenas atributos desejáveis, mas condições efetivas para a atração de investimentos e para a expansão sustentável do setor elétrico brasileiro. Ainda assim, o desafio que se impõe vai além da previsibilidade normativa, exigindo coerência regulatória ao longo do tempo, estabilidade decisória e capacidade institucional de lidar com ciclos políticos sem comprometer a confiança dos agentes econômicos.
Na sequência, o Eng. Eletric. Sandoval Feitosa aprofundou o debate ao abordar o papel da regulação como vetor estruturante das transformações em curso no setor elétrico. Ao tratar dos avanços institucionais promovidos pela ANEEL, evidenciou o esforço contínuo da Agência na consolidação de um ambiente regulatório mais consistente, capaz de reduzir incertezas, estimular investimentos e acompanhar as mudanças impostas pela transição energética. Em sua fala, sintetizou de forma precisa a centralidade do tema ao afirmar que, no Brasil, a energia elétrica ultrapassa a condição de insumo essencial, assumindo o papel de elemento essencialíssimo para o funcionamento de toda a infraestrutura nacional.
Sua exposição, contudo, não se limitou ao plano institucional. Ao rememorar sua própria trajetória, trouxe ao debate uma dimensão que reforça o papel transformador da formação técnica e da educação continuada.
Recordou, com legítimo orgulho, o início de sua carreira como eletricista formado pelo SENAI, avançando posteriormente para a formação como técnico em eletrotécnica pelo então CEFET-PI, atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI), até alcançar a graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Maranhão. Esse percurso evidencia, de forma concreta, a importância da base técnica na formação de profissionais capazes de alcançar posições estratégicas na engenharia e na regulação, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de valorização das trajetórias formativas que começam na educação profissional.
Essa sólida formação foi posteriormente aprofundada no campo acadêmico e estratégico. Possui o título de Mestre em Engenharia Elétrica, com ênfase em Regulação Técnica e Econômica da Transmissão de Energia Elétrica, pela Universidade de Brasília, além de especialização em Administração de Empresas com ênfase em Estratégia pela Fundação Getúlio Vargas. Também concluiu o Program on Utility Regulation and Strategy pela University of Florida, reforçando sua qualificação internacional na área regulatória.
Essa formação foi complementada por experiências no setor elétrico, com passagens pela Companhia Energética do Maranhão e pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, onde vivenciou diretamente a realidade operacional dos sistemas de energia, compreendendo, na prática, os desafios inerentes aos sistemas elétricos de potência. Trata-se de uma vivência que, não raramente, diferencia a atuação regulatória estritamente normativa daquela que incorpora a complexidade técnica do sistema real.
A partir de 2005, ao ingressar na ANEEL por meio de concurso público para o cargo de Especialista em Regulação, sua trajetória passa a se consolidar no ambiente técnico-regulatório. Ao longo dos anos, ocupou funções estratégicas, incluindo Assessor Técnico da Diretoria, Superintendente de Regulação dos Serviços de Transmissão e Superintendente de Fiscalização dos Serviços de Eletricidade, construindo uma visão abrangente e integrada do setor elétrico brasileiro.
Sua nomeação como Diretor da ANEEL, em 2018, e, posteriormente, como Diretor-Geral, em 2022, com mandato vigente até 2027, representa a consolidação de uma carreira construída integralmente no âmbito da regulação, marcada por consistência técnica, experiência acumulada e compromisso institucional.
Ao retomar os desafios contemporâneos, destacou que a modernização do setor elétrico exige não apenas atualização normativa, mas elevada capacidade técnica para lidar com novas dinâmicas operacionais, como a inserção intensiva de fontes renováveis intermitentes, a descentralização da geração e a digitalização das redes. Nesse contexto, a regulação assume papel ainda mais estratégico, na medida em que deve equilibrar inovação, segurança e sustentabilidade, evitando tanto a rigidez excessiva quanto a flexibilização que comprometa a confiabilidade do sistema.
A mensagem que se extrai de sua participação no II CBME se revela clara, mas também provocativa. A energia elétrica não se apresenta apenas como um insumo essencial, mas como o fundamento sobre o qual se estrutura toda a infraestrutura de uma nação. Sem ela, não há funcionamento adequado de serviços públicos, nem desenvolvimento econômico sustentável. A partir dessa constatação, impõe-se uma reflexão inevitável: a fragilidade energética não é apenas um problema setorial, mas um risco sistêmico para o país.
Dessa forma, ao reconhecer a energia como elemento essencialíssimo, Sandoval Feitosa não apenas reafirma um princípio técnico, mas também aponta para uma diretriz estratégica que exige continuidade institucional. O fortalecimento da infraestrutura energética nacional depende, necessariamente, de uma regulação sólida, estável e tecnicamente orientada, aliada a uma engenharia valorizada, qualificada e efetivamente inserida nos processos decisórios.
Em um momento em que o mundo revisita suas bases energéticas, o Brasil dispõe de condições concretas para assumir protagonismo. No entanto, esse protagonismo não será automático. Ele dependerá da capacidade de alinhar planejamento de longo prazo, segurança regulatória e competência técnica. Nesse contexto, a engenharia elétrica assume papel central e insubstituível, sendo responsável por conceber, implementar e sustentar a infraestrutura energética que viabiliza o desenvolvimento nacional. Assim, torna-se evidente que esse futuro dependerá diretamente dos engenheiros eletricistas e dos engenheiros de energia, profissionais que transformam desafios em soluções estruturantes para o país.
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