COLUNA
Coluna do Sarney
José Sarney é ex-presidente da República.
Coluna do Sarney

Não às Armas

Por mim não existiria nenhuma arma nuclear na face da Terra, pois enquanto tivermos um artefato nuclear o mundo não estará tranquilo. E a espécie humana, sempre ameaçada.

José Sarney

Visite a página de Sarney

Uma Guerra Nuclear é o maior pesadelo da Humanidade. Ela tem o potencial de destruir a vida sobre a face da Terra, de maneira direta ou indireta, seja pela contaminação de bilhões de pessoas, seja pela destruição da infraestrutura necessária à produção e distribuição de alimentos aos sobreviventes, seja pelo inverno nuclear, cujas alterações na atmosfera terrestre tornariam inviável toda forma de vida.

Presidente do Brasil de 1985 a 1990, determinei em meu governo o fim de toda pesquisa de artefatos nucleares com fins militares. Ao mesmo tempo estabeleci, em parceria com Raúl Alfonsín, Presidente da Argentina, uma cooperação no desenvolvimento nuclear com fins pacíficos. Finalmente, por proposta de nossos dois países, Brasil e Argentina, em 1986, durante a III Sessão Especial da Assembleia Geral da ONU sobre Desarmamento foi aprovada, com a Resolução no 41/11, a Zona de Paz e de Cooperação do Atlântico Sul, que tornou a região livre de armas nucleares e de destruição em massa.

Os acordos sobre mísseis nucleares têm uma longa história. Desde os SALT e START até o Tratado de Moscou e o New START, de 2010, Estados Unidos e Rússia têm examinado a redução de armas nucleares estratégicas, enquanto o INF, de 1988, baniu as armas de alcance intermediário. Infelizmente, em 2019, os Estados Unidos deixaram o INF e, agora em 2026, expirou o New START. Não há mais acordo para limitar suas armas nucleares.

Assim, na última década, tivemos um retrocesso no controle das armas nucleares, que são perigosas demais para esgotar-se nas negociações entre os dois países, pois afetam toda a Humanidade.

É doutrina inconcebível a segurança de alguns pela insegurança de todos. A tarefa da salvação é de todos, sem exclusão de ninguém. O enfraquecimento do multilateralismo é danoso à causa da paz. O desarmamento, por maiores que sejam os arsenais das grandes potências, não pode ser apenas uma discussão a dois.

A natureza e tudo que vive estão no âmago desta questão. Não é a arte da guerra. É a questão transcendente da vida, não como um bem individual, mas filosófico, coletivo, que é ameaçado, desde o pobre índio da Amazônia, desde a mais pequenina flor adormecida, cultivada com dificuldade, até toda a riqueza acumulada pelos homens, nos países e nos continentes. A destruição total não escolhe entre ricos e pobres. Ceifa o gênero humano. A morte a invadir seres e coisas. O silêncio eterno.

Estou profundamente preocupado e com medo das consequências depois que esse acordo nuclear entre Estados Unidos e Rússia teve seu prazo vencido sem que as duas potências o renovassem. Isso representa, sem dúvida, uma grande ameaça para a Humanidade, que se vê, uma vez mais, exposta ao abismo da incerteza.

Não é que tenhamos algum conflito iminente a nos apontar para um conflito nuclear, que se tenha nesse vácuo uma sedução para o uso desse dédalo final, mas subsiste o medo de que qualquer conflito no futuro conduza a Terra a uma catástrofe absoluta.

Nesse sentido me dispus a escrever esse artigo movido pelo ideal pacifista, cumprindo com meu dever de consciência, uma vez que ao longo da vida sempre me posicionei contra o uso de armas nucleares, na esperança de que minhas palavras ecoem em outros espíritos com este mesmo ideal.

Por mim não existiria nenhuma arma nuclear na face da Terra, pois enquanto tivermos um artefato nuclear o mundo não estará tranquilo. E a espécie humana, sempre ameaçada.

Pelo bem da Humanidade, que os Presidentes Donald Trump e Vladimir Putin voltem a conversar e acordar tratados pela progressiva redução dos seus arsenais nucleares.

A Humanidade passaria a dever aos dois presidentes a coragem de romper barreiras e começar de maneira efetiva um programa de desarmamento; que não pode parar e que deve continuar, para que se rompa essa teoria satânica de que a paz é o equilíbrio do terror.

Tenho autoridade para me manifestar dessa maneira por ter sido, com Raúl Alfonsín, o Estadista das Américas, responsável pela exclusão das Armas Nucleares, o que tornou a América Latina como a primeira zona densamente habitada do mundo a ser oficialmente livre de armas nucleares.

Não às armas. Tudo pela Paz.


As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.