COLUNA
Coluna do Sarney
José Sarney é ex-presidente da República.
Coluna do Sarney

O Nada e o Tudo

Resolvi sonhar com o mundo futuro, com paixões, sonhos, poetas e heróis, que virá depois de passarmos pelos robôs e pelas máquinas.

José Sarney

Pensando no Trump, no Netanyahu, no Mojtaba Khamenei (o filho do Khamenei que está aí), no Maduro, no Putin, no Milei, no Santiago Peña (que quer atirar no Brasil) e em todos os ilustres perturbadores das nossas cabeças, resolvi sonhar com o mundo futuro, com paixões, sonhos, poetas e heróis, que virá depois de passarmos pelos robôs e pelas máquinas — coitadas delas, que não sonham nem pensam, mas pelo menos estão livres da maldição dos fazedores de guerra! —, e escrever uma reflexão sobre a confusão do mundo atual. Principalmente, do mundo de cá.

Como uma vez presenciei o Carlos Lacerda que, sem assunto, me disse que ia falar sobre os animais em sua coluna, eu, ao contrário, com muito assunto, decidi não falar sobre nada disso, mas, ao mesmo, refletir sobre tudo.

Assim começo este artigo de hoje.

Deus poderia ter feito o mundo sem que o homem necessitasse de construir nada para melhorá-lo. Todas as coisas no lugar certo, todos os homens sem o dilema entre o Bem e o Mal. Era o que tinham Adão e Eva, os primeiros e os últimos seres a provar a utopia ecológica.

Foi por isso que Rousseau e Malherbe, em momentos diferentes, viram o selvagem feliz e a beleza de viver num mundo sem ambições. Triste engano. Adão, Eva e os índios que foram batizados em Notre Dame, deixando Paris de mais de 400 anos atrás excitada, vendo seres de outros mundos e estrelas, tão cheios eram de vaidade quanto os poetas de França.

Deus fez a obra da natureza de uma matéria convulsa, em contorções permanentes, de seres nascendo e morrendo, de gases que se combinam e destroem, de gente à feição do Criador, mas a alma dividida com o Diabo. E provou com as próprias Escrituras, quando aludiu ao fato da tentação de Cristo pelo demônio. O que diz o demônio a Cristo?

— Dar-te-ei todos os prazeres da Terra, desde que me entregues tua alma.

E mostrou-lhe do alto do monte o mundo e suas seduções. Ora, argumentou o Padre Vieira, se o Diabo oferecia o mundo, era porque este era dele.

Mas o Criador não fez nem o mundo, nem o homem perfeitos justamente para que este participasse da obra da criação. Escondeu-se na fé para dar ao homem o maior de todos os seus bens: a liberdade. A liberdade de construir o mundo e de descobrir o caminho da virtude, dividido entre o bem e o mal.

Chegamos ao fim da História e ao começo de outra época. Já se pode ver o mundo do futuro, interdependente, sem fronteiras, com o conceito de soberania desmoronado em favor do ideal universal da sobrevivência da própria humanidade. Um mundo da informática, em que ninguém precisa sair de casa, lugar onde se trabalha, diverte, dorme, administra e reza. Tudo nas telas coloridas, no gingado dos robôs. Não haverá mais mistérios. Tudo se sabe, desde o conteúdo da partícula fundamental da matéria, raiz do universo, até a previsão de todos os fenômenos e do futuro. Não faltará a viagem ao interior da alma humana e a construção de seres sintéticos, sem necessidade dessa coisa de amor e sexo.

Nada mais terrível e aterrador do que a visão desse mundo triste, sem ideias, sem Deus, sem a liberdade de escolher entre a virtude e o pecado.

Não nos entreguem ao mundo frio das máquinas. Vamos continuar na aventura de um mundo feito com o suor do homem, o trabalho, o emprego, a inteligência, o idealismo, os heróis, os mártires e os poetas.

Assim é a vida.

Lembro aqui o poema do meu querido amigo Bandeira Tribuzzi, o grande poeta maranhense, que escreveu estas palavras em seu "A máquina do mundo".

Pelos campos do mundo, o coração,

menino a quem de novo concederam

a alegria de sua condição,

irá cantando o canto que esqueceram

aqueles que sozinhos caminhavam

e, perdidos no mundo, estiolavam

a alegria — futura rosa rubra:

do silêncio de outono enfim desperta,

a congregada força humana obscura

vai tecer a futura primavera!


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