COLUNA
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão, pós-graduado em Direito e vice-presidente do Moto Club. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

Um Maremoto de emoções

O jogo não se resolveu apenas no número frio do 1 a 1. Ele ficou suspenso no ar, como certas lembranças que o tempo não consegue encerrar.

Vítor Sardinha

Naquela tarde quente no Castelão, o futebol voltou a cumprir seu papel mais antigo no Maranhão: reunir pessoas em torno de uma esperança que insiste em não apagar, mesmo quando a lógica do placar tenta contrariá-la. O clássico Maremoto terminou empatado, é verdade. Mas o jogo não se resolveu apenas no número frio do 1 a 1. Ele ficou suspenso no ar, como certas lembranças que o tempo não consegue encerrar.

O Moto Club entrou em campo como quem carrega uma história pesada nos ombros - uma história feita de glórias antigas, decepções silenciosas e uma fidelidade popular que atravessa gerações. Do outro lado, o Maranhão Atlético Clube, com sua camisa quadricolor, representava a outra metade dessa cidade dividida por afetos, mas unida pelo mesmo amor ao jogo. Quando a bola rolou, não era apenas futebol: era memória em disputa.

 

O empate veio manchado por um velho fantasma conhecido do torcedor maranhense: a arbitragem. Os dois gols da partida não deveriam ter sido validados, mas encontraram o caminho da rede, como se a regra tivesse fechado os olhos por alguns segundos - o suficiente para ferir a sensação de justiça que o futebol promete, mas nem sempre entrega. No estádio, houve aquele silêncio breve, denso, que antecede a indignação. Não era só sobre os gols. Era sobre a repetição, e aquela resignação amarga tão conhecida de quem acompanha o futebol local nos últimos anos: a sensação de que o erro não é exceção, mas rotina.

Ainda assim, o jogo guardou um instante de beleza pura. Aos 42 minutos do segundo tempo, quando o cansaço já pesava nas pernas e o empate parecia destino, um jogador Jeffinho do Moto ousou olhar além do óbvio. Viu o goleiro adiantado, viu o espaço, viu o impossível - e arriscou. A bola partiu de antes do meio-campo, desenhando no ar um sonho coletivo. Por alguns segundos, o Castelão prendeu a respiração. Era impossível não lembrar daquele lance eternizado por Pelé, quando o Rei tentou o gol que não entrou, mas ficou para sempre.

 

A bola beijou o travessão, faltou pouco. Mas, às vezes, o quase é mais revelador que o feito. Aquele chute dizia muito sobre o Moto: a coragem de tentar, mesmo quando o cenário é adverso; a vontade de ir além, mesmo sabendo que o erro - humano ou arbitrário - pode surgir no caminho. A bola não entrou, mas o recado ficou pros torcedores presentes.

Aquele chute dizia que há leitura, há ousadia, há futebol sendo pensado - sinais claros de um time que se reorganiza não apenas na prancheta, mas na alma. Empatar com o MAC, nas condições atuais, não é detalhe. É afirmação. É dizer que a distância entre as divisões não é intransponível quando há trabalho, identidade e vontade de reconstruir com seriedade.

O clássico terminou empatado. Mas quem saiu do Castelão atento percebeu: mais do que um ponto somado, o Moto apresentou algo raro no futebol pragmático de hoje - um projeto que começa a ganhar forma. E, às vezes, isso vale mais do que qualquer vitória imediata.


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