COLUNA

Isaac Viana
Isaac Viana é psicólogo, mestre em Cultura e Sociedade, professor universitário e escritor.
Isaac Viana

Melhor não ler? (inspirado em José Neres)

Pra que serve ler ficção? Pra que perder tempo lendo o livro quando eu posso ver o filme? O que essa leitura vai agregar à minha vida profissional? O que eu ganho com isso?

Isaac Viana

Boa leitura é aquela que, depois de terminada, continua fazendo caminho dentro do leitor. São inquietações, interpelações, das mais diversas naturezas, que nos conduzem por reflexões propiciadas pelo texto.

Ontem, depois de um dia extenuante de trabalho, ao parar para ler e voltar ao meu eixo, me deparei com uma obra dessas. José Neres, professor, escritor, membro da Academia Maranhense de Letras (AML) e de outras instituições literárias maranhenses de grande prestígio, tinha recém-publicado, no site Notícias da Região Tocantina, um conto intitulado Melhor não ler... pelo menos este conto. Como é bem sabido, um texto que começa com Melhor não ler... pede para ser lido.

A narrativa curta conta a história de um homem que, depois de quarenta anos lendo obras de ficção, decide que não o fará mais. O motivo? O próprio protagonista explica: “(...) comecei a reparar que perdi muito tempo de minha vida lendo coisas sem o menor sentido. Por isso agora resolvi parar. Que sentido tem ler uma história de um coelho que se transforma em muitos animais e tem o sonho de virar gente? Que sentido tem acompanhar o retorno de um guerreiro que, para voltar aos braços da amada, enfrenta sereias e uma feiticeira capaz de transformar homens em porcos? (...) A partir de hoje só leio as notícias de jornais e, no caso de televisão e da internet, nada de filmes… apenas jornais e documentários. Preciso de uma dose de realidade para me descontaminar desses quarenta anos de fantasia e de ficção”.

Passado certo tempo dessa decisão, no entanto, algo de absurdo acontece: sem se dar conta do fato, e contente com a vida que está levando, nosso protagonista começa a diminuir ininterruptamente, conforme sua falecida mãe, leitora assídua de quem ele herdara o hábito da leitura, tinha vaticinado: “(...) quando a gente não lê acaba atrofiando e diminuindo, diminuindo até desaparecer...”.

Escrito em tom sarcástico, como é típico do autor, o texto é capaz de provocar no leitor, ao mesmo tempo, riso e espanto. Se o cômico está presente pela incapacidade do protagonista de perceber que está em apuros, dado que ele se vê em absoluta vantagem, a despeito de sua real situação, o espanto se dá pela verossimilhança com o mundo contemporâneo, onde, cada vez mais, a leitura de obras ficcionais é secundarizada.     

“Pra que serve ler ficção?”; "Pra que perder tempo lendo o livro quando eu posso ver o filme, a série?"; "O que essa leitura vai agregar à minha vida profissional?"; "O que, afinal de contas, eu ganho com isso?". Essas são perguntas que só fazem sentido num mundo como o nosso, no qual, talvez como nunca antes, preza-se por aquilo que oferece resultados imediatos, tangíveis, em detrimento de práticas contemplativas, que, num primeiro olhar, aparentam ser inúteis – ou será que, de fato, o são?

É como se, no mundo atual, fosse travada uma disputa acirrada pelo nosso tempo. Vence a batalha aquilo que nos oferece mais (no sentido estritamente material da palavra), preferencialmente, exigindo menor preço em troca.

Aliás, em tempos como o nosso, é preciso que se questione onde está o real valor das coisas. Por que a leitura deve ser algo lucrativo? Por que é pensada como importante apenas se tiver ligação direta com nossa área de atuação profissional?

Ainda há aqueles que, bem intencionados, é preciso que se diga, no intento de conduzir o máximo possível de pessoas ao hábito da leitura, não cansam de listar os benefícios de ler regularmente: melhora no domínio da língua falada e escrita; ganhos na capacidade de organização do raciocínio; pensamento crítico mais aguçado; elevação da autoestima, etc. O próprio Monteiro Lobato afirmou: "Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê".

Bem, isso é verdade, mas também pode ser conseguido com outras leituras, além da ficção. Nesse ponto, alguns sugerem que apenas a leitura ficcional tem o poder de nos colocar sob a pele do outro, vivendo outras vidas que nunca viveríamos senão por obras de tal natureza. Trata-se da famigerada empatia. Mas o cinema, por exemplo, não faz o mesmo conosco? Porque, nesse caso, mesmo recebendo imagens prontas, nosso cérebro é colocado para trabalhar dando sentido ao que é mostrado na tela e, não raras vezes, nos fazendo sentir submersos quando em frente a ela. Logo, ao contrário do que muito se defende, não há passividade nisso.

Nesse sentido, também não é razoável hierarquizar as artes, porque, embora diferentes em suas formas de manifestação, há um elemento em comum que as irmana mais do que separa: a cultura.

Até onde se sabe, apenas os seres humanos são capazes de fazer cultura; isso é o que, em última análise, nos diferencia das outras espécies animais. Assim, ao invés de somente questionarmos "Pra que serve ler ficção?", limitando-nos à racionalização dos seus aspectos instrumentais, também deveríamos aceitar, alegres, que apenas nós somos capazes de criá-la e a ela atribuir sentido, lembrando-nos da nossa natureza humana, a qual nunca foi balizada apenas pela razão. Escrever e ler ficção, assim como criar e contemplar qualquer outra forma de manifestação artística, é sempre, e antes de tudo, um retorno à nossa própria humanidade; um lembrete de que somos homens, a despeito do que ganhamos e perdemos ao fazer o que fazemos.

Quando o homem deixa de contemplar a beleza, presente de forma expressiva nas artes, sua humanidade tende a diminuir – assim como diminuiu o protagonista do conto de Neres –, incorrendo no risco de desaparecer. Em contrapartida, contemplar o belo engrandece o ser humano, podendo até eternizá-lo. Não à toa, muitas pessoas que dedicam a vida às artes são chamadas de imortais, como é o caso do autor aqui evidenciado. Um salve ao imortal José Neres!

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