COLUNA

Gabriela Lages Veloso
Escritora, poeta, crítica literária e mestranda em Letras pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Gabriela Lages Veloso

A moça da limpeza

A Moça da Limpeza (2021), de Lindevania Martins, é um livro forte, que põe em xeque as diferentes formas de exercício do poder, através de 11 contos.

Gabriela Lages Veloso

- Atualizada em 09/12/2023 às 13h06

A escritora maranhense Lindevania Martins nasceu na cidade de Pinheiro, mas atualmente mora em São Luís. Graduada em Direito, é Mestra em Cultura e Sociedade, pela UFMA, e em Direito Constitucional, pela UFF. Entre 1998 e 2001, foi delegada de polícia e hoje em dia é defensora pública de Defesa da Mulher e da População LGBTQIA+. Atua como escritora, palestrante e pesquisadora em Gênero, Tecnologia, Direito e Literatura. Integra o Grupo de Pesquisa em Crítica Jurídica Contemporânea (UFF). É membro do coletivo literário feminista Mulherio das Letras. 

Ilustração: Bruna Lages Veloso

Venceu por duas vezes o Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, na categoria conto (2003 e 2005). Recebeu uma menção honrosa no Concurso Nacional de Contos da OAB Nacional (2006). Foi selecionada para publicação no Concurso de Originais da Editora Benfazeja (2017) e finalista no 1° Concurso Nacional de Contos Ciclo Contínuo (2017). Além disso, foi jurada no concurso internacional de contos “Her Story”, da Plataforma Sweek em conjunto com  o Leia Mulheres (2018), e venceu o 6° Prêmio CEPE de Literatura (2021). 

Possui contos e poemas publicados em diversas antologias, revistas impressas e sites, dentre os quais destacam-se: Cadernos Negros n. 42, Revista Gueto, Revista Pixé, Ruído Manifesto, Laudelinas, Café Espacial, Jornal O Relevo, e Acrobata. Lindevania é autora dos livros Anônimos (2003), Zona de Desconforto (2018), Longe de Mim (2019), Fora dos Trilhos (2019), A Moça da Limpeza (2021) e Teresa Decide Falar (2022). 

A Moça da Limpeza (2021), de Lindevania Martins, é um livro forte, que põe em xeque as diferentes formas de exercício do poder, através de 11 contos. A escrita da autora se assemelha à da escritora contemporânea Ana Paula Maia, visto que ambas utilizam uma linguagem crua, que nos aproxima intimamente do cotidiano, sem idealizações ou eufemismos. 

O conto A Moça da Limpeza, que dá nome ao livro, apresenta um dia totalmente diferente na vida da advogada Clarice. Após um longo engarrafamento, a personagem chega sem fôlego ao fórum onde trabalha e se depara com algo que a deixa furiosa: a funcionária responsável pela limpeza estava sentada no lugar do juiz, conduzindo o caso, e todos os presentes acatavam a sua opinião. 

Esse conto possui um viés fantástico para construir uma excelente crítica social pautada no medo da substituição da ordem vigente. E se o dinheiro não fosse sinônimo de poder e respeito? E se não existisse a subalternidade? Como seria o mundo? Esses são alguns dos questionamentos que o leitor irá se deparar não somente após a leitura desse conto em específico, mas também ao longo de toda a obra.

O conto Bang, por sua vez, aborda temas como machismo, feminicídio, homofobia, condições degradantes de trabalho e violência contra a mulher. O protagonista tem medo de que as mulheres, um dia, governem o mundo. Vale destacar o seu nome: César, que remete à ideia de domínio, autoridade, mas nesse contexto representa a ânsia pelo poder à custa da vida e liberdade dos outros (ou melhor, das outras). Esse personagem acredita que ser um “homem de verdade” é ser cruel e violento, pois, segundo ele, as pessoas só respeitam quem é assim. Esse texto é repleto de ironia e sarcasmo e tem a força necessária que os temas exigem.

Por outro lado, o conto Espelhos, trata de um tema que ainda é considerado um tabu na sociedade: a autodescoberta do corpo feminino. Essa temática é sempre mais delicada para as mulheres pois, por muito tempo, foram ensinadas a ter vergonha de si mesmas. Nessa narrativa, são mostradas duas gerações que passam pelo mesmo problema. No entanto, vale ressaltar que os espelhos, presentes nesse conto, não mostram apenas os corpos de mãe e filha, mas também revelam autoaceitação/autocompreensão, mostram como a sororidade é importante.

Por sua vez, A hora da verdade narra a história de Fernanda, uma vendedora de móveis, cujo chefe - chamado Ramos - faz perguntas muito indiscretas sobre a vida sexual/particular de sua funcionária para assegurar, ou não, o seu emprego. Esse conto trata sobre os limites entre o particular e o coletivo. Quando esses limites são cruzados por alguém que possui uma parcela de poder e, por isso, quer impor suas crenças às outras pessoas, quer controlar suas vidas. A falta de ética de Ramos é provocada, principalmente, por seu extremismo religioso. Trata-se de um texto certeiro, crítico e forte.

O quinto conto, intitulado Amâncio e a Putrefação, apresenta um tipo de Frankenstein moderno. O protagonista traz um morto à vida com o único propósito de se vingar. Essa narrativa fantástica se aproxima do terror. 

Grande Amor aborda o relacionamento abusivo entre Clara e Lauro. Esse texto é muito importante, pois mostra como a violência contra a mulher é apenas a ponta do iceberg, como sempre existem sinais bem claros: normalmente, o agressor percebe que a vítima possui uma autoestima baixa e tem muito medo de ficar sozinha, assim, ele se aproxima como se fosse a única solução, o único amor que ela poderá experimentar quando, na verdade, tudo não passa de obsessão. Além disso, existe uma inversão de valores e a vítima se sente constantemente culpada. Esse conto é um alerta.

Se por um lado, o conto Helena aborda a pandemia da COVID-19, os desastres que acometeram o mundo e o Brasil, especialmente, nos últimos 4 anos e deixa uma mensagem contra o conformismo: esperar não leva a nada, agir sim. 

Por outro, O destino de Grete apresenta uma interessante paródia de A metamorfose, de Kafka. Os irmãos desse conto contemporâneo chamam-se Grete e Samsa, em uma referência explícita ao personagem kafkiano Gregor Samsa. Trata-se de um texto igualmente fantástico, mas que, dessa vez, fala sobre a importância do apoio familiar.

O conto Relações Públicas aponta o desrespeito aos direitos trabalhistas, e apresenta de forma literal (para que a crítica se torne mais contundente) como é necessário vender a alma e o corpo para se obter a fama. A protagonista não assina um contrato, ela literalmente faz um pacto de sangue. 

O fogo entre nós possui uma dupla crítica: demonstra como o apego excessivo às tradições é negativo, pois repetir ações, sem agregar a elas nenhum significado, cria ciclos viciosos; mas também revela que a destruição de itens históricos leva à repetição dos erros do passado. Os extremos sempre são um sinal de perigo.

O último conto, intitulado Plateia, apresenta uma protagonista apaixonada pela própria imagem, uma versão contemporânea e feminina de Narciso. Essa narrativa aponta a falta de limites da mídia, que faz tudo em nome da audiência, e demonstra como a vida real maquiada/modificada também pode se tornar um eterno show.

Por fim, vale ressaltar que A Moça da Limpeza (2021), de Lindevania Martins, apresenta, em sua maioria, mulheres como protagonistas e que é recorrente o uso da cor vermelha (nos batons e unhas) das personagens femininas. E essa cor, remete ao poder, à força, que a sociedade tenta roubar das mulheres, diariamente. 

Portanto, esse livro é um sinal de alerta às muitas formas de violência, é um grande lembrete de que a realidade precisa ser alterada urgentemente, mas também é um grito de liberdade, o simples fato de uma mulher escrever sobre temas delicados como esses, demonstra que nossa resistência está, paulatinamente, surtindo efeito. Talvez o medo do personagem César, do conto Bang, não seja infundado.

REFERÊNCIA:

MARTINS, Lindevania. A Moça da Limpeza. 1 ed. São Paulo (SP): Primata, 2021.

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