Roberto Pereira fala da repercussão de pesquisa sobre consumo do reggae entre jovens em São Luís
Apesar da polêmica, o historiador e documentarista maranhense, natural do território do Coroado, em São Luís, afirma que a pesquisa teve um resultado fantástico ao extrapolar os muros da universidade.
Roberto Pereira é historiador e documentarista. Tem doutorado e pós-doutorado em História Comparada pela UFRJ. Foi pesquisador visitante na Universidade de Harvard. É autor de “Rodas Negras – capoeira, samba, teatro e identidade nacional”. Integrou, nos anos 1990, o GEDRAR (Grupo de Estudo e Divulgação Rasta Reggae/Movimento Rasta do Maranhão), um dos primeiros grupos de estudo sobre reggae e a filosofia rastafári do Brasil. Nos últimos anos, tem se dedicado a pesquisas relacionadas à Jamaica e ao reggae. Entre o fim de 2019 e o início de 2020, realizou uma série de entrevistas na Jamaica para a realização de um longa- metragem, ainda em produção, sobre as conexões entre São Luís e aquela ilha caribenha. Atualmente realiza pesquisa de pós doutorado com bolsa CNPQ na UFMA sobre o reggae e a construção de identidades negras em São Luís e na Jamaica. Ao participar do Plugado, na Mirante FM, Roberto Pereira destacou a importância, repercussão da pesquisa sobre o consumo do reggae entre os jovens e adolescentes de São Luís, entre 12 e 17 anos, divulgada pela Folha de São Paulo, além de apresentar solução a partir da sua visão como historiador, documentarista, natural do território do Coroado, em São Luís, e frequentador de festas do gênero jamaicano na cidade.
Pedro Sobrinho: A sua pesquisa divulgada na Folha de São Paulo com título Mudança Geracional Ameaça São Luís como Capital do Reggae, tem a sua importância como informação precisa, baseada em fatos reais e necessária para o universo do reggae na ilha, considerada a Jamaica Brasileira. Mas, a pesquisa acabou gerando um desconforto, principalmente em meio aos consumidores do reggae. Isso viralizou nas redes sociais dividindo opinião. Primeiro, gostaria de saber qual o objetivo da pesquisa ?
Roberto Pereira: Realmente, até meio difícil uma pesquisa acadêmica extrapolar os muros da universidade e acabar caindo na boca do povo, digamos, pois geralmente as pesquisas ficam nas salas de aulas, nos debates de corredores. Pra mim foi uma coisa fantástica perceber que o meu trabalho científico extrapolou os muros da academia Fiz a pesquisa em 2023 e terminei de sistematizar os dados este ano, enviei para Folha de São Paulo, foi analisada pela editoria da empresa jornalística que decidiu publicar. Acabou gerando essa grande repercussão, praticamente todo mundo em São Luís, e em várias partes do Brasil, principalmente, no povo que gosta de reggae. Muita gente não gostou, muita gente não entendeu, muitas coisas foram distorcidas. No caso a minha participação aqui no programa e em outros programas de rádio e TV é importante pra que a gente faça uma discussão mais aprofundada sobre a pesquisa, pois nas redes sociais isso não acontece. Faz décadas que estou envolvido com o processo do reggae, o reggae faz parte da minha vida, e transformou a minha vida completamente. Frequentei diversos clubes de reggae que já desapareceram em São Luís, por exemplo, no bairro de Fátima, a União do BF, Black Star, no Alto do Bairro de Fátima, o Posto Garra, na avenida Kennedy, fora o meu envolvimento nos tributos de reggae. Portanto, a pesquisa foi feita por quem está inteiramente imerso neste universo de reggae até hoje, frequentando os novos espaços de reggae da cidade. É nessa vivência que um grupo de amigos e eu vínhamos discutindo e percebendo, nos últimos anos que o público do reggae tinha envelhecido, as pessoas que estavam frequentando de reggae eram pessoas acima dos 30 anos, era diferente da minha geração, aos 16 anos a gente frequentava os clubes de reggae. A pesquisa nasceu da curiosidade de comprovar se de fato o público do reggae realmente envelheceu, ou se estava rejuvenescendo ou se era só uma impressão equivocada.
Pedro Sobrinho: E como você encarou toda essa repercussão da pesquisa, desse burburinho todo reveberberando de uma forma positiva e negativa. O título da matéria publicada pela Folha de São Paulo contribuiu para toda essa polêmica ?
Roberto Pereira: Pois bem, o título que eu enviei para matéria era diferente, só que a Folha de São Paulo acabou pesando na tinta e colocou um título, digamos, sensacionalista de fato que acabou chamando atenção mais que o conteúdo. Grande parte das pessoas ficou apenas no título e não percebeu o conteúdo da matéria. Outras pessoas não se interessaram nem pelo título e conteúdo da matéria, mas fizeram comentários baseados em observações de terceiros. O que pude perceber que algumas pessoas distorceram sobre a pesquisa. E na cabeça dessas pessoas a pesquisa dizia que o reggae tinha acabado em São Luís. E que São Luís deixaria de ser chamada de Jamaica Brasileira. A pesquisa não dizia nada disso. No artigo eu cito que em São Luís é impossível dizer que o reggae iria acabar, porque aqui temos festas, festivais, tributos em que milhares de pessoas marcam presença, festas semanalmente, e por todo este movimento o reggae ainda é uma marca muito forte na identidade cultural do Maranhão. A questão fundamental da pesquisa é a transformação geracional e quem vai às festas como eu percebo isso. Não é que vá jovens às festas, mas a maioria que frequenta esse tipo de evento são ospais desses jovens e adolescentes. A pesquisa feita em escolas das periferias de São Luís, com quase mil alunos e não perguntei para nenhuma criança de 12 anos se ele vai ao reggae. A pesquisa foi sobre o gosto musical e a maioria dos jovens entre 12 e 17 anos migrando para outros ritmos, ou seja ouvindo funk e trap, apenas 4% por cento consomem reggae. Agora, quando vai para o gosto musical são eles que sustentam esta cadeia produtiva do reggae em São Luís.
Pedro Sobrinho: São Luis é uma cidade que vive de rótulos: Athenas Brasileira, Jamaica Brasileira, Capital Brasileira do Reggae. O que esses rótulos garante de significativo para o Maranhão, especialmente para São Luís, a partir de sua pesquisa sobre o reggae ? E o que a pesquisa pontua como solução para que jovem desta nova geração, apesar da livre escolha sobre o que ouvir, absorva o reggae como identidade cultural ?
Roberto Pereira: Sabemos que o funk, o trap ouvido por essa juventude é um fenômeno nacional. E o objetivo da pesquisa não é fazer juízo de valor do funk, do trap, se é bom ou ruim. A pesquisa discute a questão do reggae como cultura nossa que foi assimilada e transformda numa cultura genuinamente maranhense. E o que devemos fomentar nessa juventude, independente do que ele ouve musicalmente, é a compreensão da importância destes rótulos que existem de São Luís como a Jamaica Brasileira, Capital Brasileira do Reggae. Esses rótulos são identidades construídas historicamente de um reggae roots que não é mais consumido com vigor na Jamaica, mas existe aqui firme e forte. Todo esse processo de conscientização dessa juventude passa por implementação de políticas públicas. E já que existe uma preocupação de fomento por parte do governo do Estado, que invista para além dos shows e festivais e sejam criadas outras políticas públicas que contribuam para que esta nova geração de jovens seja também seduzida pelo reggae. Quero destacar a Lei Estadual Jorge Black, aprovada pela Assembleia Legislativa, mas que ainda não foi implementada, como outra ferramenta importante e necessária neste processo de conscientização e fomento do reggae. Acho também que nessa política de preservação do reggae, o museu do reggae, como um equipamento cultural do Estado, promova debates envolvendo toda a cadeia produtiva do reggae, assim como os programas específicos de reggae. É necessário que haja esse diálogo constante com a massa regueira, o reggae como uma vertente musical cujo o berço é a Jamaica, mas que o Maranhão tem como uma manifestação cultural cheia de simbologia, identidade e pertencimento. Por isso, somos reconhecidos em qualquer parte do mundo como a Jamaica Brasileira.
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