SÃO LUÍS – Quem frequentou a orla de São Luís em outros tempos certamente ouviu histórias sobre a sereia que vigiava as águas da Ponta d’Areia. Perdida por décadas, a imagem finalmente retornou para Praça do Sol em janeiro deste ano. Mas quem olhar de perto notará um brilho diferente no olhar da nova guardiã: o autor da obra decidiu transformar a saudade coletiva em uma homenagem particular, esculpindo no rosto da sereia as feições de sua filha.
A escultura é de autoria do artista maranhense José Eduardo Sereno, conhecido como Sereno. Para ele, o desafio foi equilibrar o peso histórico do antigo monumento com uma visão artística atual, fugindo da ideia de uma simples réplica.
“A atual sereia nasce como uma obra inédita. Não se trata de uma revitalização, mas de uma recriação poética. Ela respeita o passado, mas afirma um novo tempo”, destacou o artista.
A inspiração para o rosto da escultura veio de sua filha, Gabrielle Serenno, que acompanhou de perto o processo de criação. Bacharel em direito e empreendedora, ela conta que o sentimento inicial foi de surpresa, seguido por uma felicidade indescritível e gratidão eterna ao pai.
“Acompanhei parte do processo, pois foi necessário tirar o molde do rosto e usar fotos e vídeos", recorda Gabrielle. Ela revela que essa tradição de afeto já faz parte do portfólio do pai: a estátua de Iemanjá, na Praia do Olho d'Água, também traz os traços de outra irmã. “Sou apaixonada pela nossa cultura e, após a homenagem, esse amor me aproximou ainda mais da cidade. A Praça do Sol agora é minha queridinha”, brinca.
Sobre o autor
José Eduardo Sereno é um escultor maranhense com reconhecimento nacional e internacional, com obras espalhadas pelo Brasil e pelo exterior. Também engenheiro civil e arte-educador, o artista integra conhecimento técnico e sensibilidade estética em suas criações, características presentes na nova sereia da Praça do Sol.
Símbolo da mulher maranhense
De acordo com Sereno, a nova sereia vai além da estética e carrega elementos simbólicos que representam a identidade local. A obra busca traduzir características associadas à mulher maranhense, como força, delicadeza e espiritualidade, estabelecendo um elo entre a cidade e o mar.
A Secretaria de Estado da Infraestrutura (Sinfra-MA) também destaca o papel simbólico da escultura dentro do projeto de revitalização da Praça do Sol. Segundo o órgão, a sereia foi estrategicamente posicionada entre a Passarela do Coco e a esplanada, com vista para o pôr do sol, assumindo a função de marco urbano e elemento estruturador da paisagem.
Ainda conforme a Sinfra, a concepção da obra prioriza o caráter democrático e inclusivo, permitindo o contato direto do público com a arte e reforçando o sentimento de pertencimento. Tradicionalmente associada à realização de desejos e à proteção, a figura contribui para fortalecer a memória coletiva e a identidade cultural de São Luís.
Memória da sereia original
Antes da atual escultura, a Praça do Sol abrigou outra sereia que marcou gerações de ludovicenses. A obra foi criada pelo ex-frade italiano Luigi Dovera e foi inaugurada em 25 de setembro de 1983. No entanto, durante intervenções urbanas realizadas ainda na década de 1980, a escultura foi retirada do local e permaneceu desaparecida por mais de 30 anos.
O mistério teve um desfecho parcial em janeiro de 2019, quando a cauda do monumento ressurgiu na orla marítima. A outra parte da escultura nunca foi localizada, levantando indícios de que a obra tenha sido destruída. Apesar disso, a nova sereia mantém viva a memória da anterior, estabelecendo uma continuidade simbólica entre passado e presente.
Além da sereia, Luigi Dovera deixou outras contribuições importantes para a paisagem urbana de São Luís, como o Anjo do bairro Anjo da Guarda, o monumento a Luís Rei de França e o antigo Roque Santeiro, no bairro do Bequimão. O artista chegou ao Brasil na década de 1940, fugindo da Segunda Guerra Mundial, e consolidou sua trajetória no Maranhão.
A sereia que virou música
A presença da sereia no imaginário popular também foi eternizada na música maranhense. O clássico carnavalesco “Sereia”, conhecido pelo verso “Vem sereia, pra Ponta d’Areia”, foi composto por Carlos Gomes em parceria com o cantor e compositor Escrete. A canção fortaleceu a relação afetiva da população com o símbolo e contribuiu para manter viva sua presença na memória coletiva.
Entre o mito e a realidade
Para Gabrielle Sereno, a nova escultura não apenas resgata lembranças do passado, mas também cria novas conexões com as futuras gerações.
“Espero que as pessoas que conheceram a antiga sereia consigam resgatar boas lembranças e que aqueles que não a conheceram se apaixonem pela nova história e criem uma identidade maranhense com a atual sereia”, afirmou.
A sereia da Praça do Sol volta a fazer parte da paisagem de São Luís, unindo o passado de Luigi Dovera ao presente de Eduardo Sereno. Entre as canções de Carnaval e a revitalização da orla, o novo monumento fica como um registro da cultura local e, agora, de uma homenagem pessoal que saiu do ateliê para ganhar a cidade.
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