Homenagem à escritora Conceição Neves Aboud

A romancista, membro da Academia Maranhense de Letras, faleceu dia 13, em Teresópolis, onde passara a residir

Atualizada em 13/10/2022 às 12h07

jomar moraes

Especial para o Alternativo

Em 1955, quando completou 30 anos de idade e se achava na plenitude vigorosa de sua capacidade criadora, foi eleita e tomou posse a titular da Cadeira nº 20, do Quadro de Membros Efetivos da Academia Maranhense de Letras. Por essa época, assinava seus trabalhos literários com o nome por inteiro: Maria da Conceição Neves Aboud.

Havia, já então, alcançado certa nomeada nacional com a publicação, em capítulos, dos romances A Ciranda da Vida (na revista O Cruzeiro) e Os Galhos do Cedro (na Revista da Semana) e, principalmente, com o romance Grades e Azulejos (Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1951), claramente evocativo de São Luís, a cidade natal, que é o cenário da obra.

Também a essa altura já tinha no prelo, como era comum dizer-se, o livro seguinte, Rio Vivo, romance ambientado na ainda apropriadamente cognominada Cidade Maravilhosa, com foco de concentração na, à época, sofisticada Copacabana, dita a Princesinha do Mar, epíteto hoje revogado pelas leis da decadência irremediável.

No ano de sua eleição e posse festiva, Conceição Neves Aboud preenchia à perfeição as requintadas exigências do primeiro hemistíquio do verso com que Raimundo Correia abre o conhecido poema Ser Moça e Bela. Diz essa primeira metade do alexandrino famoso: "Ser moça e bela ser," que se completa com a pergunta: "Por que é que lhe não basta?"

Ao verso, agora repetido na completude de sua citação - Ser moça e bela ser, por que é que lhe não basta? -, Conceição Aboud parece haver respondido que apesar da mocidade vigorosa e da beleza estuante, algo ainda lhe faltava: a glória da Academia.

Por isso, assim iniciou seu discurso de posse: "Que minhas primeiras palavras se dirijam àqueles que constituem a elite da intelectualidade maranhense, e que magnanimamente me concederam esta noite de glória."

Prosseguindo, disse Conceição Neves Aboud acerca da vocação maior de sua vida, naquela noite de 8 de dezembro de 1955, que seria das mais concorridas e memoráveis da história da Academia:

"Bendita minha inerente tendência para imaginar! Quando eu era criança, ela me conduzia a um mundo irreal, fazendo que as horas, no colégio, corressem rápidas, porque ao meu lado conversavam príncipes e princesas, lutavam feias feiticeiras e gigantes cruéis. Essa imaginação, desassossegada e irrequieta, tem me proporcionado infinitas sensações: o prazer de escrever, a ansiedade de ler as críticas sobre o que escrevo, e mesmo a emoção da maternidade que a natureza até agora me roubou, e que me veio através dos meus livros, pois me sinto mãe de todos os meus personagens, mãe privilegiada, porque os crio como quero, sem expectativas e desilusões..."

E a parte protocolar daquela festa de há meio século esteve a cargo do professor e historiador Jerônimo de Viveiros, que, falando em nome e por delegação da Casa de Antônio Lobo, assim concluiu: "sei a vereda desta Academia, e aqui, amparado pelo seu prestígio, numa deslumbrante apoteose em que figuram os vultos saudosos de Luciano Neves [pai da acadêmica] e Saturnino Bello [tio dela], escrevo, debaixo dos vossos aplausos, o nome de Maria da Conceição Neves Aboud no bronze da imortalidade!"

Desde muito cedo radicada no Rio de Janeiro, Conceição Aboud, sem tardança, para lá regressou, porém deixou aqui suas remembranças dos racontos ouvidos e vividos na idade infanto-juvenil.

Em 1993, ano em que pela última vez visitou a cidade do seu nascimento, trouxe-lhe um presente: o livro Teias do tempo, romance de sua geração e da cidade que a viu crescer; que lhe segredou histórias ancestrais e lhe entremostrou mistérios, matéria-prima e fio da meada com que Conceição concebeu sua bela obra romanesca.

Do Prefácio de

Josué Montello a Rio vivo

"Maria da Conceição Neves Aboud é a romancista da cidade, no momento que passa diante de nós.

O Rio que ela nos descreve, na vivacidade de seu estilo bem feminino, é um pequeno mundo, que não raro vemos e identificamos, sem conhecer nos seus mistérios. A romancista ilumina os caminhos por onde nos conduz com o seu talento criador. Não força a realidade, para dar-lhe interesse. Nem exagera as figuras, para

torná-las imprevistas.

A narrativa tem a naturalidade das confrontações objetivas. E é um documento de nosso tempo e da cidade, sem deixar de ser, por seus valores permanentes, uma obra literária, marcando a ascensão

da romancista."

Obras da romancista

A ciranda da Vida - em capítulos

na revista O Cruzeiro

Os Galhos do Cedro - em capítulos

na Revista da Semana

Grades e Azulejos - Rio, Irmãos Pongetti, 1951

Rio Vivo - Rio, Edições O cruzeiro, 1956

Teias do Tempo - São Luís, Sioge, 1993

* Deixou inéditos os romances O preço (Prêmio Literário Cidade de São Luís), Cinza e Rosa

e Um Amor de Psiquiatra

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