Os dois lados da mesma moeda?
A moderação não consiste em fechar os olhos para as diferenças, e a independência intelectual não exige distribuir culpas em partes iguais.
— Quem aqui é petista?
Foi essa a pergunta que, segundo testemunhas, um homem fez ao entrar em um bar em Mato Grosso, na noite do último domingo, dia da eleição presidencial. Logo depois, sacou uma arma e começou a atirar. Um policial civil morreu. Outra pessoa ficou ferida.
Em Grajaú, aqui no Maranhão, três homens apareceram sorrindo, durante uma manifestação de apoio a Flávio Bolsonaro, vestindo camisetas com referências ao nazismo e exaltação ao fascismo.
No Rio de Janeiro, no próprio dia da eleição, uma mulher, professora de inglês, foi filmada fazendo uma saudação nazista dentro de um colégio que funcionava como local de votação. Ela usava uma camiseta associada à campanha de Flávio Bolsonaro e um boné vermelho com a inscrição Make America Great Again, slogan de Donald Trump. Na ocasião, um eleitor que presenciou a situação resolveu questioná-la. Perguntou se aquilo era mesmo uma saudação nazista. Ela, então, quis saber se ele era comunista. O homem respondeu que era judeu. A resposta dela? Ela disse: — Pior ainda.
Em Curitiba, um carro com adesivos de Lula foi depredado, e um dos agressores utilizou a haste de uma bandeira brasileira para quebrar o vidro. A bandeira de um país transformada em instrumento de violência. Em nome de que pátria se agride alguém por pensar diferente?
Também em Mato Grosso, um vereador foi preso após disparar contra pessoas que comemoravam a vitória de Lula. Duas mulheres ficaram feridas. Em Minas Gerais, uma vereadora do PT foi atingida no rosto por uma pedra durante uma manifestação eleitoral. Em São Paulo, um motorista avançou com seu carro contra pessoas que comemoravam o resultado das urnas. Em outra ocorrência, uma mulher foi esfaqueada depois que um homem, segundo testemunhas, gritou uma palavra de ordem bolsonarista.
E houve também os ataques contra o Nordeste. Após o resultado das eleições, voltaram a circular manifestações raivosas que atribuem aos nordestinos a culpa pela vitória de Lula. Uma influenciadora chegou a comparar nordestinos a animais. Em Santa Catarina, manifestações de hostilidade contra apoiadores de Lula vieram acompanhadas de ofensas dirigidas à população nordestina.
Um dos episódios mais revoltantes veio de alguém que ocupa um cargo público. Walter Schlatter (PP), prefeito de Chapadão do Sul, em Mato Grosso do Sul, compartilhou em um grupo de WhatsApp de prefeitos uma montagem do mapa do Brasil na qual o Nordeste aparecia representado pela figura de um burro. E há um detalhe que torna a história ainda mais perturbadora. O prefeito, que havia doado R$ 300 mil à campanha de Flávio Bolsonaro, também publicou uma mensagem sugerindo que as pessoas perguntassem em quem alguém votou antes de oferecer comida, dinheiro ou qualquer tipo de ajuda. Se a resposta fosse Lula, a orientação era não ajudar.
Além disso, como se não bastassem as agressões físicas e as manifestações de preconceito, a intolerância política também começou a aparecer de maneira explícita nas relações de trabalho e de consumo.
Após a vitória de Lula, Jessica Ramos Moreno (PL-PR), conhecida como Jessicão, vereadora de Londrina e eleita deputada estadual com mais de 131 mil votos, publicou uma mensagem nas redes sociais incentivando seus seguidores a demitir funcionários que votaram no presidente. Não parou por aí. Também recomendou trocar prestadores de serviços e romper amizades com pessoas identificadas como petistas. E terminou sua publicação com uma expressão que diz muito sobre o que estamos discutindo: “Demita o mal”.
Não é apenas uma divergência política. É a tentativa de transformar o adversário em alguém que merece ser punido, excluído e privado de oportunidades, um mal que precisa ser eliminado das relações de trabalho e da convivência social.
No Rio de Janeiro, Índia Armelau (PL), reeleita deputada estadual com mais de 248 mil votos, a parlamentar mais votada do estado, recomendou que empresários verificassem se seus funcionários haviam feito o gesto do “L”, associado aos eleitores de Lula, e afirmou não fazer sentido manter na empresa quem, segundo ela, odeia empresários. A manifestação foi tão grave que o Ministério Público do Trabalho ajuizou uma ação civil pública contra a deputada, pedindo sua condenação ao pagamento de R$ 500 mil por dano moral coletivo.
O mais perturbador é perceber como esse discurso transforma a preferência política em uma espécie de marca que identifica quem merece ou não continuar empregado, como se o trabalhador precisasse demonstrar fidelidade ideológica ao patrão para garantir o próprio sustento.
Em Macaé, no Rio de Janeiro, a procuradora municipal Renata Pinto Rodrigues Pimentel Ribeiro publicou mensagens atacando nordestinos, mineiros, pessoas pobres, beneficiários de programas sociais, eleitores do PT e pessoas LGBTQIA+. Afirmou que petistas não trabalhariam para ela, aconselhou empresários a não contratar determinados grupos e chegou a declarar que não faria mais políticas públicas para ajudar eleitores petistas.
A Constituição não divide os brasileiros entre aqueles que merecem proteção do Estado e aqueles que podem ser abandonados por suas convicções políticas. A administração pública não pertence a um partido, a um governante ou a um servidor. Pertence à sociedade. Mas o que me inquieta é perceber a facilidade com que, diante de uma derrota eleitoral, algumas pessoas passam a falar da exclusão de pessoas (muitas vezes, mães e pais com filhos para sustentar) como se fosse algo perfeitamente natural. Já não basta discordar deles. É preciso que percam o emprego, que seus negócios sejam boicotados, que sejam hostilizados por sua origem e, agora, que até o acesso às políticas públicas seja colocado em questão.
Há também inúmeros relatos de profissionais que atuam no recrutamento de trabalhadores e declaram que não selecionariam candidatos identificados com a esquerda, além de mencionarem pedidos de empresários interessados em substituir funcionários por pessoas alinhadas à direita.
Essas práticas têm nome: assédio eleitoral no trabalho. Quando a preferência política passa a ser motivo de ameaça, constrangimento ou discriminação nas relações profissionais, não estamos mais diante de uma simples divergência de opiniões. Estamos falando de condutas que podem violar direitos fundamentais e comprometer a liberdade de escolha de trabalhadores, especialmente quando existe uma relação assimétrica de poder entre quem emprega e quem depende daquele emprego para sobreviver. Uma pessoa trabalha, cumpre suas obrigações, sustenta sua família, mas deveria perder o emprego porque votou em determinado candidato? O direito ao trabalho e à subsistência de uma família passaria a depender da preferência política do patrão?
Isso não ficou restrito às relações de trabalho. Em João Pessoa, na Paraíba, uma pizzaria publicou um comunicado pedindo que eleitores de esquerda não frequentassem o estabelecimento. A empresa reconheceu que não poderia impedir a entrada dessas pessoas, mas declarou que não fazia questão de recebê-las. Imaginem a cena. Uma pessoa entra em uma pizzaria para jantar com a família e descobre que não é bem-vinda porque votou em Lula. Em que momento passamos a considerar aceitável selecionar clientes pela preferência política? Desde quando uma pizza precisa vir acompanhada de uma declaração ideológica?
E a coisa não parou por aí. Depois do segundo turno, começaram a circular listas de estabelecimentos comerciais cujos proprietários seriam petistas ou teriam apoiado Lula, acompanhadas de pedidos para que as pessoas deixassem de comprar nesses lugares. Há notícias desse tipo de mobilização em cidades de todo o país. E relatos de listas semelhantes também chegaram aqui a São Luís, compartilhadas em grupos de WhatsApp.
Em Guajará-Mirim, por exemplo, uma lista divulgada em um grupo de apoiadores de Flávio Bolsonaro identificava estabelecimentos e profissionais supostamente ligados à esquerda. Uma das orientações era especialmente reveladora: “Não compre nada e não dê nem água”. Não dê nem água. Leiam novamente. Não se trata apenas de deixar de frequentar uma loja por discordar das opiniões de seu proprietário. Qualquer consumidor pode escolher onde gastar seu dinheiro. O que estamos vendo é a organização de listas para identificar pessoas, expor seus negócios e incentivar sua exclusão econômica por uma suposta preferência política. E digo suposta porque ninguém pode sequer assegurar que todos os comerciantes apontados nessas listas tenham votado em Lula.
Ao ler essas notícias, lembrei-me de um episódio histórico que deveria ser conhecido por todos nós. Em 1º de abril de 1933, poucos meses depois da chegada de Hitler ao poder, o regime nazista organizou um boicote nacional aos estabelecimentos pertencentes a judeus. Membros nazistas foram posicionados diante das lojas para intimidar consumidores. Vitrines receberam inscrições e estrelas de Davi, enquanto cartazes conclamavam os alemães a não comprar de judeus.
Conhecer a história também significa reconhecer determinados mecanismos de exclusão antes que sejam naturalizados. E um desses mecanismos é particularmente perverso: identificar publicamente pessoas como integrantes de um grupo indesejável e estimular a sociedade a isolá-las, inclusive economicamente.
Primeiro, alguém deixa de ser visto como um vizinho, um comerciante, um trabalhador, uma pessoa com família e uma história. Passa a ser apenas o rótulo que lhe atribuíram. Depois, surge a ideia de que prejudicá-lo é uma atitude legítima, quase um dever moral. É assim que a desumanização encontra espaço nas relações mais comuns da vida cotidiana. Até o ato banal de comprar um pão ou comer uma pizza pode ser transformado em instrumento de perseguição política.
Essa disposição de separar pessoas entre aquelas que merecem participar da vida social e aquelas que devem ser afastadas também encontra ecos, guardadas as enormes diferenças históricas, em outras experiências de segregação. Ainda no século XX, nos Estados Unidos, durante décadas, pessoas negras foram impedidas de frequentar os mesmos espaços que pessoas brancas. Na África do Sul, o apartheid transformou a separação racial em política de Estado.
Ademais, essa lógica não aparece apenas nas disputas partidárias. Ela também se manifesta quando alguém defende que casais homoafetivos não devem trocar beijos, abraços ou manifestações de carinho em público, como se precisassem esconder sua existência entre quatro paredes. Ou quando se pretende impedir, de maneira generalizada, que mulheres trans utilizem banheiros femininos, como se sua presença nesses espaços fosse, por si só, uma ameaça.
No fundo, há uma pergunta que se repete: quem tem o direito de ocupar os espaços da sociedade sem precisar pedir licença ou esconder quem é?
É evidente que empresários, comerciantes e empregadores têm direito às próprias convicções políticas. Mas uma coisa é manifestar uma opinião. Outra, completamente diferente, é transformar essa opinião em critério de exclusão de trabalhadores ou consumidores. Não por acaso, o Ministério Público do Trabalho registrou quase duas mil denúncias de assédio eleitoral durante o processo eleitoral de 2026. Isso não significa que todas as denúncias tenham sido confirmadas, mas revela a dimensão de um problema que está muito longe de ser uma simples discussão entre eleitores nas redes sociais.
E há uma dimensão dessa intolerância que talvez seja ainda mais dolorosa. Tenho visto relatos de famílias que passaram a conviver com discussões e comportamentos cada vez mais agressivos por causa do bolsonarismo. Pais que insultam os próprios filhos porque votaram em Lula. Filhos que se afastam dos pais. Irmãos que deixam de se falar. Pessoas que anunciam, com uma convicção assustadora, que não querem mais qualquer relação com familiares identificados com a esquerda.
Não estou falando de um desentendimento ocasional durante o almoço de domingo. Divergências políticas sempre existiram nas famílias. O que me preocupa é a facilidade com que algumas pessoas passaram a tratar o rompimento de vínculos afetivos como uma demonstração de fidelidade política, uma prova de que estão do “lado certo”.
Então, que defesa da família é essa que o núcleo bolsonarista tanto prega? Como alguém passa anos repetindo que a família é a base da sociedade, que os valores familiares precisam ser preservados, que é preciso proteger os filhos, mas se dispõe a humilhar, rejeitar ou romper relações com os próprios familiares porque eles exercem democraticamente o direito de pensar diferente?
Há, nesse sentido, uma distinção que não pode ser ignorada: discordar de um candidato, de um partido ou de um projeto de governo não é o mesmo que defender uma intervenção militar, justificar um golpe de Estado ou reproduzir discursos racistas, misóginos, LGBTfóbicos e de desprezo pelas pessoas pobres (aporofobia). Não se trata de afirmar que não existam comportamentos condenáveis entre pessoas identificadas com o campo progressista, mas de reconhecer que há diferenças fundamentais entre a disputa democrática e a legitimação de práticas autoritárias e discriminatórias.
Por outro lado, é óbvio que existem situações em que o afastamento familiar é necessário, sobretudo quando há violência, ameaças ou relações abusivas. Ninguém é obrigado a permanecer em um ambiente que lhe faça mal. Mas é muito diferente proteger-se de uma relação violenta e transformar uma divergência política, por si só, em justificativa para hostilizar ou abandonar alguém que se ama.
Além disso, essa agressividade não fica restrita às famílias. Também aparece nas ruas, nas situações mais banais do cotidiano. Pessoas que não se conhecem são insultadas porque vestem uma camiseta vermelha, usam um adesivo de Lula ou simplesmente são identificadas como eleitores de esquerda. Basta um símbolo, uma palavra ou uma manifestação de preferência política para que alguém se sinta autorizado a abordar um desconhecido com ofensas.
Imaginem sair de casa para trabalhar, caminhar, praticar um esporte ou tomar um café e ser xingado por alguém que nunca o viu, que não sabe seu nome, sua história, absolutamente nada sobre sua vida. A única informação que parece importar é a preferência política que essa pessoa lhe atribuiu. Que espécie de liberdade é essa em que alguém se considera no direito de intimidar um desconhecido por não compartilhar suas convicções políticas? E o mais grave é perceber como esse tipo de comportamento vai sendo naturalizado.
Na esteira do discurso que exclui e desumaniza o “outro”, o último debate presidencial, realizado pela TV Globo, trouxe um exemplo de capacitismo naturalizado e reproduzido por Flávio Bolsonaro. Ele resolveu debochar de Lula fazendo referência aos seus nove dedos. Não se tratava de uma característica qualquer. Lula perdeu um dedo da mão esquerda em um acidente de trabalho, quando ainda era jovem e trabalhava como torneiro mecânico. O candidato fez a provocação, houve risadas e, posteriormente, diante da reação de Lula, pediu desculpas.
Mas pensem comigo: o que sente uma pessoa com deficiência ao assistir a um candidato à Presidência da República utilizando uma deficiência física como instrumento de ridicularização de seu adversário? E o que sente um trabalhador que perdeu um dedo, uma mão, uma perna ou adquiriu alguma deficiência em um acidente de trabalho? Que mensagem recebe ao ver uma condição semelhante à sua transformada em motivo de chacota diante de milhões de brasileiros?
A questão ultrapassa Lula. É isso que algumas pessoas parecem não compreender. Quando se utiliza uma deficiência para diminuir alguém, o preconceito não fica restrito à pessoa que se pretende atingir. Não estamos falando de um comentário qualquer feito em uma conversa privada. Estamos falando de um candidato à Presidência da República, em rede nacional, sendo visto por milhões de pessoas.
É diante de tudo isso que uma figura tem me chamado particularmente a atenção nos últimos tempos: aquela pessoa que procura ser “amiga” de todo mundo ou, pelo menos, não desagradar a ninguém. É aquela pessoa que, em qualquer discussão política, anuncia, quase sempre com certo orgulho, que não é de nenhum dos lados, como se as ideias e os comportamentos do campo progressista fossem equivalentes ao extremismo do bolsonarismo.
— Ah, para mim, são todos iguais. Os dois lados são extremistas. Os dois lados são violentos. Não me identifico com nenhum deles.
Como assim, iguais?
A pessoa acredita ter encontrado o ponto exato do equilíbrio, como se a lucidez política estivesse necessariamente no meio de duas posições, isto é, como se bastasse distribuir a mesma quantidade de críticas para cada lado para demonstrar independência de pensamento. É um raciocínio que procura transmitir uma aparência de moderação, mas que ignora diferenças fundamentais para a própria existência de um debate democrático.
Não porque alguém seja obrigado a gostar de Lula, do PT, de qualquer partido de esquerda ou do próprio campo progressista. Não é disso que se trata. Há inúmeras razões legítimas para discordar de governos, criticar políticas públicas e rejeitar determinadas propostas econômicas. A democracia pressupõe justamente essa liberdade. O problema começa quando, em nome de uma suposta neutralidade, se tenta colocar no mesmo patamar fenômenos políticos profundamente diferentes.
Neste segundo turno de 2026, de um lado, temos um campo democrático amplo, que reuniu pessoas de esquerda, de centro e até de direita, com divergências importantes entre si. De outro, um movimento político que, nos últimos anos, protagonizou ataques sistemáticos às instituições democráticas, difundiu desinformação sobre o processo eleitoral e alimentou uma narrativa de desconfiança permanente em relação às urnas.
Em relação ao primeiro, não estou falando de pessoas que sempre tiveram simpatia pela esquerda, pelo contrário. Pensem em Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso e um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Ou em João Amoêdo, fundador do Partido Novo, que chegou a votar em Jair Bolsonaro em 2018 e, mesmo mantendo duras críticas a Lula, declarou voto no petista em 2026. Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda, e Beatriz Cardoso, filha de Fernando Henrique Cardoso, também estiveram entre os signatários de um manifesto de apoio à reeleição de Lula. São pessoas com trajetórias e convicções políticas distintas, que não precisaram abandonar suas divergências com o PT para reconhecer a importância de preservar a democracia.
Já em relação ao bolsonarismo, não estamos falando de diferenças pequenas. Estamos falando de um movimento que teve apoiadores acampados diante de quartéis, pedindo intervenção militar, e cuja radicalização desembocou nos ataques às sedes dos Três Poderes no dia de 8 de janeiro de 2023, numa tentativa de golpe de Estado. Um movimento que convive com a exaltação de personagens da ditadura civil-militar brasileira, inclusive de torturadores e assassinos. É um movimento que tem como principal liderança um ex-presidente que homenageou publicamente um coronel (Ustra) reconhecido por sua atuação cruel e sanguinária na repressão política.
Estamos falando também do negacionismo durante a pandemia, dos ataques às universidades públicas, frequentemente retratadas como espaços sujos de doutrinação, como se não fossem responsáveis por parte fundamental da produção científica brasileira, e dos discursos ofensivos contra mulheres, pessoas negras, indígenas, pessoas LGBTQIAP+, nordestinos e outros grupos historicamente discriminados.
Ora, estamos falando de um movimento que, mesmo depois de tudo o que aconteceu em 2022 e 2023, continua convivendo com discursos que colocam em dúvida a legitimidade das eleições sem apresentar provas. Aliás, a eleição de 2026 mostrou que esse comportamento está longe de ter sido superado.
Flávio Bolsonaro perdeu a eleição e, em seu primeiro pronunciamento após o resultado, afirmou que não reconheceria a vitória de Lula e que buscaria a anulação do pleito. Questionou a prorrogação do horário de votação, embora sua própria campanha também tivesse solicitado uma extensão.
Quando parecia que a mentalidade golpista não poderia ir mais longe, Flávio Bolsonaro resolveu dar mais um passo. Na quarta-feira, 28 de outubro, depois de fugir para os Estados Unidos sem entregar seus passaportes, conforme determinado pela Justiça brasileira, e em descumprimento à proibição judicial de deixar o país, divulgou uma carta na qual se apresentou como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, apesar de ter perdido a eleição por mais de quatro milhões de votos. Voltou a falar em fraude, sem apresentar provas, e agradeceu a Donald Trump e Javier Milei pelo apoio recebido. Pouco depois, alterou o documento e passou a se apresentar como “líder do Brasil”.
Também, como se não bastasse, logo após a divulgação do resultado, influenciadores e internautas bolsonaristas correram para as redes sociais de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, pedindo que ele interviesse no Brasil. Apareceram mensagens de socorro (SOS Brasil), pedidos para salvar o país, acusações de fraude e comparações com a Venezuela de Nicolás Maduro.
São pessoas que, do ponto de vista da produção do discurso, passam anos exaltando a pátria e a bandeira brasileira e já há algum tempo pedem e reforçam a intervenção de uma potência estrangeira porque não aceitaram o resultado de uma eleição democrática. É uma contradição insuperável. A pátria parece ser sagrada até o momento em que seus cidadãos escolhem um presidente de quem essas pessoas não gostam.
Agora, em 2026, novamente se tenta colocar sob suspeita a legitimidade das urnas. A eleição termina, o resultado é proclamado e, quando não é o resultado desejado, começa outra vez a história da fraude. Surgem vídeos, teorias conspiratórias, mensagens alarmistas e supostas revelações que nunca vêm acompanhadas de evidências verificáveis. O curioso é que a urna parece funcionar perfeitamente quando elege os candidatos de que essas pessoas gostam. Quando o resultado é desfavorável, passa a ser tratada como instrumento de uma conspiração.
Como é possível continuar falando em eleições fraudadas, em ditadura e em perseguição política quando a própria família Bolsonaro e seus aliados acabaram de conquistar tantas vitórias nas urnas? Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal. Carlos Bolsonaro, senador por Santa Catarina. Jair Renan Bolsonaro conquistou uma vaga de deputado federal, também por Santa Catarina. Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foi eleito deputado federal por São Paulo.
Não estamos falando apenas da família. O PL elegeu 121 deputados federais, conquistou 19 das 54 vagas do Senado em disputa e venceu cinco governos estaduais. Outros aliados do bolsonarismo também tiveram vitórias expressivas, como Tarcísio de Freitas, reeleito governador de São Paulo.
Pensem na contradição. Um sistema eleitoral que supostamente estaria a serviço de uma ditadura permite que a família de seu principal adversário político eleja quatro integrantes para o Congresso Nacional, que seu partido conquiste a maior bancada da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e que diversos aliados assumam governos estaduais. Mas basta Lula vencer a Presidência para que as urnas se tornem fraudulentas?
E há um detalhe que torna essas acusações ainda mais insustentáveis. O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 foi acompanhado por observadores internacionais da Organização dos Estados Americanos (OEA), que atestaram a robustez e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro, reconhecendo a integridade dos resultados oficiais e afirmando não ter dúvidas sobre os dados apresentados pela Justiça Eleitoral. Uma missão internacional independente acompanhou a votação e reconheceu a integridade dos resultados eleitorais. Além disso, a vitória de Lula foi reconhecida por lideranças de diversos países, incluindo França, Espanha, Portugal, Canadá, China e México, além da própria União Europeia, por meio de manifestações de seus principais dirigentes. A comunidade internacional reconheceu a decisão soberana dos eleitores brasileiros.
Nada disso é uma simples divergência sobre a taxa de juros ou sobre o tamanho do Estado. Há pessoas, sim, que parecem enxergar a política exclusivamente pela economia. Repetem que o Brasil está quebrado, que o país acabou, que vivemos uma verdadeira terra arrasada, o que não é verdade. Claro que existem problemas econômicos importantes. O custo de vida pesa no orçamento das famílias, o endividamento preocupa e há questões fiscais que precisam ser enfrentadas. Ninguém precisa negar essas dificuldades para reconhecer que o Brasil está muito longe da situação catastrófica que alguns discursos tentam apresentar.
Mas também é importante que se diga que o Fundo Monetário Internacional projeta que o Brasil poderá voltar a ocupar, em 2027, a posição de oitava maior economia do mundo, considerando o Produto Interno Bruto nominal. É uma projeção, evidentemente, não uma garantia. É um dado que não combina com a narrativa alarmista de um país economicamente destruído. E mesmo que o cenário econômico fosse muito pior, desde quando isso tornaria aceitável relativizar ameaças à democracia, ataques autoritários às instituições, manifestações racistas, discursos misóginos, lgbtfóbicos, aporofóbicos, xenófobos ou a exaltação de torturadores e assassinos da ditadura? A economia importa, e muito. Mas a dignidade humana também. A democracia também. Os direitos fundamentais também.
E, mesmo assim, há quem insista:
— Ah, mas o outro lado também é radical.
É óbvio que existem pessoas intolerantes, agressivas e autoritárias em diferentes posições do espectro político. Mas reconhecer que existem comportamentos condenáveis em mais de um grupo não significa concluir que esses comportamentos tenham a mesma dimensão, a mesma frequência, a mesma organização ou o mesmo significado político. É uma diferença que deveria ser elementar.
O bolsonarismo não inventou o racismo, a misoginia, a LGBTfobia, a xenofobia ou o autoritarismo. Esses preconceitos atravessam a história brasileira há séculos. Mas uma das questões mais preocupantes é como determinados discursos políticos passaram a oferecer tanto espaço e tanta visibilidade, chegando a conferir uma espécie de legitimação social para manifestações que deveriam provocar repúdio. O que aconteceu para tantas pessoas passarem a se identificar tão abertamente com tudo isso, sem demonstrar o menor constrangimento?
Algumas, provavelmente, já pensavam assim. Talvez apenas tenham encontrado um ambiente em que se sentiram à vontade para dizer o que antes escondiam. Mas e as outras? Aquelas que, ao longo dos anos, foram incorporando discursos que antes rejeitariam? Pessoas que conhecíamos, com quem convivíamos, que pareciam incapazes de defender determinadas coisas e que hoje reproduzem, com uma naturalidade impressionante, falas preconceituosas, ataques às instituições e até justificativas para atitudes autoritárias.
Em que momento isso se tornou normal para elas? Como alguém passa a defender um movimento político a ponto de deixar de questionar aquilo que seus integrantes dizem e fazem? Será que não existe um instante de dúvida, uma reflexão sobre os valores que estão sendo defendidos, sobre as pessoas que estão sendo atingidas, sobre o tipo de sociedade que esses discursos ajudam a construir?
E não estou falando de ser de direita. A direita democrática existe, tem suas ideias, suas propostas e todo o direito de defendê-las. É perfeitamente possível ser conservador nos costumes, liberal na economia, discordar profundamente de Lula, do PT ou do campo progressista e, ao mesmo tempo, repudiar o racismo, a misoginia, a LGBTfobia, a xenofobia, o capacitismo, a exaltação da ditadura, os ataques à democracia e a hostilidade contra os nordestinos. Uma coisa não exige a outra. Ter convicções políticas fortes não significa abrir mão da capacidade de pensar criticamente. Esses deveriam ser compromissos mínimos de qualquer pessoa que se considere democrata.
O discurso violento não se transforma automaticamente em violência física. Nem toda pessoa que reproduz uma fala agressiva cometerá um crime. Mas seria ingênuo acreditar que palavras repetidas por lideranças, influenciadores e grupos políticos não produzem efeitos. Antes de alguém ser agredido por sua posição política, pode haver um longo processo de construção daquele adversário como inimigo. Antes de uma população inteira ser insultada por sua origem, pode haver anos de discursos que a apresentam como ignorante, inferior, preguiçosa ou incapaz. Antes de alguém exibir orgulhosamente símbolos fascistas, pode haver um ambiente em que o autoritarismo deixou de ser motivo de vergonha. E antes de alguém defender que um trabalhador perca o emprego porque votou em Lula, pode haver um discurso que, durante anos, ensinou a tratar o adversário político não como alguém com quem se discorda, mas como uma pessoa que deve ser punida, excluída e afastada da convivência social.
Há algo particularmente perigoso nesse processo de transformar pessoas em inimigas. O historiador francês Jacques Sémelin, em seu livro Purificar e destruir, ao investigar os mecanismos que antecederam massacres e genocídios, explica como medos e angústias coletivas podem ser direcionados contra um grupo apresentado como responsável pelos males de uma sociedade. Aos poucos, constrói-se a imagem de um inimigo ameaçador, alguém cuja presença passa a ser vista como um perigo para todos. É nesse processo que se forma aquilo que o historiador denomina “imaginário de morte”, alimentado pelo ódio e pelo desejo de destruir quem foi identificado como a causa do medo. Surge, então, o que Sémelin descreve como um fantasma de onipotência de um “nós” triunfante, que imagina poder se regenerar por meio da destruição do “eles”. A lógica é tão perversa quanto perigosa: para purificar o próprio grupo, seria necessário destruir aquele que foi transformado em inimigo. Evidentemente, não se trata de equiparar os acontecimentos aqui relatados às tragédias históricas estudadas pelo autor, mas de perceber como a construção de um inimigo pode começar muito antes de qualquer ato de violência física, pela maneira como aprendemos a enxergar e a tratar determinadas pessoas.
É essa relação entre discurso e prática que me parece tão importante discutir. E é justamente aí que a postura de certos autoproclamados moderados se torna problemática. A moderação não consiste em fechar os olhos para as diferenças, e a independência intelectual não exige distribuir culpas em partes iguais. A defesa da democracia não é uma posição extremista, pois nem sempre existem dois extremos igualmente distantes da razão. Às vezes, existe uma ameaça concreta de um lado e uma frente política heterogênea tentando contê-la do outro. Reconhecer essa diferença não significa abandonar a moderação, mas, sim, começar a exercê-la.
Talvez por isso tenha sido tão significativo observar, nesta eleição, pessoas identificadas com a direita democrática declarando apoio a Lula no segundo turno. Não porque tenham se tornado petistas da noite para o dia. Não porque tenham passado a concordar com todas as suas propostas. Mas porque compreenderam que havia algo maior em disputa: a democracia.
Então, é preciso refletir sobre a facilidade com que alguns autoproclamados “moderados” confundem a violência de quem propaga o ódio com a indignação de quem se levanta contra ele. Basta alguém reagir com firmeza a uma manifestação racista, misógina, lgbtfóbica, xenófoba ou autoritária para surgir a conhecida advertência:
— Está vendo? Vocês também são intolerantes. Vocês também têm ódio. São iguais aos bolsonaristas.
É curioso como algumas pessoas parecem mais incomodadas com o tom de quem denuncia o preconceito do que com o próprio preconceito. Desde quando a indignação mais forte diante do racismo equivale ao próprio racismo? Desde quando reagir energicamente à misoginia é o mesmo que defender a inferioridade das mulheres? Desde quando repudiar a exaltação de torturadores e ditadores coloca alguém no mesmo patamar de quem os celebra? Há uma diferença enorme entre o ódio que procura inferiorizar, perseguir e excluir pessoas por aquilo que são e a indignação de quem se revolta contra essas práticas.
Respeitados os limites legais, essa indignação não precisa ser sempre delicada, sorridente, acompanhada de palavras cuidadosamente escolhidas para não incomodar quem reproduz preconceitos. Não é necessário responder a manifestações racistas, misóginas ou autoritárias com um discurso fofinho, cheio de paz e amor, apenas para não parecer extremista. A democracia não exige passividade diante de quem pretende destruí-la. O respeito às diferenças não significa tolerância com discursos que negam a dignidade de outras pessoas. Ser civilizado não significa permanecer em silêncio diante do intolerável.
O discurso violento não se transforma automaticamente em violência física. Mas seria uma ingenuidade acreditar que palavras repetidas durante anos, transformando adversários em inimigos, não produzem consequências. Antes de alguém apertar o gatilho, muita coisa pode ter acontecido. Alguém pode ter ensinado que o outro não merece respeito, que sua existência representa uma ameaça, que sua opinião o transforma em inimigo.
Talvez seja isso que mais me incomode na falsa equivalência: a incapacidade de perceber a diferença entre quem alimenta essa lógica e quem se revolta contra ela.
Naquele bar em Mato Grosso, segundo testemunhas, o homem não começou perguntando o nome de ninguém.
Perguntou quem era petista.
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