Fiscal do meu lazer
Há quem se atribua a função de fiscalizar o lazer dos outros, como se o viver tivesse que obedecer a um protocolo de autenticidade
“Por que tu não curtes o momento em vez de ficar filmando?” — disse um amigo, com o olhar de fiscal de um pai que impede o filho de pegar doces na geladeira. Guardei a frase como quem guarda uma concha no bolso: cheia de areia molhada, mas difícil de largar.
Gosto de filmar. Filmo a mim, filmo a minha família, filmo os instantes que, se não registrados, parecem dissolver-se nos escombros do esquecimento. Talvez seja compulsão, talvez seja apenas desconfiança na memória, mas, se não eternizar aquele momento numa filmagem, daqui a cinco, sete, dez anos, já terá apagado rostos, gestos, trejeitos, lugares, sensações, centelhas de pequenas felicidades.
Ao rever um vídeo antigo, sinto a ressurreição da harmonia dos farelos de um biscoito de polvilho espatifado no chão. Quando, mais tarde, outro amigo repetiu a mesma indagação, comecei a rascunhar justificativas, quase como um advogado de mim mesmo. Calculei o tempo: um show, um pedal, um rolê de duas horas, e eu filmando dez, quinze, vinte minutos. Dezesseis por cento do todo. O resto? Ainda assim, percebo a vigilância alheia: há quem se atribua a função de fiscalizar o lazer dos outros, como se o viver tivesse que obedecer a um protocolo de autenticidade.
Não eram os álbuns de fotografia de outrora também pequenas encenações de memória? Hoje, a imagem move-se, dança, fala. Quantas vezes não foi exatamente um vídeo de alguém que me despertou para um lugar novo, uma experiência inesperada? Por que esse incômodo com a câmera erguida? Mas confesso que algo me inquieta: por que compartilho vídeos? Alguma armadilha de um narcisismo banal, para projetar um “eu” inflado no espelho digital? Ou a submissão ao imperativo do desempenho, como diagnostica Byung-Chul Han, esse mandato invisível que gera violência neuronal e nos empurra a transformar ação em performance? Estaria eu colaborando com a Happycracia denunciada por Edgar Cabanas e Eva Illouz, fabricando versões sorridentes de mim mesmo para compor a vitrine dos cidadãos felizes?
Talvez minhas filmagens não passem de fragmentos do império do efêmero, como observa Gilles Lipovetsky, onde tudo precisa ser alimentado, atualizado, renovado, postado, esquecido. Oscilo entre a defesa convicta e a suspeita paranoica. Entre o prazer de registrar e o devaneio de ser uma engrenagem dessa maquinaria de felicidade exibida. Mas, sem meus vídeos, a vida me pareceria menos vívida e intensa. Talvez, no fundo, filme para não esquecer que eu e os meus existimos... e que, por instantes, fomos memória.
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