O futuro e o sorvete de coco
Entre as promessas do futuro e as dificuldades do presente, a solidariedade ainda faz a diferença.
Era quase meio-dia no Centro Histórico de São Luís. O sol esquentava as pedras da Praia Grande e um vendedor de sorvete de coco descansava à sombra de um casarão, com o isopor ao lado da cadeira. Trabalhava ali havia mais de trinta anos. Conhecia os comerciantes, os moradores antigos e os motoristas das vans que passavam pela região. Sabia também quais casarões estavam vazios, onde a água se acumulava quando chovia e em que porta ainda morava gente daquele tempo em que a Praia Grande era mais bairro do que passeio de turista.
Uma van parou ali perto. Desceu um homem de camisa social, pasta debaixo do braço, procurando sombra.
— Tem sorvete de quê, meu chefe?
— De coco.
— Só coco?
— Só. O povo gosta.
— Quanto é?
— Cinco reais.
— Rapaz, tudo está caro!
— Pois é. Só o dinheiro da gente que continua pequeno.
O homem sorriu, comprou um sorvete e ficou por ali enquanto o motorista chamava os últimos passageiros.
— E aí, meu amigo, como é que o senhor está vendo esse Brasil?
O vendedor ajeitou a cadeira.
— Vou levando. E o senhor?
— Não, estou falando do país. Do futuro do Brasil.
— Ah, o futuro! Desse aí eu escuto falar desde pequeno. Já deve estar um homem feito.
O passageiro riu.
— Mas muita coisa está mudando. Hoje temos tecnologia, inteligência artificial, um mundo cheio de oportunidades.
— É, eu vejo falar. Meu neto vive mexendo nessas coisas. Outro dia mostrou um telefone que responde pergunta, escreve carta, faz conta…
— Isso mesmo. É o futuro chegando.
— Pois eu perguntei se o telefone também arranjava emprego pra mãe dele. O menino disse que ainda não.
O passageiro deu outra colherada no sorvete.
— Mas essas tecnologias vão criar novas profissões.
— Tomara. Minha filha estudou, fez curso, entregou currículo em um bocado de lugar. Hoje vende comida por encomenda. Tem dia que ganha alguma coisa, tem dia que só paga os ingredientes.
— Pelo menos ela está empreendendo.
O vendedor olhou para ele.
— É. Agora deram esse nome. No meu tempo a gente chamava de se virar.
O homem sorriu, meio sem jeito.
— O senhor acompanha política?
— Acompanho um pouco. Quando dá tempo, vejo o jornal. Quando não dá, escuto o pessoal conversando aqui na rua. Tem opinião de todo tipo. Até quem não sabe da notícia já chega sabendo de quem é a culpa.
— E o que o senhor acha que está faltando ao Brasil?
— Rapaz, tanta coisa… Mas se o dinheiro desse pra chegar ao fim do mês, já ajudava bastante.
— O problema é mais complicado. Temos questões institucionais, dificuldades na representação política, problemas na democracia…
O vendedor olhou para o homem com curiosidade.
— O senhor é professor?
— Não, sou advogado.
— Ah, tá explicado.
— Explicado o quê?
— Esse tanto de palavra pra falar do Brasil.
O passageiro riu.
— Mas o senhor não acha que o brasileiro precisa aprender a votar melhor?
— Precisa aprender muita coisa. Quem vota e quem recebe o voto. Porque, depois da eleição, tem uns que ficam difíceis de encontrar. Aqui mesmo já apareceu candidato que abraçou tanta gente que pensei que fosse parente de todo mundo.
Uma senhora se aproximou.
— Meu filho, ainda tem sorvete?
— Tem, minha tia. De coco.
— Quanto?
— Cinco reais.
— Eita! Não faz por quatro?
— Se eu fizer por quatro pra senhora, daqui a pouco estou comprando coco fiado.
A mulher abriu a bolsa, remexeu algumas moedas e contou o dinheiro na palma da mão. Faltava cinquenta centavos.
— Depois eu lhe dou o resto.
— Leve, minha tia. A senhora passa aqui quase todo dia.
Ela agradeceu e saiu devagar, segurando o sorvete.
O passageiro acompanhou a cena.
— Pensei que o senhor não vendesse fiado.
— E não vendo. Mas tem gente que a gente conhece. Essa senhora já comprou muito sorvete comigo. Agora está aposentada. Diz que, quando paga a luz e compra os remédios, precisa fazer conta até pra tomar um sorvete.
— O senhor também é aposentado?
— Ainda não. Continuo trabalhando. E mesmo quando conseguir, acho que vou ficar por aqui. Em casa, parado, não sei se aguento.
— Mas o senhor não gostaria de descansar?
— Gostaria, sim. Só que descansar com conta atrasada não descansa ninguém.
O passageiro ficou olhando os casarões. Um grupo de turistas passou fotografando as fachadas coloridas. Mais adiante, um homem empurrava um carrinho carregado de mercadorias, desviando dos buracos entre as pedras.
— Essa região é muito bonita. Tem um patrimônio histórico extraordinário.
— Tem mesmo. Eu gosto daqui. Vi muito casarão fechado, vi obra começar, parar e começar de novo. Quando arrumam uma fachada, fica uma beleza. O problema é que tem gente morando atrás dela com goteira dentro de casa.
— É preciso preservar nossa história.
— Precisa. Mas o povo também faz parte da história, não faz?
— Claro que faz.
— Pois é. Tem turista que chega aqui, tira retrato da porta, da janela, do azulejo. Tudo bonito. Só não aparece na fotografia a mulher que sai de madrugada pra pegar ônibus nem o rapaz que passa o dia procurando serviço.
O advogado ficou calado por um instante.
— O senhor sempre trabalhou vendendo sorvete?
— Não. Já fiz de tudo um pouco. Trabalhei descarregando mercadoria, fui ajudante de pedreiro, vendi fruta. Depois comecei com o sorvete. Aqui pelo menos conheço meus fregueses.
— E dá pra viver?
— Dá pra ir vivendo. Quando vendo bem, separo um dinheiro. Quando vendo pouco, aperto as despesas. Se fico doente, não vendo. Se chove muito, também não. O senhor deve saber como é.
O passageiro pensou um pouco antes de responder.
— No meu trabalho é diferente. Tenho uma renda mais regular.
— Pois é. Eu não tenho salário certo. O que entra depende do movimento. Mas a conta de luz chega certinha todo mês.
O homem pediu outro sorvete, também de coco.
— O senhor tem uma visão muito crítica do país.
— Tenho nada, doutor. Só estou contando o que vejo. O senhor perguntou.
Na rua, um motorista discutia por causa de uma vaga. Dois turistas procuravam um endereço no telefone. Um menino de uniforme escolar passou com a mochila nas costas, acompanhado da avó.
O vendedor apontou discretamente.
— Está vendo aquele menino? Estuda ali perto. A avó compra sorvete pra ele quando sobra algum dinheiro. Ela diz que quer ver o neto formado.
— A educação é fundamental para o futuro do Brasil.
— É mesmo. Eu não estudei muito. Meu pai precisava de ajuda e comecei a trabalhar cedo. Por isso faço questão de que meus netos estudem. Só queria que, depois de estudar, eles encontrassem trabalho por aqui mesmo. Não precisassem ir embora pra ganhar a vida.
— O senhor não quer que eles saiam de São Luís?
— Sair pra conhecer o mundo é bom. Ruim é sair porque não tem outro jeito.
O motorista da van buzinou.
— Bora, doutor! Só falta o senhor!
O passageiro olhou para o relógio, mas ainda tinha uma pergunta.
— Me diga uma coisa. O senhor é de direita ou de esquerda?
O vendedor olhou para os lados.
— Eu fico mais é aqui no Centro.
— No Centro político?
— Não, homem! No Centro Histórico. Se eu sair daqui, meus fregueses não me acham.
O passageiro soltou uma risada.
— O senhor não perde a oportunidade de brincar.
— Se a gente levar tudo a sério, doutor, acaba ficando doente.
O homem apertou a mão do vendedor e caminhou para a van. Já com um pé no carro, voltou-se:
— E o futuro do Brasil? O senhor acha que melhora?
— Tomara. Tenho neto pequeno. Queria que ele tivesse uma vida mais folgada que a minha.
— Então o senhor acredita no futuro?
— Acredito. Só queria que ele chegasse enquanto a gente ainda está por aqui pra aproveitar um pouco.
O motorista tornou a buzinar. O passageiro entrou e a van seguiu pela rua estreita.
O vendedor abriu o isopor, contou os sorvetes que restavam e puxou a cadeira para onde a sombra tinha chegado.
Uma mulher apareceu com um menino pela mão. A criança devia ter uns sete anos e olhava para o isopor com a curiosidade de quem já sabia o que havia lá dentro.
— Moço, tem sorvete de coco?
— Tem, meu filho. Bem geladinho.
— Quanto é?
— Cinco reais.
A mãe abriu a bolsa, procurou algumas moedas e perguntou se ele não fazia por quatro. O vendedor conhecia aquela conversa. Era a segunda vez naquele dia.
— Leve por quatro, minha senhora.
O menino recebeu o sorvete com um sorriso. Antes que começasse a tomar, a mãe avisou:
— Não esquece de guardar um pouco pra tua irmã.
Ele olhou para o sorvete, depois para a mãe.
— Mas ela não veio…
— Justamente por isso.
O vendedor fingiu que estava arrumando o isopor. Quando a mulher se afastou, chamou o menino.
— Ei, meu filho, vem cá.
Tirou outro sorvete e entregou a ele.
— Leva esse pra tua irmã. Assim tu não precisas dividir o teu.
A mãe voltou, constrangida.
— Mas, moço, eu não tenho dinheiro pra outro.
— Eu sei, minha senhora. Esse é por minha conta.
O menino agradeceu e saiu segurando os dois sorvetes, um em cada mão, como quem carregava uma riqueza.
O vendedor ficou olhando até os dois dobrarem a esquina. Depois abriu o isopor, contou novamente o que restava e fez uma conta de cabeça. Não era a melhor hora para distribuir mercadoria. Ainda precisava comprar coco, pagar a luz e levar dinheiro para casa.
Mas fechou a tampa sem arrependimento.
O sol continuava quente na Praia Grande. Os turistas fotografavam os casarões, as vans chegavam e partiam, e o vendedor voltou a anunciar:
— Olha o sorvete de coco!
Naquela manhã, um advogado havia passado quase meia hora discutindo com ele o futuro do Brasil. Falara de tecnologia, democracia, instituições e oportunidades.
O vendedor não sabia quando esse futuro chegaria. Nem se estaria vivo para vê-lo.
Sabia apenas que, naquele dia, duas crianças poderiam tomar um sorvete inteiro.
E, para quem passara a vida dividindo quase tudo, aquilo já era alguma coisa.
Não resolvia o problema do Brasil, é verdade.
Mas o Brasil também precisava aprender a não deixar tudo para depois.
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