COLUNA
Curtas e Grossas
José Ewerton Neto é poeta, escritor e membro da Academia Maranhense de letras.
Curtas e Grossas

A beleza da bunda

“Quase ninguém lembra, mas no final do século passado circulou em todo o Brasil a revista chamada Bundas...”

José Ewerton Neto

 

Pouca gente lembra, mas no final do século passado circulou em todo o Brasil a revista chamada Bundas, com conteúdo de humor político na linha do jornalismo consagrado pelo Pasquim. 

Quase completamente esquecido da mesma, resgatei em um sebo há alguns dias, ainda em bom estado de conservação, alguns exemplares da referida revista.

Em uma das edições, a de número 48, um de seus colaboradores Sérgio Augusto, explicava a escolha do título da revista, citando a palavra Bunda como a mais bonita da língua portuguesa: 

“ Tenho para mim que quando alguém me pede uma palavra bonita a escolha seja ditada mais pela eufonia do que pela expressividade semântica. É o som e não o sentido que embeleza ou enfeia um vocábulo. Pelo menos os poetas deveriam saber disso. Alguns não sabem, daí o prestígio de vocábulos como liberdade, democracia, esperança entre os bardos da terra. Baudelaire e Joyce teriam ficado horrorizados com essas escolhas. Para Baudelaire a palavra mais bonita da língua francesa era hemorróides. Joyce preferia cuspidor que, na língua dele, também significava escarradeira, mas que, evidentemente, soa mais agradável aos ouvidos quando pronunciada à irlandesa. ” 

Nos tempos do Hoje é dia de...em meu espaço no jornal O estado do Maranhão, encarei esse tema e argumentei de forma semelhante, porém fui mais longe, sugerindo que as palavras, muitas vezes, se rebelam por conta própria ao significado que lhes impõem e irrompem radiantes e maravilhosas, a despeito da semântica que, coladas a elas, de uma certa forma, as escraviza. Em defesa de minha tese me socorri da frase de Vítor Hugo que soa como um postulado: “As palavras, como se sabe, são seres vivos. ”

E então, caro leitor? Seria mesmo a palavra Bunda merecedora do galardão de a mais bela? Lembro de que alguns leitores, na época, se deixavam levar pela semântica e me enviaram mensagens apontando as costumeiras Mãe, Coração ou Liberdade como a mais bela. A palavra Bonita foi a mais bonita na opinião do articulista — e poeta — José Neumanne Pinto. 

Quanto à palavra Bunda, podem falar tudo da mesma, menos de que seja feia, independente de não poder ser citada com naturalidade nos discursos e homenagens. 

Assim como uma rosa é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa...uma bunda é uma bunda, é uma bunda, é uma bunda...possuindo ainda uma adicional peculiaridade vitoriosa. Se não for a mais bonita é sempre bom lembrar que em qualquer fila onde esteja, todo ser humano, antes de ser o primeiro, sempre estará atrás de uma.


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