Ninguém mora na minha mente sem pagar aluguel
Há pessoas que não pagam aluguel para morar na nossa mente por uma razão muito simples: elas ajudaram a construir o imóvel
Vim a São Paulo a trabalho. Reuniões, compromissos, treinamento, agenda cheia. Mas resolvi fazer uma coisa diferente desta vez: aproveitar os espaços entre um compromisso e outro para reencontrar algumas pessoas que fizeram parte da minha história.
Em um desses intervalos, tirei o dia para almoçar com um grande amigo. Daqueles almoços sem hora para acabar, em que a conta chega muito antes de a conversa terminar.
Falamos da vida, dos filhos, do trabalho, das escolhas que fizemos e das pessoas que nos tornamos. E, em determinado momento, enquanto o escutava, comecei a perceber uma coisa que talvez ele próprio nunca tenha percebido.
Muitos anos atrás, aquele amigo me mostrou uma São Paulo que eu não conhecia.
E não estou falando apenas da cidade.
Ele me apresentou um jeito diferente de olhar as coisas. De entender pessoas, possibilidades, negócios, lugares. De alguma maneira, através dos olhos dele, conheci também um Brasil diferente daquele que eu conhecia.
Depois voltei para São Luís.
Levei minha vida adiante, construí empresas, fiz negócios, acertei, errei, conheci outras pessoas. E nunca parei para pensar quanto daquele novo olhar havia viajado comigo.
Até aquele almoço.
Foi quando me ocorreu uma frase conhecida: ninguém mora na minha mente sem pagar aluguel.
Normalmente usamos essa expressão para falar de quem nos incomoda. É uma forma de dizer que não devemos permitir que alguém que nos fez mal continue ocupando gratuitamente nossos pensamentos.
Faz sentido.
Mas naquele dia percebi que a frase contava apenas metade da história.
Porque existem pessoas que moram na nossa mente há décadas e não pagam aluguel nenhum.
E ainda bem.
Não porque pensemos nelas todos os dias. Às vezes passamos anos sem encontrá-las. Mas alguma coisa que disseram, fizeram ou nos mostraram acabou incorporada àquilo que somos.
Elas aparecem na maneira como tomamos uma decisão. No jeito como enxergamos uma oportunidade. Na coragem para fazer alguma coisa. Em um cuidado que aprendemos a ter. Até na forma como passamos a olhar uma cidade.
Há pessoas que não pagam aluguel para morar na nossa mente por uma razão muito simples: elas ajudaram a construir o imóvel.
Não são hóspedes.
Estão na fundação.
Nós, empresários, temos certa tendência a contar nossa trajetória como uma história individual. Trabalhei. Arrisquei. Decidi. Construí. Conquistei.
Os verbos normalmente aparecem na primeira pessoa.
Só que nenhuma trajetória empresarial é realmente escrita assim.
Dentro de cada decisão que tomamos existe um pouco de gente que encontramos pelo caminho.
Um professor. Um sócio. Um funcionário. Um cliente. Um amigo. Alguém que abriu uma porta. Outro que fechou uma. Alguém que disse uma frase na hora certa. Outro que nos apresentou uma realidade que não conhecíamos.
Às vezes, a contribuição foi tão discreta que a própria pessoa nunca soube o que provocou.
Esse talvez seja um dos patrimônios mais difíceis de contabilizar de uma vida: as pessoas que modificaram nosso olhar.
Porque dinheiro recebido aparece no extrato. Um imóvel aparece no patrimônio. Uma participação societária aparece no contrato.
Mas onde contabilizamos alguém que, aos vinte e poucos anos, nos fez enxergar possibilidades que antes não existiam?
Em lugar nenhum.
E, ainda assim, carregamos aquilo por décadas.
Talvez seja por isso que reencontrar determinadas pessoas produza uma sensação tão diferente. Não estamos apenas revendo alguém de quem gostamos. Estamos diante de uma parte da nossa própria construção.
Naquela tarde, meu amigo provavelmente achava que estávamos apenas colocando a conversa em dia.
Eu estava fazendo outra coisa.
Estava descobrindo de onde tinha vindo uma parte de mim.
Por isso, de vez em quando, vale fazer um inventário diferente daquele que fazemos nas empresas. Em vez de contar apenas o patrimônio que acumulamos, tentar lembrar das pessoas que ajudaram a construí-lo — e a nos construir.
Algumas talvez nem saibam.
E talvez essa seja justamente a beleza.
Há pessoas que moram há muitos anos na minha mente sem pagar aluguel.
Não pretendo cobrar.
Afinal, uma parte da casa foi construída por elas.
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