COLUNA
Felipe Fernandes
Felipe Fernandes é engenheiro pela USP, pós-graduado pela FGV, CEO da RendMais Investimentos e presidente do Grupo Fernandes Ribeiro.
Felipe Fernandes

Espelho, espelho meu

Quem toma decisões importantes precisa entender que os espelhos mais valiosos são justamente os que discordam

Felipe Fernandes

Todo mundo conhece a história da Branca de Neve. Ela estava em paz. Reino em paz. Madrasta em paz. Espelho em paz. Estava tudo certo.

Até que um dia a madrasta chega para o espelho e pergunta: espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?

O espelho responde: existe. É a Branca de Neve.

Aí ela vira bruxa, contrata um caçador, quebra o espelho, espalha o terror pelo reino e manda matar a menina. Tudo isso porque ouviu uma coisa que não queria ouvir.

Costumamos ler essa fábula como uma história sobre vaidade. Mas há uma leitura mais interessante, e mais incômoda, escondida nela. A madrasta não enlouquece apenas porque é vaidosa. Enlouquece porque não suporta uma informação que contraria aquilo que ela já havia decidido ser verdade. O espelho não a traiu. Apenas parou de concordar com ela.

E é aí que a fábula deixa de falar de rainhas e passa a falar de nós.

Porque todos temos o nosso espelho. Ele aparece na forma de um sócio que discorda do plano, de um funcionário que aponta uma falha que ninguém quis ver, de um número que contradiz a nossa expectativa, de um cliente que diz não. Às vezes aparece na forma de alguém que pensa o oposto de nós sobre política, sobre negócios, sobre a vida — e que, mesmo assim, diz algo que faz sentido.

A fábula, no entanto, guarda uma pergunta mais dura, que só aparece quando paramos de olhar para a madrasta e começamos a olhar para nós.

Diante de uma informação que contraria a nossa posição, costumamos reagir de duas maneiras. A primeira é perguntar: isso é verdade? A segunda: quem ousou dizer isso? A diferença entre as duas define quase tudo — na vida e nos negócios.

Quem pergunta “isso é verdade?” avalia o mérito. Separa a mensagem de quem a trouxe. Consegue reconhecer um bom argumento mesmo quando ele vem de um concorrente, de um adversário, de alguém de quem discorda em quase tudo. Essa é uma das formas mais raras de inteligência que existem: a capacidade de dar razão a quem está do outro lado, quando o outro lado tem razão.

Quem pergunta “quem ousou dizer isso?” faz o contrário. Julga a informação pela origem. Se veio de alguém de quem gosta, aceita. Se veio de alguém de quem discorda, rejeita antes mesmo de examinar. Essa pessoa nunca está avaliando ideias. Está apenas conferindo de que lado vem cada uma — e defendendo a posição que já tinha antes da conversa começar.

O problema é que a realidade não se importa com de que lado vem a informação. Uma análise correta continua correta ainda que venha de quem você não suporta. Um risco real continua existindo ainda que quem o apontou não seja da sua confiança. Um projeto com falha continua com falha mesmo que quem enxergou a falha seja justamente aquele que você preferia ignorar.

Quem só aceita informação que confirma o que já pensa comete, no fim, o erro da madrasta. Passa a quebrar os espelhos. Afasta quem discorda, cerca-se de quem concorda, e constrói ao redor de si um mundo em que todas as respostas são agradáveis. Por um tempo, é confortável. Mas é um conforto perigoso — porque o espelho servia justamente para mostrar o que os olhos, sozinhos, não alcançavam. Sem ele, a madrasta não ficou mais bela. Ficou apenas mais cega.

Quem toma decisões importantes precisa entender que os espelhos mais valiosos são justamente os que discordam. O sócio que questiona, o consultor que aponta o problema, o concorrente que acertou onde você errou, o adversário cuja análise, por mais que doa admitir, estava certa. São esses espelhos que impedem alguém de decidir cercado apenas do próprio reflexo.

Roberto Justus contou certa vez que considerava as conversas de desligamento mais reveladoras do que as de contratação. Não porque gostasse de demitir, mas porque acreditava que, naquele momento, o profissional poderia dizer com mais franqueza aquilo que talvez não tivesse coragem de falar enquanto permanecia na empresa. Com menos receio de desagradar ou sofrer consequências, poderia oferecer uma visão mais sincera sobre os gestores, os processos e a própria organização.

Há uma lição incômoda nisso. O ideal seria que as pessoas se sentissem seguras para dizer a verdade enquanto ainda fazem parte da empresa. Mas, quando isso não acontece, talvez o espelho mais sincero seja justamente aquele que já não teme ser quebrado.

Ouvir o que não se quer ouvir não é fraqueza. É uma das disciplinas mais difíceis que existem, e uma das mais lucrativas. Porque a informação de que mais precisamos raramente é a que nos agrada. Quase sempre é aquela que preferíamos não ter escutado.

No fim, a fábula não fala sobre beleza. Fala sobre a maturidade de continuar ouvindo o espelho mesmo quando ele deixa de dizer o que gostaríamos de ouvir.

Em quem você se transforma quando alguém diz o que você não quer ouvir?


As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.

Leia outras notícias em Imirante.com.