A prisão invisível
Para se conquistar a genuína liberdade de pensamento, são necessários questionamento e aprendizado
Por volta do século IV a.C., Platão escreveu “A República” e tratou de um mito ou alegoria em que homens permanecem acorrentados desde o nascimento no interior de uma caverna, forçados a olhar apenas para a parede do fundo, sem nunca terem conhecido o mundo exterior. Tais prisioneiros somente enxergavam as sombras projetadas no fundo da caverna e tomavam-nas como a única verdade existente, ignorando a realidade externa.
No Brasil, cerca de 48,9 milhões de pessoas vivem na linha da pobreza, sem acesso à alimentação adequada, melhores condições de saúde e educação de qualidade. Quanto ao analfabetismo, há 9,1% de brasileiros que não sabem ler nem escrever. Como se não bastasse, quase 30% da população não consegue interpretar textos ou realizar operações matemáticas básicas, sendo considerada analfabeta funcional, conforme os últimos relatórios do IBGE.
Ao refletirmos sobre a realidade dos brasileiros, podemos concluir que milhões e milhões de pessoas estão dentro de uma prisão invisível, sem a mínima chance de encontrarem a saída. Permanecem acorrentadas pelos grilhões da ignorância e sequer sabem disso. De acordo com o escritor russo Fiódor Dostoiévski: “A melhor maneira de evitar que um prisioneiro escape é garantir que ele nunca saiba que está na prisão.”
Ora, como alguém vai lutar por direitos, escolher conscientemente os seus representantes políticos e exercer a cidadania plena, se não possuir a capacidade de desenvolver um raciocínio crítico mais aprofundado?
Para se conquistar a genuína liberdade de pensamento, são necessários questionamento e aprendizado. Paulo Freire propôs um modelo de educação libertadora, capaz de transformar os seres humanos e a sua realidade, tornando-a mais digna. Esse educador brasileiro, internacionalmente reconhecido, defendeu a constante e salutar dialética entre professores e alunos, confrontando o modelo engessado de educação bancária, que encara o aluno como um “ser sem luz” e mero depósito de informações.
Há cerca de 2 mil anos, o Mestre da Galileia já ensinava: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (JOÃO 8:32). Jesus de Nazaré empregou a educação como instrumento para a libertação mental, espiritual e social das pessoas, o que podemos constatar em suas parábolas permeadas de profundo conhecimento.
Por décadas, nos acostumamos a ouvir “Brasil, país do futuro”. Essa expressão foi cunhada pelo austríaco Stefan Zweig no ano de 1941, quando, para escapar das atrocidades nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, refugiou-se no Brasil e imediatamente encantou-se com as riquezas naturais, a miscigenação e a alegria do povo que mora por estas terras.
Não foi por acaso que, no ano de 1997, o Papa João Paulo II reafirmou a expressão “Deus é brasileiro”. O nosso país possui tantas qualidades maravilhosas que beira uma utopia. Contudo, lembremos que a palavra “utopia” literalmente significa “lugar nenhum”.
Para concretizarmos as expectativas de um bom futuro, as nossas crianças precisam saber ler e os adultos interpretar. O Brasil somente chegará onde merece por meio de políticas públicas e movimentos de toda a sociedade em prol da educação universal e de qualidade.
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