COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

Por que algumas universidades inovam e outras não?

A resposta mais simples para explicar a diferença entre as universidades seria dinheiro.

Roberto Serra

Todos os anos, universidades brasileiras, públicas e privadas, formam milhares de estudantes, publicam dezenas de milhares de artigos científicos e mobilizam contingentes expressivos de professores, pesquisadores, laboratórios e recursos. Ainda assim, quando observamos o que acontece depois dessa produção de conhecimento, as diferenças tornam-se enormes. Algumas universidades conseguem transformar pesquisas em tecnologias, proteger ativos intelectuais, transferir conhecimento, criar novos negócios e fazer soluções chegarem efetivamente à sociedade e ao mercado. Outras, mesmo produzindo ciência de qualidade e dispondo de competências semelhantes, encontram enorme dificuldade para fazer o conhecimento atravessar seus próprios muros. Afinal, por que algumas universidades inovam e outras não?

Antes, porém, convém esclarecer o que estamos chamando de inovação. O termo é frequentemente utilizado como sinônimo de novidade, invenção ou simples melhoria, mas, no contexto deste artigo, inovação tem um sentido mais específico: ocorre quando o conhecimento se transforma em soluções novas ou significativamente aprimoradas que são implementadas e passam a gerar valor — econômico, social ou público — por meio de produtos, serviços, processos, políticas ou modelos organizacionais. Uma pesquisa pode gerar conhecimento e uma invenção pode resultar em uma patente, mas nenhuma delas, isoladamente, representa necessariamente uma inovação. É preciso que esse conhecimento encontre aplicação, seja utilizado e produza algum resultado concreto. É essa capacidade de fazer o conhecimento atravessar os muros da universidade e gerar consequência fora dela que está em questão.

A resposta mais simples para explicar a diferença entre as universidades seria dinheiro. Instituições com mais recursos teriam melhores laboratórios, pesquisadores e condições para inovar. Recursos importam, evidentemente, mas essa explicação é insuficiente. É possível encontrar excelentes laboratórios, grupos de pesquisa qualificados e pesquisas científicas que jamais chegam à sociedade. O ponto central talvez esteja justamente aí: produzir conhecimento e possuir capacidade institucional para transformá-lo em valor são competências diferentes. Podemos chamar isso de capacidade de conversão do conhecimento, isto é, a habilidade de fazer o saber produzido percorrer a jornada que vai da descoberta à aplicação e da aplicação à geração de valor.

Essa capacidade não surge espontaneamente. Universidades inovadoras são construídas. E a primeira diferença está na cultura institucional. Ainda persiste, em muitos ambientes acadêmicos, certa resistência à aproximação da universidade com as empresas e com o empreendedorismo, alimentada por uma falsa oposição entre ciência rigorosa e aplicação econômica. Mas transformar uma descoberta científica em medicamento não diminui a ciência que a originou. Criar uma empresa a partir de uma tecnologia desenvolvida em laboratório não torna a pesquisa menos acadêmica. Transferir conhecimento para quem possui capacidade de levá-lo à sociedade não significa privatizar a universidade. Significa dar consequência ao conhecimento.

Há também uma questão ainda mais incômoda: as universidades tendem a produzir exatamente aquilo que seus sistemas institucionais valorizam. Durante décadas, construímos mecanismos sofisticados para avaliar publicações, citações, formação acadêmica e produtividade bibliográfica. O problema surge quando praticamente todo o reconhecimento do pesquisador termina aí. Se publicar um artigo conta para a progressão acadêmica, mas licenciar uma patente quase não conta; se orientar uma dissertação é valorizado, mas criar uma spin-off acadêmica não; se a produção científica é reconhecida, mas implementar uma solução para um problema real é institucionalmente quase invisível, não deveria nos surpreender que a universidade produza exatamente aquilo que decidiu premiar. Podemos exigir uma cultura de inovação utilizando apenas incentivos de uma cultura orientada quase exclusivamente à publicação?

Outro fator decisivo é a liderança. Em universidades inovadoras, a inovação não é um projeto periférico conduzido por alguns professores entusiasmados. Ela aparece no planejamento institucional, no orçamento, nas políticas internas e nas decisões da alta gestão. Quando depende exclusivamente de pessoas, desaparece quando elas saem. Quando se transforma em instituição, permanece. Mas estratégia sem estrutura também não basta. Núcleos de Inovação Tecnológica não podem funcionar apenas como cartórios de patentes, assim como incubadoras não devem ser apenas espaços físicos. Agências de inovação, ambientes de empreendedorismo, laboratórios, fundações de apoio e mecanismos de transferência tecnológica precisam funcionar como partes de uma mesma engrenagem.

Existe ainda outro diferencial importante: universidades inovadoras aprendem a escutar problemas. A inovação pode começar em duas direções. Uma descoberta científica pode procurar uma aplicação, mas um problema concreto também pode procurar conhecimento. Em vez de universidade e setor produtivo permanecerem em mundos paralelos, os problemas atravessam os muros acadêmicos e mobilizam competências científicas para resolvê-los. É pesquisa orientada por desafios, inovação aberta e, sobretudo, ciência conectada às necessidades reais da sociedade.

Os casos de universidades reconhecidas por sua capacidade de inovação mostram que não existe um único modelo. Stanford construiu, ao longo de décadas, uma forte cultura de empreendedorismo e transferência tecnológica conectada ao Vale do Silício. O MIT consolidou sua identidade na interação entre ciência, engenharia e resolução de problemas concretos. No Brasil, universidades como a Unicamp demonstram que é possível combinar pesquisa de excelência, propriedade intelectual, empreendedorismo e forte conexão territorial. O ponto comum não é apenas dinheiro, mas a existência de um sistema formado por cultura, incentivos, liderança, estruturas, financiamento e conexões.

Nenhuma universidade inova sozinha. Empresas, governos, agências de fomento, investidores, organizações de apoio e a própria sociedade formam o ecossistema no qual a inovação acontece. Por isso, também não basta copiar estruturas de universidades famosas e esperar os mesmos resultados. Cada instituição precisa construir seu próprio modelo a partir das competências que possui e, principalmente, dos problemas e oportunidades do território onde está inserida.

Talvez, portanto, nosso maior gargalo não seja simplesmente a falta de ciência. O Brasil produz conhecimento relevante e dispõe de universidades, pesquisadores e competências instaladas em todas as regiões. O desafio pode estar justamente nas pontes, na capacidade de converter esse enorme estoque de conhecimento em soluções, tecnologias, empresas, políticas públicas e transformações concretas.

Uma universidade inovadora não nasce de um laboratório excepcional ou de um pesquisador isolado. Ela é uma escolha institucional. Surge quando cultura, incentivos, liderança, estruturas, financiamento e conexões funcionam como um sistema capaz de dar consequência à ciência.

Porque conhecimento represado pode até produzir excelentes indicadores acadêmicos. Contudo, é o conhecimento em movimento que pode transformar territórios. Nesse sentido, a pergunta mais apropriada para descobrirmos se estamos inovando ou não seria: o que estamos fazendo, institucionalmente, para que o conhecimento que já produzimos transforme a vida das pessoas?


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