Denúncias contra Hospital da Criança

VÍDEO: pais contestam informações repassadas por nota da Prefeitura de São Luís sobre mortes no Hospital da Criança

As famílias afirmam que a gestão municipal divulgou informações incorretas sobre o estado de saúde e a chegada dos pacientes à unidade.

Imirante.com, com informações da TV Mirante

Atualizada em 15/07/2026 às 14h55

SÃO LUÍS - Familiares de crianças que morreram após passarem por atendimento no Hospital da Criança Odorico Amaral de Matos, em São Luís, contestaram informações divulgadas pela prefeitura sobre os casos. De acordo com os parentes, a nota publicada pela gestão municipal expõe dados incorretos sobre o estado de saúde dos pacientes, a forma como eles chegaram à unidade e as circunstâncias das internações.

O Hospital da Criança é uma das principais unidades públicas de atendimento infantil do Maranhão e está sob uma investigação do Ministério Público do Maranhão (MP-MA), após denúncias relacionadas ao aumento do número de mortes nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do hospital.

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A apuração reúne reclamações encaminhadas à Ouvidoria-Geral do Sistema Único de Saúde (SUS). Os relatos mencionam problemas na estrutura das UTIs, falta de materiais, possível incapacidade técnica de profissionais e suspeitas de negligência e imperícia médica.

Pais de crianças que morreram após atendimento no Hospital da Criança contestam as informações divulgadas pela Prefeitura de São Luís sobre os casos. (Foto: reprodução / TV Mirante)

As famílias também afirmam que as denúncias e os dados relacionados aos óbitos foram encaminhados ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal.

Mãe nega que gêmeos tenham chegado de ambulância

Entre os casos citados na nota da prefeitura estão os dos gêmeos Bento e Bernardo, de quatro meses. Eles deram entrada no Hospital da Criança em 27 de junho, com sintomas gripais, foram diagnosticados com bronquiolite e morreram dias depois.

No documento, a Prefeitura de São Luís afirma que Bento teria sido transferido de ambulância do município de Rosário, já em estado gravíssimo e com bronquiolite em estágio avançado. A informação foi negada pela mãe das crianças, Carla Samila dos Santos.

“A nota de repúdio que a prefeitura colocou é totalmente mentirosa. Eles informaram que a gente tinha saído de ambulância de Rosário e que o meu filho já tinha chegado em estado grave. A gente não foi de ambulância porque não deu entrada no Hospital de Rosário. A gente saiu de carro próprio e foi direto para São Luís. Meu filho não estava em estado grave quando chegou. Meu filho agravou lá no hospital”, afirmou.

Pais de crianças que morreram no Hospital da Criança. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

A Prefeitura de Rosário também se manifestou nas redes sociais e declarou que os bebês não foram transportados por uma ambulância do município. Segundo a gestão municipal, a nota divulgada pela Prefeitura de São Luís contém um equívoco sobre a origem das internações.

Apesar disso, o diretor clínico do Instituto Brasileiro de Medicina e Desenvolvimento (IBMED), Paulo Bayma, também afirmou que as crianças teriam vindo de Rosário em uma ambulância sem médico e sem cilindro de oxigênio.

A versão é contestada pelos pais.

Família relata que Bernardo chegou apenas com sintomas gripais

A nota da Prefeitura de São Luís também informa que Bernardo deu entrada no hospital com um quadro semelhante ao do irmão. A mãe afirma, porém, que ele apresentava apenas sintomas gripais e não tinha pneumonia quando chegou à unidade.

“E referente ao Bernardo, eles informaram que o meu filho tinha entrado com pneumonia. Meu filho não estava com a pneumonia. Meu filho entrou com sintomas gripais", disse Carla Samila.

Segundo os pais, Bento apresentava inicialmente o quadro mais grave, com cansaço e dificuldade para respirar. A equipe médica teria informado à família que seria necessário intubar o bebê.

Bernardo, de acordo com os parentes, apresentava sintomas considerados mais leves e permaneceu por dois dias em uma sala de medicação. A família afirma que o estado de saúde dos dois se agravou dentro do hospital.

O pai das crianças registrou um boletim de ocorrência em São Luís. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Após sofrer duas paradas cardiorrespiratórias, Bento foi levado para uma UTI, mas não resistiu. A declaração de óbito aponta insuficiência renal aguda, pneumonia, pneumotórax e choque séptico.

Cerca de 24 horas depois do sepultamento de Bento, Bernardo também morreu.

Prematuridade é citada pela prefeitura

Na nota, a prefeitura destaca que os irmãos tinham quatro meses e histórico de prematuridade. Para a mãe, a informação foi utilizada de forma a associar as mortes a uma suposta fragilidade anterior das crianças.

“Apesar dos meus filhos terem nascido prematuros, mas meus filhos eram meninos saudáveis. Meus filhos não viviam doentes. Meus filhos não viviam em hospitais. Meus filhos eram saudáveis”, afirmou Carla Samila. , afirmou Carla Samila.

Ela classificou o conteúdo do documento como desrespeitoso e disse que a versão apresentada pela gestão municipal não corresponde ao que foi vivido pela família durante a internação.

Família de Otto contesta referência a cuidados paliativos

Outro caso mencionado pela prefeitura é o de Otto, de nove meses, que morreu após permanecer internado por 17 dias no Hospital da Criança.

Na nota, a gestão municipal afirma que o bebê possuía uma doença degenerativa grave, síndrome de West, microcefalia, sequelas de anóxia perinatal e encefalopatia crônica progressiva. O documento também destaca que ele tinha traqueostomia e gastrostomia e estava em cuidados paliativos.

A família não nega as condições clínicas da criança, mas afirma que elas não explicam nem justificam os problemas ocorridos durante a internação.

“A condição dele não teve culpa do que aconteceu com ele. A negligência do hospital é que teve culpa. O mau trato que ele recebeu... Porque, para mim, o que fizeram com o meu filho foi isso, porque não respeitaram ele nem na hora da morte dele. A gente já entendia que ele já estava morto. Ele estava roxo, a saturação dele estava em 0, em 2, e o médico tinha colocado adrenalina. Ele simplesmente falou para a gente que não ia tirar a adrenalina, porque a gente poderia se arrepender e processar eles”, afirmou a mãe, Leyciane Barbosa.

Segundo ela, a nota minimizou as circunstâncias da morte e desrespeitou a história do filho.

“Na hora que eu li, senti uma dor muito grande, porque, para mim, foi um desrespeito à dor que o meu filho passou. Meu filho lutou tanto para viver. Ele era muito forte, apesar de tudo o que fizeram com ele. É como se estivessem dizendo que o meu filho não era nada, que a morte dele não foi nada”, lamentou.

Pais explicam significado dos cuidados paliativos

André, pai de Otto, também contestou a forma como a prefeitura mencionou os cuidados paliativos.

Segundo ele, o acompanhamento paliativo tinha como objetivo garantir conforto, tratamento adequado e qualidade de vida, e não significava que a morte da criança fosse considerada imediata ou inevitável.

“Uma pessoa que já entra no hospital, no caso dele, já entra em cuidados paliativos, mas não em cuidados paliativos finais. Ela entra em cuidados paliativos, no cuidado da melhor maneira de atendê-lo, da melhor maneira de tratá-lo. Não em cuidados paliativos de dizer que, daqui a duas horas, ele vai morrer: ‘Vamos botar logo morfina, vamos colocar logo adrenalina nele’. Não. O cuidado paliativo em que ele estava, segundo o que falaram para a gente, era o cuidado de cuidar dele, de achar a melhor maneira possível de tratá-lo para ele receber alta”, destacou o pai.

A família relata que Otto já havia sido atendido anteriormente no Hospital da Criança. Em uma dessas internações, ele teria sido transferido da UTI para uma enfermaria mesmo sem condições clínicas, segundo a mãe.

Em janeiro de 2026, Otto voltou a ser internado no Hospital da Criança, desta vez com uma infecção intestinal. Os pais afirmam que exames e procedimentos básicos demoraram a ser realizados. Ele morreu após 17 dias de internação. A declaração de óbito aponta choque séptico como causa da morte.

Família cita falta de materiais e medicamentos

Os pais de Otto afirmam ainda que precisaram comprar materiais e medicamentos que deveriam estar disponíveis no hospital, entre eles luvas, sondas e um anticonvulsivante que custava cerca de R$ 600.

De acordo com Leyciane, a falta de sondas colocava em risco crianças com traqueostomia que dependem de aspiração frequente para retirar secreções.

“A falta de material não é só medicamento. É sonda, é não ter sonda para fazer uma aspiração, é não ter como salvar uma criança. Porque, se é uma criança que usa tráqueo, e são vários tipos, não é só uma criança que tem paralisia cerebral que usa tráqueo, existem vários motivos para se usar uma tráqueo, pessoas conseguem viver a vida inteira com traqueostomia, mas precisam dos cuidados, que é a aspiração. Se você está ali, ainda mais com uma criança que não sabe tossir, que não sabe colocar para fora sozinha, você precisa aspirar. Se você não aspirar, ela sufoca, ela morre. Então, a gente tinha que comprar a sonda para levar para o hospital, para o nosso filho não morrer asfixiado pela própria secreção”, afirmou a mãe de Otto.

A família também afirma que precisou adquirir outros itens durante o período de internação.

Leyciane também relatou que, durante os últimos momentos de vida de Otto, a família questionou a manutenção da aplicação de adrenalina. Segundo ela, mesmo com a saturação extremamente baixa e o corpo da criança já apresentando sinais de morte, um médico teria afirmado que não retiraria a medicação sem autorização.

Segundo ela, a família teria sido informada de que seria necessário aguardar a chegada de outra médica para autorizar a retirada da medicação.

Famílias dizem que nota tenta descredibilizar denúncias

Na publicação, a Prefeitura de São Luís também contesta os números apresentados nas denúncias e divulgados em reportagens sobre o Hospital da Criança.

As famílias afirmam, porém, que os dados citados fazem parte de documentos e relatos investigados pelo Ministério Público do Maranhão e encaminhados ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal.

Para Leyciane, a nota da gestão municipal tenta descredibilizar os parentes e apagar a trajetória das crianças.

“Meu filho não fez mal a ninguém. Pelo contrário, só fizeram mal a ele. Para mim, é como se estivessem ferindo a honra do meu filho, tudo o que ele lutou e tudo o que ele representou. Apesar de todo o mal que fizeram, ele continuou lutando. A nota tenta apagar a história dele e diminuir a importância da vida dele. Não existem palavras que consigam explicar esse sentimento de indignação”, afirmou.

As famílias cobram a apuração das circunstâncias das mortes, das condições de atendimento no hospital e da possível falta de profissionais, medicamentos e materiais na unidade.

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