COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

Além dos muros da Universidade: o Maranhão investe em quem cria o futuro

A universidade contemporânea não abandona o ensino, a pesquisa e a extensão. Ela integra essas dimensões e avança para uma nova missão.

Roberto Serra

No último dia 10 de julho, a atmosfera vibrante na Agência Marandu não celebrava apenas o início de um calendário institucional, mas o marco zero de uma nova era para o desenvolvimento do nosso estado. Dezenas de estudantes, professores, pesquisadores, servidores técnico-administrativos e integrantes do ecossistema de inovação reuniram-se para acolher 48 novos projetos de negócios inovadores da Incubadora UEMA. Somados às 20 iniciativas formadas recentemente e às 28 soluções desenvolvidas para a agricultura familiar, eles revelam uma mudança profunda na maneira como a universidade pública maranhense compreende sua responsabilidade diante da sociedade. 

A universidade contemporânea não abandona o ensino, a pesquisa e a extensão. Ela integra essas dimensões e avança para uma nova missão: transformar conhecimento em soluções, tecnologias, empresas, políticas, serviços e oportunidades. Sua relevância passa a ser medida também pela capacidade de enfrentar problemas concretos e entregar valor à população.

Essa perspectiva modifica a atitude de estudantes e professores. A pergunta deixa de ser apenas “o que podemos estudar?” e passa a incluir “o que podemos entregar à sociedade?”. Trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, pesquisas e ações de extensão passam a ser percebidos como possíveis fontes de produtos, processos, serviços e empreendimentos. O conhecimento ganha direção, propósito e compromisso com resultados.

A potência desse movimento está na superação de dois muros históricos: o da disciplinaridade e o da centralização geográfica. O portfólio da Incubadora UEMA demonstra que o empreendedorismo inovador não é monopólio das engenharias ou da computação. Há propostas em bioeconomia, agricultura familiar, saúde, educação, energia, economia circular, inteligência artificial, patrimônio, turismo, logística, gestão pública e desenvolvimento territorial. 

Convivem nessa carteira soluções relacionadas ao babaçu, à meliponicultura, aos bioinsumos, aos biomateriais e ao reaproveitamento de resíduos. Há também diagnóstico de doenças em plantas por inteligência artificial, irrigação automatizada, energia para comunidades isoladas, softwares para agricultura familiar, simuladores médicos, preservação digital do patrimônio e automação da piscicultura. O conjunto comprova que diferentes áreas do conhecimento podem produzir respostas aplicadas aos desafios do Maranhão. 

Essa inovação também se descentraliza. As iniciativas emergem de diferentes campi e municípios, refletindo necessidades, vocações e potencialidades territoriais. Jovens que antes precisavam deixar suas cidades em busca de oportunidades começam a perceber que podem criá-las onde vivem. Professores passam a enxergar salas de aula, laboratórios e grupos de pesquisa como pontos de partida para transformações econômicas e sociais. 

Boas ideias, entretanto, não se transformam sozinhas em negócios sustentáveis. Entre uma pesquisa promissora e uma solução viável existe um percurso de testes, validações, protótipos e ajustes. As iniciativas científicas de maior complexidade, especialmente as deep techs, enfrentam o conhecido “vale da morte”: a fase em que necessitam de recursos e tempo para amadurecer, mas ainda apresentam riscos elevados e prazos longos para o investimento privado tradicional. 

É nesse ponto que o arranjo construído no Maranhão se mostra estratégico. Com recursos próprios, a UEMA instituiu bolsas para integrantes das equipes incubadas, permitindo que estudantes e pesquisadores se dediquem ao desenvolvimento das soluções, à prototipagem, à validação de mercado e à formação empreendedora. O orçamento universitário passa a financiar não apenas estruturas, mas talentos, ideias e novas capacidades para o estado. 

A FAPEMA complementa esse esforço com auxílio financeiro destinado a insumos, equipamentos, reagentes, testes laboratoriais e outras etapas indispensáveis. Trata-se de capital paciente: investimento que aceita prazos mais longos, incerteza elevada e maturação gradual. Seu papel é reduzir o risco inicial da inovação quando bancos, fundos e investidores ainda não estão dispostos a fazê-lo. 

Essa agenda é estratégica porque atua onde o mercado não consegue agir sozinho. Em vez de esperar que empresas inovadoras apareçam prontas, o Estado cria condições para que nasçam a partir de conhecimentos desenvolvidos localmente. Ao fazer isso, investe na diversificação econômica, na retenção de talentos, na geração de empregos qualificados e na capacidade de produzir soluções próprias.

Dinheiro isolado, porém, não gera negócios sustentáveis. O Sebrae Maranhão completa o arranjo com mentorias, consultorias e atendimento especializado em modelagem de negócios, validação de mercado, gestão e conexão com clientes e parceiros. O recurso financeiro vem acompanhado de conhecimento, método e acesso a redes. É o que o universo dos investimentos denomina smart money: capital associado a competências que ampliam as possibilidades de sucesso. 

Neste ecossistema cooperado, a UEMA e a FAPEMA mitigam o risco tecnológico inicial, enquanto o Sebrae conecta as equipes diretamente ao mercado. Sob a governança do comitê gestor — que engloba ainda a SECTI, a Investe Maranhão e o Banco do Nordeste —, o conhecimento científico é alinhado a linhas de crédito, políticas públicas, atração de investimentos e desenvolvimento regional. É uma cooperação efetiva, na qual cada organização oferece aquilo que sabe fazer melhor. 

A resposta da comunidade universitária confirma que o investimento encontrou terreno fértil. Estudantes, professores e servidores demonstram entusiasmo para aprender a linguagem dos problemas, dos usuários, dos protótipos e dos resultados. A questão já não é somente como produzir conhecimento, mas como fazê-lo chegar à vida das pessoas.

Alguns projetos poderão ser reformulados, mudar de mercado ou não ultrapassar a fase de validação. Ainda assim, todos produzirão aprendizado. Mesmo quem não constituir uma startup levará competências empreendedoras para empresas, governos, escolas, organizações sociais ou futuras iniciativas. O impacto dessa política vai além do número de CNPJs: amplia o capital humano e a capacidade inovadora do Maranhão.

Ao assegurar recursos à UEMA, fortalecer a FAPEMA e articular essas instituições, o Governo do Estado demonstra ter compreendido que inovação não é despesa acessória nem agenda passageira. É estratégia de desenvolvimento, autonomia científica e soberania econômica.

Naquela cerimônia, não começou apenas mais um ciclo de incubação. Iniciou-se a formação de uma geração que já não espera passivamente por soluções vindas de fora, mas reconhece sua capacidade de criar, empreender e entregar valor à sociedade. 

Quando o Estado investe em quem pesquisa, inventa e resolve problemas, não financia apenas projetos. Constrói futuro. E os resultados que começam a emergir oferecem ao Maranhão razões concretas para confiar na direção escolhida.


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