Entrevista

Tiago Fernandes: "o maior desafio da saúde é fazer a rede funcionar de forma integrada"

Ex-secretário de Estado da Saúde, Tiago Fernandes é entrevistado pelo Imirante; ele fala sobre desafios na saúde pública do Maranhão.

Ipoítica

Atualizada em 06/07/2026 às 08h20
Tiago Fernandes é ex-secretário de Saúde do Maranhão (Divulgação)

SÃO LUÍS - Após quatro anos à frente da Secretaria de Estado da Saúde do Maranhão, o ex-secretário Tiago Fernandes faz ao Imirante um balanço da gestão, avalia de forma técnica os principais desafios do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado e defende que a próxima etapa da política pública passa pela consolidação de avanços alcançados na estrutura do setor. Entre os temas abordados estão a redução das filas por cirurgias, a ampliação da alta complexidade, a interiorização dos serviços especializados, o fortalecimento da atenção básica e a necessidade de ampliar a integração entre Estado e municípios.

Na entrevista a seguir, ele também analisa o financiamento da saúde pública, comenta a carência de especialistas em áreas como reumatologia e hematologia e sustenta que o fortalecimento da rede estadual depende não apenas de novos investimentos, mas de planejamento, gestão e maior equilíbrio na distribuição dos recursos do SUS. 

Abaixo, a íntegra da entrevista.

Você foi secretário de Estado nos últimos 4 anos no Maranhão. Na condição de gestor, portanto, consegue analisar de forma técnica o setor de saúde. Diante disso, quais são os principais desafios da saúde estadual no atual cenário?

Tiago Fernandes - O principal desafio é fazer a rede funcionar de forma cada vez mais integrada e equilibrada.

Saúde pública não se resolve com uma unidade isolada, nem com uma decisão só. O SUS depende da atenção básica, dos municípios, da média e alta complexidade, da regulação, do financiamento e de profissionais qualificados. 

No Maranhão, ainda temos desafios importantes: reduzir filas, ampliar acesso a especialistas, fortalecer a atenção primária nos municípios, interiorizar serviços e diminuir a dependência de São Luís para procedimentos mais complexos. 

Mas é importante dizer: a saúde do Maranhão avançou muito nos últimos anos. O desafio agora é consolidar esses avanços e fazer com que eles cheguem cada vez mais perto da população. 

Cirurgias, hemodiálises e transplantes

Que principais avanços você enxerga na rede de saúde? 

Tiago Fernandes - Eu enxergo avanços muito concretos. A rede estadual ampliou atendimentos, cirurgias, hemodiálise, transplantes, telemedicina, programas de prevenção, políticas públicas como o Cuidar dos Olhos, que chegou a todos os 217 municípios, democratizando o acesso à saúde oftalmológica. 

Na nossa gestão, tivemos crescimento expressivo nos atendimentos dos hospitais regionais, aumento das cirurgias, expansão da hemodiálise para todas as regiões de saúde e fortalecimento de programas como o Cuidar de Todos, que levou equipamentos e apoio para a atenção básica dos municípios. 

Também avançamos em áreas que antes pareciam distantes da realidade do Maranhão, como transplantes, tratamento de AVC, cardiologia de alta complexidade e implante coclear. Isso mostra que o Estado pode, sim, oferecer saúde pública de qualidade quando há planejamento, equipe e compromisso.

Alta complexidade 

Qual sua avaliação sobre a alta complexidade? É suficiente ou é preciso construir novos hospitais? 

Tiago Fernandes - A alta complexidade avançou muito, mas ainda precisa crescer. O Maranhão é um estado grande, com municípios distantes, e por muito tempo a população precisou vir para São Luís para resolver quase tudo. 

Por isso, o caminho não é apenas construir hospitais. É construir uma rede inteligente. Às vezes, mais importante do que abrir uma nova estrutura é garantir que a estrutura existente funcione com equipe, equipamento, custeio, regulação e perfil assistencial adequado. 

Nós avançamos, por exemplo, ao fortalecer hospitais regionais e implantar serviços de maior complexidade no interior, como em Imperatriz, com a inauguração do Hospital da Região Tocantina, que agora é referência para o atendimento cardiovascular adulto e pediátrico na região. Isso muda a vida de quem antes precisava viajar horas ou dias para conseguir atendimento. 

Então, sim, é preciso investir. Mas investir com planejamento. 

Como reduzir gradativamente as filas de espera por cirurgia? 

Tiago Fernandes - Antes de tudo, é importante lembrar que a pandemia causou um impacto enorme nos sistemas de saúde no Brasil e no mundo. Nesse período, milhões de cirurgias eletivas precisaram ser adiadas para priorizar o atendimento aos pacientes com Covid-19. Isso gerou um represamento histórico da demanda, cujos efeitos ainda são sentidos. 

Reduzir essas filas exige uma combinação de planejamento, investimento e gestão. O primeiro passo é manter uma fila organizada, transparente e regulada. Depois, ampliar a capacidade cirúrgica da rede, garantir equipes completas, salas operatórias funcionando, insumos, anestesistas e leitos para recuperação dos pacientes. 

Também é fundamental fortalecer toda a linha de cuidado. A cirurgia não começa no centro cirúrgico; ela começa na consulta, passa pelos exames, pela avaliação especializada e pela regulação. Quando essas etapas funcionam de forma integrada, o paciente chega mais rápido ao procedimento. 

No Maranhão, enfrentamos esse desafio ampliando a produção cirúrgica da rede estadual, fortalecendo hospitais regionais e realizando mutirões em áreas estratégicas. O resultado foi um aumento significativo no número de cirurgias realizadas e uma redução gradual do passivo deixado pela pandemia. 

É um trabalho contínuo. Não existe solução imediata para um problema que levou anos para se formar, mas existe gestão capaz de enfrentar esse desafio com responsabilidade e resultados. 

Parceria institucional com municípios

É possível ampliar a parceria com os municípios? De que forma? 

Tiago Fernandes - Não apenas é possível, como é necessário. O SUS só funciona bem quando Estado e municípios trabalham juntos. A atenção básica é responsabilidade dos municípios, mas o Estado pode e deve apoiar com equipamento, formação, tecnologia, incentivo e organização regional. 

Foi essa a lógica do Cuidar de Todos: fortalecer as UBS, apoiar equipes de saúde da família, entregar equipamentos, tablets, uniformes, qualificação e estimular o alcance de melhores indicadores. 

Quando a atenção básica funciona, o paciente é acompanhado antes de adoecer gravemente. Isso reduz internações, diminui pressão sobre UPAs e hospitais e melhora a vida das pessoas. 

Parceria com município não pode ser disputa política. Tem que ser compromisso com quem precisa do SUS. 

Há carência de especialidades como reumatologia e hematologia. O que fazer a curto e médio prazo? 

Tiago Fernandes - Esse é um desafio real no Brasil inteiro, especialmente em estados com grande extensão territorial. A curto prazo, é preciso organizar a oferta existente, ampliar teleconsultas, fazer mutirões especializados e contratar serviços quando necessário para reduzir gargalos. 

A médio prazo, o caminho é formar, atrair e fixar especialistas. Isso passa por residência médica, incentivo para atuação no interior, parcerias com universidades, hospitais de ensino e uso da telemedicina como ferramenta de apoio. 

Também é importante organizar linhas de cuidado. O paciente não pode ficar perdido entre uma consulta, um exame e um retorno. A rede precisa conduzir esse paciente até o diagnóstico e o tratamento. 

Os repasses federais do SUS são suficientes? 

Tiago Fernandes - O SUS é uma das maiores políticas públicas do mundo, mas continua sendo subfinanciado. Os recursos federais são essenciais, porém estão longe de cobrir todas as necessidades da rede estadual. 

Aqui no Maranhão, dependendo do ano, entre 20% e 30% dos recursos aplicados na saúde têm origem nos repasses do Governo Federal. Isso significa que cerca de 70% a 80% do financiamento da saúde estadual é feito com recursos do próprio Estado, que complementa o orçamento para manter hospitais funcionando, pagar profissionais, adquirir medicamentos, ampliar serviços e realizar investimentos. 

É uma realidade diferente da vivida por São Luís, por exemplo, que chega a financiar sua saúde com até 70% de recursos federais, justamente porque a lógica de financiamento do SUS é diferente para Estados e Municípios. 

Por isso, quando falamos em fortalecer a saúde pública, precisamos discutir também o financiamento. Não basta cobrar mais serviços; é preciso garantir que existam recursos compatíveis com a responsabilidade assumida por cada ente federativo. 

Mesmo diante desse cenário, o Maranhão conseguiu ampliar a rede, aumentar o número de cirurgias, expandir a hemodiálise, fortalecer os hospitais regionais e levar novos serviços para o interior. Isso demonstra que boa gestão faz diferença, mas também reforça a necessidade de um financiamento federal mais equilibrado para que os Estados possam continuar ampliando o acesso da população ao SUS.

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