COLUNA
Felipe Fernandes
Felipe Fernandes é engenheiro pela USP, pós-graduado pela FGV, CEO da RendMais Investimentos e presidente do Grupo Fernandes Ribeiro.
Felipe Fernandes

E essa tal de Inteligência Artificial?

Talvez nunca tenhamos confiado tanto em uma ferramenta sem antes entender exatamente o que ela é

Felipe Fernandes

O maior risco da inteligência artificial não é ela ficar inteligente demais. É nós atribuirmos a ela uma inteligência que ela não possui.

Tem gente usando inteligência artificial para escrever e-mails. Outros para resumir livros. Há quem peça ajuda para montar uma estratégia de negócios. E há quem faça perguntas sobre casamento, religião, escolhas de vida e até sobre o sentido da própria existência.

Talvez nunca tenhamos confiado tanto em uma ferramenta sem antes entender exatamente o que ela é.

Vale começar desfazendo um engano. A inteligência artificial não surgiu agora. O conceito existe desde os anos 1950 e há décadas faz parte da nossa rotina, ainda que de forma invisível. O corretor do celular, as recomendações dos aplicativos e os filtros de spam já utilizavam inteligência artificial muito antes de ela se tornar assunto do momento. O que mudou recentemente não foi a tecnologia. Foi o acesso. Pela primeira vez, qualquer pessoa passou a conversar com ela como conversa com outro ser humano.

E talvez seja justamente aí que esteja o maior equívoco.

A melhor forma que encontrei para explicar a inteligência artificial é imaginar um bibliotecário que leu praticamente tudo o que a humanidade já escreveu. Livros, artigos, pesquisas, registros históricos e milhões de páginas da internet. Ele lembra de tudo e consegue encontrar, relacionar e combinar essas informações em poucos segundos. É um bibliotecário extraordinário.

Mas continua sendo um bibliotecário.

E essa diferença muda tudo.

Ele não criou o conhecimento que apresenta. Apenas sabe onde ele está e consegue organizá-lo como ninguém.

Conhecimento não é julgamento.

Essa talvez seja a diferença mais importante entre um ser humano e uma inteligência artificial.

Se eu pedir que compare Aristóteles e Platão, ele fará isso com maestria. Mas, se eu perguntar qual dos dois é melhor, precisará que eu diga segundo qual critério. Melhor para quê? Para ética? Para política? Para educação? Para felicidade?

O critério não pertence à máquina.

Pertence ao ser humano.

É justamente por isso que me preocupa ver pessoas perguntando à inteligência artificial coisas que nunca deveriam ser terceirizadas. Há quem peça conselhos sobre casamento, religião, escolhas de vida e até sobre o sentido da própria existência, como se estivesse diante de uma consciência capaz de compreender o sofrimento humano.

Ela responde.

Mas não assume a responsabilidade pela resposta.

Essa responsabilidade continua sendo exclusivamente nossa.

Isso também explica por que tantas empresas ainda se frustram com a inteligência artificial. O relatório The State of AI in 2025, da McKinsey, mostra que a maioria das organizações já utiliza essa tecnologia de alguma forma, mas poucas conseguem transformá-la em resultados concretos. E a conclusão é reveladora: cerca de setenta por cento do sucesso depende de pessoas, processos e cultura. Apenas uma pequena parte depende da tecnologia em si.

A inteligência artificial não cria competência. Ela amplia a competência que já existe. Nas mãos certas, multiplica resultados. Nas mãos erradas, apenas acelera erros.

Uso inteligência artificial praticamente todos os dias. Ela acelera minhas pesquisas, organiza informações e me poupa horas de trabalho. Os dados da McKinsey citados neste artigo, por exemplo, encontrei com a ajuda dela.

Mas é justamente aí que começa a parte que não pode ser terceirizada.

Uso essas informações para confrontar aquilo que observo na prática. Se os dados confirmam aquilo que observo, ganho confiança. Se os dados contradizem a minha experiência, ganho um motivo para investigar melhor. Confiro as fontes. Questiono os argumentos. Rejeito conclusões que não fazem sentido.

A inteligência artificial não decide por mim.

Ela me devolve tempo para decidir melhor.

Talvez seja essa a maior mudança que essa tecnologia traga para o mundo. Ela não diminui a importância do pensamento humano. Faz exatamente o contrário. Quanto mais poderosa a ferramenta se torna, mais importante passa a ser a qualidade das perguntas, do senso crítico e do julgamento de quem a utiliza.

A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária. Talvez a mais poderosa já criada.

Mas ferramentas não substituem discernimento.

Um bisturi nunca fez um cirurgião.

Um piano nunca fez um pianista.

E um bibliotecário, por mais conhecimento que acumule, nunca decidirá qual livro você deve seguir.

Essa escolha continua sendo profundamente humana.


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