COLUNA
Curtas e Grossas
José Ewerton Neto é poeta, escritor e membro da Academia Maranhense de letras.
Coluna Curtas e Grossas

NINGUÉM LEMBRA DO BOI

“Em época de boi ninguém se lembra do boi.”

José Ewerton Neto

Atualizada em 26/06/2026 às 15h39
Coluna Curtas e Grossas.

Em época de boi ninguém se lembra do boi. 

Sim, do boi. Será que alguém já concedeu dois minutos de sua vida para refletir sobre o que é um boi? Claro, todo mundo sabe que é um animal cuja carne a gente come e que tem chifres. Mas será que alguém já parou para olhar direito para um boi?

Se teve paciência para isso, descobriu, com toda certeza, que a paciência do outro lado é muito maior. Porque senão este jamais ficaria olhando para outro bicho mais feio do que ele (o homem), sem pestanejar, por horas e horas. Como também, em outras ocasiões, prestes a entrar num açougue, para ser guilhotinado, jamais ficaria com aquela pose de professor de ioga, como se estivesse filosofando ou refletindo sobre a vida. Uma coisa parece certa: todo boi é um símbolo da paciência. 

Se todo boi é sinônimo de paciência começamos a entender porque num mundo tão bovino (como o nosso) um boi não tenha lugar, a não ser nos jantares dos abastados, na forma triturada de bife ou picanha. E, também, porque o ser humano, de natureza tão impaciente, tenha tão pouca paciência com a paciência do boi a ponto de inventar o touro. 

Isso mesmo. O touro é uma das piores invenções humanas e se nem Freud explica eu tento explicar: 

Provavelmente frustrado por não conceber que um animal tido como inferior possa ser tão calmo, filosófico, melancólico, estoico e forte o homem (que passa horas em uma academia de ginástica tentando ser uma montanha de músculos e o mais que consegue é ser uma réplica desastrosa de Sylvester Stallone) inventou o touro por inveja e vingança, para maltratar e se divertir. 

E haja touradas na Espanha e suas tristes imitações pelo interior paulista! Nestes festejos, chamados de rodeios, o divertimento é lançar pobres bois magros pelo chão para que uma multidão de paspalhos se sintam como anacrônicos heróis do faroeste norte-americano. O que não alcança, porém, o sadismo das touradas espanholas de onde foram originadas. Lá coloca-se um boi de natureza mansa e se tenta fantasia-lo de sanguinário espicaçando sua bondade e paciência até que o mesmo perca o controle. Ao invés de mata-lo rapidamente (como fazem os profissionais) o divertimento está em sacrificar o pobre animal lentamente. A fantástica paciência do boi é tanta que até se presta para isso: perdido em sua fantasia volta-se contra um pano vermelho e tomba ferido logo após, para satisfazer a crueldade da turba que grita “olé”. 

Por isso, cada vez mais deve ser louvada a tradição maranhense de exaltar o boi. Aqui, ao invés de rodeios e touradas a festa é do boi. O homem fica em baixo do boi e não o contrário. A lamentar-se apenas a deterioração progressiva dos cantos e tradições em favor da invasão de cantores que nada têm a ver com a festa do boi. Certo, o boi tem muita paciência, mas não precisava fazê-lo escutar Anittas e Safadões. O boi pede calma. 

Dito isso, continuemos a valorizar o boi, a sua paciência, a sua sábia e eterna paciência. E jamais esquecer que, em matéria de sabedoria, a deles está muito acima da nossa. Até mesmo nos chifres. Pois com certeza é muito melhor carrega-los de nascença do que adquiri-los depois. Como a maioria dos homens. 


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