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Lorena Saboya

As janelas das Anas

Duas mulheres que experimentaram a dualidade entre o ponto de partida e o alcance da compreensão, entre o lugar do corpo e o sonho da alma divididos por uma janela que conecta o dentro e o fora.

Lorena Saboya

O mar, a paisagem, as cores e a terra, quando vistos de uma janela, refletem os limites que o objeto impõe. A janela restringe a visão do céu e do chão. Faz-nos lembrar, também, dos alcances do órgão ocular e da própria condição humana.

Por outro lado, a janela indica abertura, entrada da claridade e do ar, luz no fim do túnel, oportunidades ou novas perspectivas.

Recentemente, mais precisamente em abril de 2026, foi realizado em São Luís, o 21º Congresso da Advocacia Ambiental. O congresso teve como imagem oficial uma foto de uma janela tirada pelo advogado e partícipe do evento, Flavio Moura Fé.

No momento da abertura, ao referir-se à arte do evento, o advogado, procurador do Estado, poeta e secretário-geral da OAB/MA, Daniel Blume, fez uma bela comparação da foto do advogado ao quadro “Figura na Janela”, de Salvador Dalí. Por se tratar de um evento consolidado que ocorre há mais de 2 décadas em São Luís, o poeta fez uma reflexão profunda sobre o papel do seminário na consolidação do direito ambiental, comparando a menina da janela, de Salvador Dalí, com o público presente no evento e as gerações atuais que olham com preocupação o futuro da humanidade.

De certo, aquela janela ficou diferente. Não era apenas uma fotografia. O olhar do poeta, somado à realização do evento sobre meio ambiente e à essência das discussões ali travadas, sensibilizaram minha visão sobre a janela.

Ao descobrir o local da foto, tirada pelo ilustre advogado piauiense, especialista na matéria ambiental, tudo começou a fazer mais sentido. Aquela janela pertencia à casa da Ana Jansen, figura de grande importância histórica. A presença feminina se agigantou.

A janela de Ana Jansen permitia a visão de um exuberante cenário da ilha de São Luís, o mar da Baía de São Marcos. Talvez uma paisagem muito parecida com a de Ana Maria, irmã de Salvador Dalí, o mar da Catalunha, como muito bem lembrado pelo poeta no discurso de abertura do evento.

Em ambas (foto e obra), a vista é da janela para o mar. O mar que acalma, limpa e silencia os pensamentos, que guarda segredos, histórias e resistência. O mar ancestral, que permanece testemunha do tempo, do tempo das Anas.

Duas mulheres que experimentaram a dualidade entre o ponto de partida e o alcance da compreensão, entre o lugar do corpo e o sonho da alma divididos por uma janela que conecta o dentro e o fora.

Em uma janela, a força que movimentou a história. Na outra, a inspiração que virou contemplação. As janelas de quem observa e de quem é observada. A esperança.

Os artistas Flavio Moura Fé e Daniel Blume, talvez, inspirados em Salvador Dalí, observaram o raro: o pedido silencioso da alma feminina para que o mundo reaprendesse a olhar a beleza em sua volta. Porque nem sempre o mais bonito está além da janela.


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