Além dos Algoritmos: O poder das tecnologias sociais e da economia criativa
A engrenagem do progresso regional é uma moeda de valor indissociável
Quem percorreu os corredores do NEON 2026, o maior ecossistema de inovação e startups do Nordeste, deparou-se com uma métrica reveladora: das sete arenas de palestras, quatro — mais da metade do coração intelectual do encontro — estavam dedicadas a temas que iam muito além dos algoritmos frios ou dos servidores de dados. As arenas Criatividade, Perifa, Inovação Territorial e Economia Criativa dividiram e, em muitos momentos, assumiram o protagonismo das discussões, rivalizando em público com os painéis sobre inteligência artificial generativa e os aportes de capital de risco.
Acompanhei de perto essa efervescência graças ao Sebrae Maranhão, que viabilizou minha participação ativa no evento. O NEON, que hoje se consolida como uma das agendas mais estratégicas do calendário do Sebrae Nacional, reflete regionalmente o espírito de iniciativas locais de grande impacto, como o Mobiliza SLZ. Idealizado pelo Sebrae em nossa capital, o Mobiliza transcendeu a ideia de um evento temporário para se transformar em um movimento contínuo de articulação, conectando turismo, cultura e negócios em territórios criativos como o Centro Histórico, a Liberdade e o Itaqui-Bacanga. Esses dois palcos deixam uma lição incontornável para o desenvolvimento regional: a inovação no Nordeste não pode ser uma reprodução mecânica e tardia de modelos estrangeiros como o do Vale do Silício. Nossa identidade inovadora reside na capacidade de conectar o conhecimento científico à ancestralidade cultural, à inclusão socioprodutiva e à governança do território.
Essa constatação é importante porque, durante décadas, a inovação foi tratada quase exclusivamente como um fenômeno tecnológico, associada a laboratórios sofisticados, inteligência artificial ou biotecnologia. Tudo isso continua sendo fundamental. Contudo, a experiência de regiões bem-sucedidas demonstra que o desenvolvimento sustentável depende também da capacidade de transformar cultura, identidade, criatividade e conhecimento local em ativos econômicos.
A economia criativa já movimenta trilhões de dólares no mundo e cresce acima da média de diversos setores tradicionais. Seu principal insumo não é minério ou petróleo, mas o conhecimento humano, a criatividade e a capacidade de transformar símbolos, histórias, experiências e identidades em valor econômico real.
Essa virada de chave programática nos obriga a expandir o entendimento sobre o papel do ensino superior. Se a academia tem o dever de gerar patentes complexas e apoiar as chamadas deep techs (startups que nascem de pesquisas científicas profundas) em seus laboratórios, ela possui uma obrigação igualmente nobre e estratégica: desenvolver Tecnologias Sociais e impulsionar a economia criativa junto às comunidades tradicionais. A nova missão da universidade não se resume à tecnologia "dura"; ela se realiza, com o mesmo rigor científico, quando aplicamos o método sistemático para agregar valor ao que nossos territórios possuem de mais autêntico.
É aqui que a Terceira Missão da Universidade ganha significado prático. Mais do que ensinar e pesquisar, a universidade contemporânea deve atuar como agente de transformação territorial. Isso significa transferir conhecimento para a sociedade, gerar inovação, fortalecer cadeias produtivas locais e ampliar oportunidades. Essa missão não se limita a empresas tecnológicas de ponta; ela também acontece quando a academia ajuda uma comunidade tradicional a transformar seu conhecimento ancestral em renda, reconhecimento e autonomia.
É preciso alargar o significado do termo "tecnologia". A Tecnologia Social — conceito chancelado e debatido nos painéis da Arena Perifa — compreende todo produto, método ou técnica transformadora, desenvolvido em estreita simbiose com a comunidade, que represente uma solução efetiva para resolver problemas sociais e gerar renda de forma sustentável. O NEON vem deixando evidente que as comunidades tradicionais e as periferias não são apenas consumidoras de soluções digitais, mas produtoras de uma inovação refinada que nasce justamente sob as condições da escassez.
Quando os pesquisadores cruzam os muros acadêmicos e vão ao encontro das quebradeiras de coco de babaçu, dos artesãos da fibra de buriti, dos produtores tradicionais de tiquira ou das comunidades quilombolas e ribeirinhas, não se deve assumir uma postura pedagógica vertical ou assistencialista; vai-se, sim, com o propósito claro de cocriar soluções inovadoras. O papel da universidade nesse novo arranjo produtivo, tema central das arenas de Inovação Territorial e Economia Criativa, é atuar como um catalisador de valor para os ativos invisíveis da nossa região. As comunidades tradicionais já detêm o saber ancestral transmitido por gerações, o domínio da matéria-prima e a verdade de suas narrativas — ativos raros e cada vez mais valorizados numa economia global orientada pela busca de autenticidade e pela experiência.
A academia entra nessa engrenagem como a ponte metodológica necessária para a profissionalização e o ganho de escala. Isso se traduz na aplicação do design estratégico para a criação de marcas que contem histórias; no aprimoramento de processos biotecnológicos simples e seguros para a agroindústria familiar; na estruturação técnica da governança de Indicações Geográficas, Marcas Coletivas e Arranjos Produtivos Locais (APLs); e na preparação dessas redes comunitárias para o comércio eletrônico direto, utilizando plataformas digitais para alcançar mercados nacionais e internacionais sem depender de intermediários.
Mais do que isso, a universidade pode ajudar a converter o conhecimento tradicional em ativos protegidos de propriedade intelectual. Embora muitas vezes associemos a propriedade intelectual apenas às patentes industriais, ela também se manifesta por meio das indicações geográficas, das marcas coletivas e dos direitos autorais capazes de proteger e valorizar a herança cultural das comunidades.
A Arena Criatividade e a Arena Economia Criativa demonstraram como esses ativos podem ser convertidos em produtos de exportação digital de alto valor agregado. O desenvolvimento de jogos digitais com narrativas locais, a produção audiovisual independente do Nordeste, a música, a dança, o turismo de experiência e a digitalização do artesanato tradicional provam que o conhecimento aplicado à cultura gera riqueza limpa e distribuição de renda na base da pirâmide.
Ao organizar, validar e dar escala a essas soluções baseadas na identidade territorial, a universidade cumpre a sua função econômica mais sofisticada. Além disso, a gestão da propriedade intelectual assume aqui o papel de um verdadeiro escudo social, blindando os saberes tradicionais contra a biopirataria e o plágio cultural, assegurando que os retornos da inovação voltem para o território e para as pessoas que os geraram.
Os debates na Arena Inovação Territorial consolidaram a certeza de que a governança do desenvolvimento regional não se faz de cima para baixo. Ela exige a articulação entre universidades, empresas, governos e a própria sociedade civil — a engrenagem que os especialistas chamam de modelos de Hélices da Inovação. O desenvolvimento emerge da capacidade de conectar esses diferentes atores em torno de uma visão compartilhada de futuro. A inovação territorial é o mecanismo que fixa o talento no interior, combate o esvaziamento das comunidades rurais e transforma a biodiversidade local em um ativo econômico viável perante os desafios das mudanças climáticas.
Circular pelas arenas do NEON 2026 e testemunhar a força dos negócios baseados no impacto social, na criatividade e na identidade territorial nos dá uma certeza matemática e política: o desenvolvimento sustentável do Nordeste depende da nossa habilidade coletiva de equilibrar as forças do ecossistema.
A engrenagem do progresso regional é uma moeda de valor indissociável. De um lado, ela opera na fronteira tecnológica e industrial da transição energética, do Hidrogênio Verde, da inteligência artificial e das soluções avançadas para a indústria de grande porte. Do outro, com o mesmo peso e relevância, atua na sofisticação das tecnologias sociais que preservam o bioma, emancipam comunidades tradicionais, fortalecem a economia criativa e distribuem dignidade.
Inovar, afinal, nunca foi apenas sobre criar patentes para acumular poeira em arquivos de laboratório. Inovar é dar utilidade, significado e destino social ao conhecimento humano. E o maior indicador de sucesso de uma ciência com consequência continuará sendo a transformação real da vida das pessoas e dos territórios onde elas vivem.
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