COLUNA
Geraldo Carvalho
Economista, MBA pela USP e mestre em gestão de empresas
Geraldo Carvalho

A China busca autossuficiência alimentar, um alerta ao nosso agronegócio

O agronegócio brasileiro pode enfrentar um choque estrutural sem precedentes

Geraldo Carvalho

O agronegócio brasileiro é o setor mais dinâmico e produtivo da economia nacional, fomos de 80 milhões de toneladas de grãos no começo dos anos 90 para 350 milhões em 2025, com aumento de bem menor na área plantada, maior parte dessa expansão ocorreu por biotecnologia, maquinário moderno, técnicas de plantio direto e a consolidação de até três safras no mesmo ano agrícola (como a rotação de soja com o milho safrinha), em resumo produtividade.  

O sucesso chinês coincidiu com nossa eficiência no agronegócio, pois ao abandonar o comunismo famélico Maoísta e abraçar o mercado e o lucro como gerador de riqueza, a China tirou quase 1 bilhão de pessoas da pobreza. E uma das primeiras coisas que as pessoas fazem ao elevar sua renda, é melhorar a alimentação. A soja brasileira é basicamente (80%) transformada em carne suína e frango. Uma vez um famoso economista brasileiro disse que o frango é a soja e milho com penas! 

No final de 2025 a China lançou o 15º Plano Quinquenal, e um dos temas que pode afetar a economia brasileira é a dependência das exportações de produtos agrícolas para o gigante asiático. 

O agronegócio brasileiro, historicamente consolidado como um dos principais pilares de estabilização macroeconômica e geração de superávit comercial para o Brasil, pode enfrentar um choque estrutural sem precedentes. A dinâmica de crescimento do setor fundamentou-se, nas últimas décadas, em uma intensa concentração de destino rumo ao mercado chinês. Atualmente, a China absorve 71% das exportações nacionais de soja e 54% dos embarques de carne bovina. Sob a perspectiva de Pequim, o Brasil responde por mais de 60% do suprimento externo de oleaginosas e aproximadamente 40% das importações de proteína bovina. 

Essa interdependência assimétrica, contudo, passou a ser classificada pelo governo chinês como um risco estratégico intolerável à sua segurança nacional. Como resposta, o recémpublicado 15º Plano Quinquenal da China (2026-2030) estabelece diretrizes macroeconômicas agressivas para a redução da dependência externa, promovendo uma reconfiguração global nas cadeias de suprimento de commodities. 

A projeção central do plano quinquenal estipula uma redução de 25% na demanda chinesa por importações de soja até 2030. Em termos absolutos, a redução equivale a um corte de 23,5 milhões de toneladas — o que representa quase um terço do volume total exportado pelo Brasil para a China no ano de 2024. 

A mudança estratégica de Pequim aplica ao setor agrícola o mesmo modelo de política industrial de subsídios e ganho de escala, que garantiu a liderança do país nos mercados de transição energética (painéis solares e veículos elétricos). No 15º Plano Quinquenal, a segurança alimentar foi elevada ao status de prioridade estratégica, equiparada à segurança energética e financeira. 

O objetivo fiscal é reverter um déficit comercial agrícola de US$ 124,5 bilhões (aproximadamente R$ 631,2 bilhões) sob a égide da doutrina de "Alimentação Expandida". (a China detém apenas 8% das terras aráveis globais para atender a 15% da população mundial), os formuladores de política econômica miram em uma "dependência segura", pautada pela diversificação de parceiros. 

Para reduzir os riscos dessa mudança, o governo chinês desenhou um modelo de incentivos econômicos específicos, que incluem financiamento via bancos públicos, absorção estatal dos custos de fracassos tecnológicos iniciais e estímulo ao investimento privado em escala antes mesmo da comprovação de viabilidade comercial, acelerando as curvas de aprendizado. 

O governo chinês tem alguns traumas do passado, ligadas à memória da Grande Fome (19591961), período em que falhas de planejamento econômico resultaram em uma das maiores crises de inanição do planeta. E da Revolução Cultura (1966 a 1976) quando o país foi virado de cabeça para baixo por Mao Tse Tung em busca de aumentar seu poder. Isso pressupõe uma mudança suave sem rupturas. 

O impacto da otimização nutricional já se reflete no ambiente corporativo privado: a Muyuan Foods, maior produtora de suínos do mundo, reduziu a inserção de soja em suas rações para 5,7% em 2023, gerando uma economia de 31 kg do grão por animal. A empresa abateu 29 milhões de porcos em 2025. 

A longo prazo (horizonte 2040-2050), a China planeja transicionar de maior importadora global para exportadora líquida de produtos de maior valor agregado (aves, laticínios, ovos) e projeta que a biomanufatura e proteínas alternativas (cultivadas e fermentadas) respondam por 35% a 55% da demanda doméstica de carne. 

Apesar do escopo robusto do plano, economistas e analistas de mercado divergem quanto à velocidade da transição. Setores da academia e núcleos de estudos globais ponderam que os sistemas agroalimentares são governados por variáveis biológicas, agronômicas e climáticas que impõem barreiras mais rígidas à inovação disruptiva quando comparados aos setores manufatureiros puramente industriais. Além disso, os limites severos de recursos hídricos e solos férteis na China atuam como restrições naturais ao crescimento da oferta doméstica. 

No curto prazo, contudo, a geopolítica do comércio dita assimetrias claras: o agronegócio brasileiro é tratado por Pequim como uma "garantia de subsistência real", enquanto o comércio agrícola com os Estados Unidos opera predominantemente como moeda de troca política. 

À medida que o plano da autossuficiência avançar, a China vai impor um maior poder de barganha regulatória. Espera-se que o país eleve as exigências não tarifárias e barreiras ambientais — demandando rastreabilidade completa e cadeias livres de desmatamento —, convergindo com os padrões restritivos vigentes na União Europeia. Diante da ausência de manifestações oficiais por parte das autoridades governamentais e das principais associações setoriais brasileiras, a recomendação macroeconômica prudencial permanece clara: a necessidade imediata de diversificação de mercados consumidores para reduzir o risco na balança comercial do Brasil. 

Por fim essa nova variável da possível redução das compras de grãos pela China, impõe ao agronegócio brasileiro um sinal amarelo, já dentro de um ambiente de preocupação com aumento de custos e redução das margens de lucro.  Que tenhamos sorte ! 


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