COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Ele Está no Meio de Nós

Porque acreditar que Cristo está no meio de nós é muito mais do que afirmar uma presença espiritual

Kécio Rabelo

Algumas palavras, de tão repetidas, correm o risco de perder a capacidade de nos interpelar. Talvez seja o caso daquela resposta, retirada dos Evangelhos, que os cristãos pronunciam há séculos durante a celebração da missa:

“Ele está no meio de nós.”

Mas estará mesmo?

A pergunta não é uma provocação contra a fé. É uma exigência da própria fé.

Porque acreditar que Cristo está no meio de nós é muito mais do que afirmar uma presença espiritual. É reconhecer que Deus escolheu permanecer no mundo por meio de um pão partido, de uma mesa compartilhada e de uma humanidade reconciliada.

A Eucaristia nasceu ao redor de uma mesa.

Não foi diante de um exército, nem dentro de um palácio. Não foi celebrada entre os poderosos de seu tempo.

Foi durante uma refeição.

Naquela noite, Jesus tomou o pão, deu graças, repartiu-o e disse: “Fazei isto em memória de mim.”

Mas, antes de repartir o pão, ajoelhou-se.

Lavou os pés dos discípulos.

O Senhor fez-se servo.

O Mestre escolheu a humildade.

Aquele que se ofereceu como alimento ensinou, primeiro, que ninguém pode sentar-se à mesa de Deus sem aprender a servir os irmãos.

Por isso, a Eucaristia nunca foi apenas um rito.

É um projeto de humanidade.

É, no cerne da sua essência, uma denúncia contra toda forma de exclusão.

É um protesto intransigente contra a fome, contra a indiferença e contra a desigualdade.

Toda mesa fala.

Há mesas onde o pão falta.

Mesas onde mães improvisam milagres diários para alimentar os filhos. Mesas onde o jantar é menor do que a necessidade. Mesas onde a preocupação ocupa mais espaço do que os pratos.

Há mesas onde sobra comida e falta sentido.

Onde existe fartura, mas não existe encontro. Onde há abundância de coisas e escassez de afeto. Onde as pessoas dividem o mesmo espaço, mas já não compartilham a vida.

Há mesas, ainda, onde ninguém é esperado.

Mesas cercadas por muros invisíveis, construídos pelo preconceito, pela indiferença ou pelo egoísmo.

E há uma pergunta que a celebração de Corpus Christi insiste em colocar diante de nós:

Como podemos celebrar o Pão da Vida enquanto milhões de pessoas ainda não têm o pão da sobrevivência?

Como podemos adorar Cristo presente na Eucaristia e ignorar Cristo presente na fome?

Como podemos proclamar “Ele está no meio de nós” se tantos continuam impedidos de ocupar um lugar à mesa da dignidade humana?

Talvez a grande tragédia do nosso tempo não seja apenas a existência da fome, mas a convivência entre a fome e a abundância.

Nunca houve tanta riqueza produzida pela humanidade. Nunca houve tanta tecnologia. Nunca houve tanta capacidade de gerar alimento.

E, ainda assim, multidões continuam privadas do essencial.

Isso não é apenas um problema econômico; é uma ferida moral. É um escândalo humano.

Uma grave contradição diante do Evangelho.

Porque toda vez que uma criança dorme com fome, alguma coisa está errada na mesa dos homens.

E toda vez que alguém é excluído, humilhado ou descartado, alguma cadeira permanece vazia na mesa de Deus.

Mas a Eucaristia também nos ensina esperança.

Ela acontece todos os dias, muitas vezes longe dos altares.

Acontece quando uma mãe divide o pouco que possui e faz caber mais um prato.

Quando um vizinho reparte o alimento com quem perdeu tudo.

Quando uma comunidade se organiza para que ninguém fique para trás.

Ali também existe um pão repartido. Existe presença.

E, portanto, algo profundamente eucarístico.

Corpus Christi é a festa do Céu que toca a Terra.

É a celebração do Deus que se fez alimento para que ninguém precise viver sozinho.

Mas será uma festa incompleta enquanto houver irmãos sem pão, sem dignidade e sem lugar à mesa.

Celebrar a Eucaristia exige mais do que ajoelhar-se diante do sacrário.

Exige levantar-se depois da oração.

Transformar adoração em compromisso e converter fé em fraternidade.

Porque o Cristo que recebemos na comunhão é o mesmo Cristo que nos espera nos que têm fome, nos que sofrem, nos esquecidos e nos descartados.

No fim, a verdade da Eucaristia não será medida apenas pelo número de procissões, tapetes ou celebrações.

Ela será medida pela nossa capacidade de construir um mundo onde ninguém seja estranho, onde ninguém seja invisível e onde ninguém seja privado do pão.

Somente então poderemos repetir, sem constrangimento e sem contradição, as palavras que atravessam os séculos:

“Ele está no meio de nós.”

E estará, sobretudo, onde houver pão repartido, mãos levantadas para o louvor e a adoração, e estendidas para socorrer e abraçar. Corações capazes de reconhecer no outro um irmão.


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