COLUNA
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão e pós-graduado em Direito. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

O que a convocação de Neymar revela sobre nós

Porque futebol, no Brasil, nunca foi apenas futebol.

Vítor Sardinha

O que a convocação de Neymar revela sobre nós. (Divulgação)

Quando anunciaram a convocação de Neymar Jr., o Brasil fez aquilo que costuma fazer quando o assunto é futebol: parou um pouco para comentar. Uns comemoraram como se fosse gol em final. Outros torceram o nariz, desconfiados. Mas quase ninguém ficou indiferente. O assunto apareceu no grupo da família, na fila do café, dentro do carro por aplicativo, na mesa do bar e até naquela conversa rápida entre desconhecidos. 

Porque futebol, no Brasil, nunca foi apenas futebol. 

É memória. É conversa atravessando gerações. É pai explicando lance antigo do “Penta” para o filho pequeno. É vizinho gritando gol antes da imagem chegar à televisão. É rua quase vazia em tarde de Copa. É gente que passa o mês inteiro apertada, mas encontra noventa minutos para esquecer o peso da vida. 

E Neymar, de um jeito torto e profundamente brasileiro, virou parte dessa história. 

Muita gente viu aquele menino surgir como quem vê um drible nascer no campinho de terra da infância. Havia alguma coisa de improviso nele, de alegria sem cálculo, depura magia — como os jogos de fim de tarde que terminavam quando a mãe chamava para dentro de casa. O tempo passou: vieram os contratos gigantes, as lesões, o excesso de exposição, as críticas, os exageros. O menino virou personagem. E talvez o país tenha endurecido junto com ele. 

Mesmo assim, bastou uma convocação para o nome dele voltar a circular feito música antiga em dia de saudade. E Neymar, gostem dele ou não, virou essa música que desperta nossa melhor memória afetiva quando pensamos em Copa do Mundo. 

Não porque o brasileiro tenha esquecido tudo. O brasileiro lembra. Lembra das quedas, das ausências, das frustrações. Lembra das lesões, do excesso de exposição, das críticas e da cobrança permanente. Mas existe uma coisa curiosa nesse pensamento coletivo: a enorme dificuldade de abandonar completamente aquilo que um dia já fez o país feliz. 

Talvez seja por isso que tanta gente tenha sentido alguma emoção ao vê-lo novamente ligado à Seleção. Não necessariamente confiança. Às vezes era só nostalgia. Às vezes era vontade de sentir de novo aquele encantamento raro que o futebol já deu ao país tantas vezes. 

Num Brasil cansado de notícia pesada, de violência cotidiana, de boleto vencendo e esperança encurtando, o futebol ainda consegue produzir pequenos respiros coletivos. Durante alguns minutos, desconhecidos voltam a falar a mesma língua. O homem do mercado comenta com o advogado. O motoboy debate escalação como médico. A aposentada pergunta se “o menino Neymar” ainda joga tudo aquilo mesmo. 

E talvez jogue. Talvez não. 

No fundo, nem é só isso que importa. O que emociona de verdade é perceber que o brasileiro ainda guarda espaço para acreditar em alguma beleza inesperada. Ainda se reúne diante de uma televisão como quem procura, no meio da correria da vida, uma razão simples para sorrir junto. 

Nas noites quentes do país, enquanto o ventilador gira cansado e a cidade desacelera aos poucos, muita gente provavelmente imaginou a próxima Copa. Imagino um drible improvável, um gol no fim do jogo, uma explosão coletiva atravessando ruas, apartamentos, bares e janelas abertas. 

Talvez seja por isso que o futebol ainda mexa tanto com a gente. Porque, no fundo, ele continua oferecendo ao brasileiro uma coisa rara hoje em dia: a chance de acreditar, nem que seja só durante noventa minutos.


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