COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

Da ciência ao mercado: quando a universidade ajuda a mover a economia

Durante muito tempo, prevaleceu a cultura de que universidades existem apenas para formar profissionais e produzir artigos científicos

Roberto Serra

Na última sexta-feira, a Universidade Estadual do Maranhão viveu um daqueles momentos que ajudam a explicar, na prática, para que serve uma universidade pública no século XXI. O encerramento do primeiro ciclo formativo da Incubadora UEMA não representou apenas a conclusão de uma jornada acadêmica ou institucional. Representou algo muito maior: a entrega à sociedade de 19 novos negócios de base científica e tecnológica, nascidos a partir do conhecimento produzido dentro da universidade e conectados diretamente às necessidades reais da população e do mercado.

Em um estado que ainda enfrenta desafios estruturais e que pode ampliar significativamente seu dinamismo econômico por meio de maior densidade tecnológica, celebrar o surgimento de novos empreendimentos inovadores não é um detalhe. É um acontecimento estratégico, cujo impacto talvez ainda não compreendamos plenamente no futuro econômico do Maranhão.

Durante muito tempo, prevaleceu a cultura de que universidades existem apenas para formar profissionais e produzir artigos científicos. Evidentemente, essas funções permanecem essenciais. Contudo, no mundo contemporâneo, universidades de maior relevância passaram também a assumir uma nova missão: transformar conhecimento em desenvolvimento, ciência em solução e pesquisa em inovação aplicada.

É exatamente nesse ponto que entram as incubadoras de empresas de base científica e tecnológica. Elas funcionam como ambientes estruturados de apoio ao empreendedorismo inovador, oferecendo mentorias, capacitações, conexões institucionais, suporte técnico e direcionamento estratégico para que ideias possam amadurecer e se transformar em negócios sustentáveis. Mais do que criar empresas, esses ambientes ajudam a formar uma nova cultura econômica baseada em conhecimento, tecnologia e inovação.

O Maranhão subirá nos rankings nacionais de inovação. Já começamos a assistir ao nascimento silencioso de uma nova dinâmica econômica no estado. Os 19 negócios graduados pela Incubadora UEMA revelam exatamente isso. São iniciativas desenvolvidas em áreas diversas, como inteligência artificial, bioeconomia, biotecnologia, educação, saúde, sustentabilidade, controle biológico, tecnologias sociais, realidade virtual, automação, agroinovação e soluções digitais. Cada uma delas carrega algo extremamente valioso: conhecimento aplicado à resolução de problemas concretos.

Quando uma startup desenvolve soluções para o agro, movimenta cadeias produtivas. Quando cria tecnologias educacionais, amplia oportunidades de aprendizagem. Quando trabalha com bioinsumos, biodiversidade ou sustentabilidade, agrega valor aos nossos ativos naturais. Quando utiliza inteligência artificial ou automação, ajuda empresas e organizações a se tornarem mais eficientes e competitivas.

Ou seja: inovação não é algo abstrato. Ela produz efeitos reais na economia. Negócios inovadores geram empregos qualificados, movimentam serviços, atraem investimentos, ampliam arrecadação, fortalecem cadeias produtivas locais e estimulam o surgimento de novos mercados. Além disso, possuem capacidade muito maior de crescimento escalável e de geração de valor agregado do que atividades econômicas tradicionais baseadas apenas em commodities ou em baixa intensidade tecnológica.

Nesse contexto, torna-se necessário reconhecer também o papel decisivo das parcerias institucionais construídas em torno da Incubadora UEMA. O esforço conjunto entre UEMA, FAPEMA e Sebrae Maranhão demonstra, na prática, como o desenvolvimento de um ecossistema de inovação depende da atuação articulada entre diferentes atores. Essa integração é fundamental porque inovação não nasce isoladamente. Ela exige ambientes colaborativos, governança, investimento, confiança institucional e visão de longo prazo. Exige compreender que ciência e tecnologia não devem permanecer restritas aos laboratórios ou às salas de aula, mas precisam alcançar a sociedade em forma de soluções concretas.

Ao longo dos últimos anos, as universidades vêm estruturando mecanismos voltados à transferência de tecnologia, proteção intelectual e estímulo ao empreendedorismo inovador. No Maranhão, começamos também a pavimentar esse movimento, que agora passa a gerar resultados mais visíveis para o ecossistema local. E foi justamente nesse contexto que o evento ganhou um simbolismo ainda maior com a inauguração da Galeria dos Precursores da Propriedade Intelectual do Maranhão. Mais do que uma homenagem, a iniciativa representou um reconhecimento histórico àqueles que ajudaram a construir, nas universidades maranhenses, a cultura da proteção intelectual, da inovação e da transferência de tecnologia.

A presença de pesquisadores vinculados à UEMA, UFMA e IFMA simboliza algo extremamente relevante: o ecossistema de inovação maranhense começou a ser construído muito antes de falarmos amplamente sobre startups, incubadoras ou empreendedorismo científico. Cada homenageado ajudou, em alguma medida, a abrir caminhos institucionais, acadêmicos e culturais para que hoje o Maranhão possa discutir propriedade intelectual, transferência de tecnologia e inovação aplicada de forma mais madura e estruturada.

Talvez poucas pessoas percebam isso, mas não existe inovação forte sem propriedade intelectual estruturada. Patentes, marcas, softwares, cultivares, desenhos industriais e transferências tecnológicas não são apenas instrumentos burocráticos. Representam mecanismos concretos de proteção do conhecimento e de geração de valor econômico a partir da ciência.

Sem essa base, boa parte das pesquisas produzidas nas universidades permanece restrita às publicações acadêmicas, sem alcançar plenamente a sociedade ou o setor produtivo. A criação dessa galeria, portanto, também ajuda a preservar a memória institucional da inovação maranhense. E memória importa. Ecossistemas maduros de inovação são construídos sobre referências, trajetórias, reconhecimento histórico e continuidade institucional.

Mais do que formar empresas, estamos ajudando a formar uma nova mentalidade. Uma mentalidade que compreende que desenvolvimento econômico sustentável não depende apenas de grandes obras ou incentivos fiscais. Depende também da capacidade de gerar inteligência, conhecimento, tecnologia e inovação localmente.

Talvez esse seja o ponto mais importante dessa celebração. Na prática, cada startup incubada representa uma pequena ruptura com a lógica histórica de dependência econômica do estado. Representa a possibilidade de transformar talento em riqueza local. Representa a ciência deixando de ser apenas publicação acadêmica para se tornar oportunidade concreta de transformação social e econômica.

O encerramento desse primeiro ciclo formativo da Incubadora UEMA talvez ainda não tenha atraído todos os olhares que merece dentro e fora da universidade. Mas acredito sinceramente que estamos diante do início de uma transformação profunda, capaz de redefinir o papel da universidade no desenvolvimento econômico e social do Maranhão.

Estamos assistindo ao surgimento de frutos. E quando ciência, inovação, empreendedorismo, propriedade intelectual e cooperação institucional se encontram, frutos podem se transformar em ecossistemas inteiros de desenvolvimento.


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