No reino da ilusão e de fatalidade infinitas
O infinito, na matemática, mal consegue disfarçar sua sina de impostor... Do livro Cidade Aritmética, de José Ewerton Neto.
1.FATALIDADE
O ser humano não suporta a realidade, dizia Henry James e a Ciência sabe disso. Os sonhos, por exemplo, são artifícios que o cérebro engendra, durante o sono, para rearranjar a realidade, aliviando a mente da pressão cotidiana para aguentar a pressão do dia seguinte. O que muita gente não atentou ainda é sobre como se prestam, também para isso, as palavras.
Um exemplo disso á a palavra Fatalidade que, no Brasil, é usada a torto e a direito, pelos responsáveis pelas tragédias para se omitirem de suas responsabilidades. Os autores dos crimes primeiro recorrem ao termo Fatalidade, e depois ao tempo para que suas participações sejam esquecidas. Assim foi o horror de Santa Maria (quem se lembra?), depois a chacina de crianças no Ninho do Urubu, depois as quedas de pontes, as enchentes — enfim, onde houver tragédia.
“São Fatalidades”, dirão governadores e presidentes da República, quando as vítimas abarrotarem os cemitérios por conta da indiferença das autoridades. Fatalidades! Acabarão por dizer as próprias vítimas, ou seja, o povo, obrigado a se conformar.
Assim, a palavra Fatalidade — coitada! — Presta-se sobremaneira para isso, (como, afinal, todas as palavras): para serem usurpadas ao sabor da capacidade humana (brasileira em especial) de escamotear a realidade.
2.INFINITO
Certo dia, conversava com uma amiga escritora quando ela se saiu com esta: “ Cheguei à conclusão de que o ser humano, eternamente incapaz de saber o que é; de onde veio, e para onde vai — e sendo incapaz de admitir isso — se socorre das palavras que inventa para solucionar suas dúvidas decorrentes de sua pequenez e insignificância diante do Universo. Um exemplo é a palavra Infinito.
Ora — continuou ela — alguém pode me explicar o que significa infinito? O que é a palavra infinito mais do que uma tentativa, vã, de conceber o inexplicável? ”
Tive de concordar com ela, ao mesmo tempo que lembrei de tantas palavras, irmãs da “fatalidade”, sem significado concreto, e que na maioria das vezes são usadas por conveniência: amor, eternidade, paixão, felicidade etc. Palavras que ninguém sabe traduzir exatamente o que significam, mas a quem se recorre cotidianamente por suas infinitas serventias ao gosto do freguês.
A palavra Infinito é outra. Confesso que ela sempre me perturbou desde que travei conhecimento com a Matemática e queria apreender o que havia por trás de uma fórmula que dizia que a unidade dividida por zero era igual a infinito. Para mim era impossível captar como se podia dividir algo por nada e o resultado dar infinito. Anos mais tarde, meio que filosoficamente, deduzi que aplicada ao ser humano essa fórmula era salvadora e um tanto poética, traduzindo, apoiada na lógica, a medida do homem.
Enfim, a vida do ser humano precisa ser considerada infinita (e deve assim ser avaliada e sentida) por seu destino cruel de acabar em nada.
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