COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

Tiquira: o patrimônio do Maranhão e a ciência da indicação geográfica

Em um mundo cada vez mais marcado pela padronização e pelos produtos genéricos, a Indicação Geográfica diferencia o comum do extraordinário.

Roberto Serra

A inovação nem sempre se manifesta em circuitos eletrônicos ou patentes de alta tecnologia; por vezes, ela reside na capacidade de proteger juridicamente aquilo que uma região possui de mais autêntico. Um marco recente e decisivo para o cenário da ciência, tecnologia e inovação no estado foi a publicação, em 28 de abril de 2026, na Revista da Propriedade Industrial (RPI), do pedido de Indicação de Procedência para a Tiquira do Maranhão. O pleito, formalizado pela Associação dos Produtores de Tiquira do Maranhão (ASPROTIQ), não representa apenas um trâmite administrativo no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), mas a elevação de um saber ancestral ao status de ativo econômico global.

Para compreendermos a magnitude desse avanço, é preciso entender, de forma didática, o que é uma Indicação Geográfica (IG). Imagine que o nome de um lugar — uma cidade, região ou estado — torna-se tão reconhecido pela qualidade ou tradição de determinado produto que passa a possuir valor próprio. A IG é o instrumento jurídico que assegura o direito de uso desse nome geográfico aos produtores da localidade que atendam às normas estabelecidas. Ela se divide em duas modalidades principais: a Indicação de Procedência (IP), que atesta a fama e a reputação de uma região na fabricação de determinado produto; e a Denominação de Origem (DO), na qual as características do produto são influenciadas obrigatoriamente pelo meio geográfico, como solo, clima e saber-fazer local. No caso da Tiquira, busca-se a Indicação de Procedência, consolidando o Maranhão como o berço reconhecido desse destilado.

Vale destacar que essa publicação do INPI abre um prazo legal para manifestações e oposições de terceiros. Somente após essa fase e a análise final de mérito poderemos afirmar, de forma definitiva, que a Tiquira do Maranhão possui uma IG oficialmente registrada. No Brasil, casos famosos como o Vale dos Vinhedos, para os vinhos, e a Serra da Canastra, para os queijos, demonstram como esse selo pode transformar a economia regional. No mundo, o exemplo clássico é o da região de Champagne, na França: apenas o espumante produzido naquele território pode utilizar esse nome; todos os demais são apenas vinhos espumantes.

A Tiquira é uma bebida autenticamente maranhense e um dos mais singulares destilados brasileiros. Sua alma está na mandioca e seu coração produtor pulsa com vigor em regiões como o Vale do Itapecuru e o Baixo Parnaíba, com destaque para municípios como Itapecuru-Mirim e Urbano Santos. A publicação do pedido significa que a ASPROTIQ superou a fase de exame formal, apresentando ao mundo um verdadeiro “caderno de normas” — documento técnico que define padrões de qualidade e métodos de produção necessários para que a bebida possa ostentar oficialmente o nome Tiquira do Maranhão. Esse registro protege o produto contra usos indevidos e assegura que o nome “Maranhão” não seja apropriado por quem não respeita os métodos tradicionais de fabricação.

Esse processo não ocorre de forma isolada. A caminhada da Tiquira rumo ao selo do INPI é fruto de uma convergência de esforços voltados à governança e à excelência do setor. Além da articulação fundamental dos produtores por meio da ASPROTIQ, o Sebrae-MA atua como importante suporte técnico na estruturação do pleito e na consultoria para atendimento às rigorosas exigências do instituto. Em perspectiva mais ampla, esse avanço também é fortalecido pelo ambiente de fomento e pelas políticas públicas de incentivo à inovação sustentadas pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), instituições que ajudam a criar as condições necessárias para que o ecossistema produtivo maranhense ganhe competitividade e alcance novos mercados.

Enquanto a Tiquira avança, outras iniciativas estratégicas seguem a mesma trilha no Maranhão. Frentes de trabalho promissoras buscam também o reconhecimento do Abacaxi de Turiaçu e da tradicional cerâmica de Itamatatiua, na região de Rosário. É importante observar, contudo, que cada processo possui seu próprio tempo de maturação. A consolidação de novas Indicações Geográficas enfrenta desafios relevantes: para o INPI, não basta a excelência do produto; é necessário que os produtores superem a fragmentação, organizem-se coletivamente em associações sólidas e estabeleçam sistemas rigorosos de controle de qualidade, passíveis de auditoria. Garantir essa padronização técnica sem perder a essência artesanal é um dos degraus que o Maranhão ainda precisa subir para ampliar sua vitrine de produtos protegidos.

A importância desse tipo de registro é imensurável. Regiões brasileiras que conquistaram IGs observaram valorização econômica de seus produtos, fortalecimento de cadeias produtivas e crescimento do turismo associado à identidade territorial. Uma IG funciona como um selo internacional de confiança, permitindo acesso a mercados mais exigentes e possibilitando que o produto alcance preços mais compatíveis com a qualidade e o trabalho envolvido em sua produção. Aqui, a inovação assume o papel de instrumento de soberania regional, impedindo que conhecimentos tradicionais sejam apropriados sem o devido retorno econômico e cultural às comunidades que os preservam há gerações.

O futuro da inovação também passa pela valorização do que é único. Em um mundo cada vez mais marcado pela padronização e pelos produtos genéricos, a Indicação Geográfica diferencia o comum do extraordinário. Ao protegermos a procedência da Tiquira, estamos afirmando ao mundo que o Maranhão sabe utilizar as ferramentas da ciência, do direito e da inovação para preservar seu patrimônio cultural e produtivo. Que esse movimento sirva de estímulo para que outras cadeias produtivas organizem seus dados, fortaleçam sua governança e valorizem suas histórias, pois a verdadeira riqueza de um território não está apenas no que ele produz, mas na inteligência com que transforma identidade em valor, tradição em desenvolvimento e patrimônio em futuro.


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