COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Maria e Isabel

No quintal simples, perto do fogo aceso, duas mulheres conversavam enquanto dobravam tecidos já gastos pelo uso: Maria e Isabel

Kécio Rabelo

O entardecer caía lento sobre as pedras da pequena aldeia. O céu tinha aquele tom dourado que antecede a noite, e o vento trazia cheiro de pão recém-assado e poeira de estrada. No quintal simples, perto do fogo aceso, duas mulheres conversavam enquanto dobravam tecidos já gastos pelo uso.

Uma era jovem. A outra carregava no rosto as marcas do tempo e da espera.

Maria, de Nazaré, passava os dedos devagar sobre um pano listado quando Isabel a observou em silêncio. Havia algo naquela moça que inquietava e acalmava ao mesmo tempo. Talvez fosse o jeito como ela parecia ouvir o mundo antes de responder a ele. Tinha o raro dom de dar tempo ao frenesi do cotidiano.

— Você anda cansada — disse Isabel, por fim.

Maria sorriu de leve.

— E você acha que percebe pouco.

Isabel riu.

— A idade ensina algumas coisas. Entre elas, o cansaço escondido.

Por alguns segundos, ouviu-se apenas o barulho do vento passando pelas oliveiras.

— Às vezes eu tenho medo — confessou Maria, baixando os olhos.

— Medo de quê?

Ela demorou a responder.

— De não conseguir proteger meu filho do mundo.

Isabel suspirou fundo, como quem reconhece uma dor antiga.

— Nenhuma mãe consegue completamente.

Maria permaneceu em silêncio.

— Quando João nasceu — continuou Isabel — eu já era velha demais para ouvir certas coisas sem sentir o peso delas. Diziam que eu era amaldiçoada por não conseguir ter filhos. Depois, quando engravidei, acharam mil razões para duvidar. A vida inteira o mundo parece encontrar um jeito de medir as mulheres por aquilo que elas conseguem gerar, entregar, demonstrar. É uma sina que atravessa a vida toda. Ouvi isso também de minha mãe, que certamente ouviu da dela também.

Maria ergueu os olhos.

— E hoje ainda é assim.

Isabel franziu a testa, sem compreender inteiramente a dimensão daquela frase, mas 

entendendo o essencial.

— As mulheres continuam cansadas de precisar provar valor o tempo todo — disse Maria, quase como se enxergasse muito além daquela aldeia. — Algumas são julgadas porque não têm filhos. Outras porque têm muitos. Algumas porque trabalham demais. Outras porque permanecem em casa. Há sempre alguém disposto a dizer como uma mulher deveria viver. Sei bem o que é ser vista com desconfiança, o que é precisar fugir para proteger um filho, o que é abandonar o lar para salvar a família. Deus sabe como foram aqueles dias no Egito, como é difícil ser estrangeiro, como é mais difícil ainda ser mulher em terra estrangeira.

Isabel ficou em silêncio por um instante.

— E os homens?

Maria sorriu com uma ternura quase melancólica.

— Também carregam seus medos. José, às vezes, acorda no meio da noite preocupado com o amanhã. Com o trabalho, com as limitações que a idade vai impondo, com a segurança da casa. Acho que os homens foram ensinados a esconder as fragilidades até se tornarem prisioneiros delas.

— Zacarias fazia isso — respondeu Isabel. — Queria parecer forte até diante da dor. A gente sabe só de olhar.

As duas riram baixinho.

— No fundo — disse Isabel — talvez os casamentos sobrevivam menos pela ausência de dificuldades e mais pela capacidade de permanecer quando elas chegam.

Maria assentiu.

— Permanecer sem deixar de existir dentro da própria vida. Esse é o desafio.

Ao longe, ouviu-se o riso das crianças correndo do outro lado da rua estreita, onde os animais atravessavam para o cercado.

Maria acompanhou o som com os olhos.

— Às vezes as pessoas acham que ser mãe resolve o vazio da existência. Como se uma mulher só se completasse quando gera um filho.

— E não se completa?

Maria olhou o horizonte antes de responder.

— Um filho pode ampliar o amor. Pode mudar uma vida inteira. Mas nenhuma mulher deveria precisar da maternidade para justificar a própria dignidade. Há em cada mulher uma semente de beleza e de eternidade antes, muito antes de qualquer título ou função.

Isabel permaneceu imóvel.

A frase caiu entre elas como água sobre terra seca.

— Há mulheres que nunca terão filhos — continuou Maria. — E nem por isso serão menores. Há mulheres que perderão filhos. Outras que escolherão caminhos diferentes. Deus não mede o valor de uma mulher apenas pelo ventre. Mede também pela coragem, pela capacidade de amar, pela força de continuar existindo mesmo quando o mundo tenta diminuí-la.

O vento voltou a soprar.

Naquele pequeno quintal da Judeia, duas mulheres falavam de medos antigos que ainda atravessariam séculos: a sobrecarga silenciosa, o julgamento constante, a exigência de perfeição, a culpa, a solidão acompanhada, a sensação de nunca serem suficientes.

Talvez por isso Maria de Nazaré continue sendo uma das mulheres mais lembradas da história humana. Não apenas porque foi mãe. Mas porque permaneceu humana diante do extraordinário.

Sentiu medo.

Sentiu angústia.

Precisou fugir.

Precisou recomeçar.

Precisou ver o filho sofrer sem conseguir impedir tudo.

Maria não representa apenas a maternidade idealizada. Representa também a mulher que resiste e, na resistência, se realiza. Não há passividade na sua história, mas escolha e consciência.

E talvez exista algo profundamente atual nisso.

Num mundo que ainda insiste em reduzir mulheres a funções, aparências ou expectativas, lembrar Maria e Isabel é recordar algo essencial: a dignidade feminina nasce antes de qualquer papel social.

Antes de serem mães.

Antes de serem esposas.

Antes de qualquer definição.

Elas já eram inteiras.


As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.