O filho do pedreiro não quer ser pedreiro
O desafio do Brasil é transformar a construção em uma indústria moderna, tecnológica e atrativa, antes que não reste ninguém para levantar os prédios do futuro.
Recentemente, frases de CEOs de grandes construtoras viralizaram ao afirmar que o "filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro", preferindo ser influencer ou motoboy. Embora o debate costume cair em clichês sobre o impacto do Bolsa Família ou de aplicativos de transporte, a realidade é muito mais profunda e reflete transformações estruturais no Brasil.
Além do Senso Comum: Bolsa Família, Uber e "Preguiça". As explicações superficiais para a falta de mão de obra na construção civil geralmente focam em três pilares, que os dados de pesquisa da FGV, desmentem parcialmente:
Bolsa Família: Teve um impacto pontual durante a pandemia, quando o valor subiu e os critérios foram flexibilizados. Porém, o programa vem encolhendo em número de famílias, não sendo a causa principal do problema a longo prazo, embora contribua por ser um desincentivo a busca do emprego.
Uber e iFood: Embora compitam pelo mesmo perfil (homens jovens de periferia), os aplicativos oferecem algo que a obra muitas vezes não oferece: uma percepção de maior dignidade e autonomia. Além de flexibilidade de tempo, não possuir “chefe” e até trabalho em parte do tempo livre.
Preguiça: O senso comum nos diz que falta vontade de trabalhar, mas na realidade há uma mudança nas expectativas de vida da nova geração. O trabalho fabril ou longa jornadas, tempo elevado em deslocamento, assustam a geração atual.
A Armadilha Demográfica e Educacional. O Brasil vive um fenômeno raro: nossa demografia já é de país rico, mas nossa estrutura produtiva não. Nossa produtividade é baixa, um operário brasileiro rende 25% da riqueza criada por um americano. Nossa produtividade por pais está no ranking 78º num rol de 131 países. Talvez seja essa o principal obstáculo a nossa economia.
Queda na Fecundidade: De seis filhos por mulher nos anos 60 para menos de 1,6 hoje. Quanto mais a mulher estuda, menos filhos tem, esse é um fenômeno mundial e vai ter repercussões graves na previdência e na economia. Alguns países já sofrem de alto envelhecimento e perda populacional, como Coréia do Sul, Itália, Japão, China e outros. No Brasil o IBGE estima queda a partir de 2040.
Escolaridade: Mesmo com críticas à qualidade, a escolaridade média subiu. Isso mudou o que uma geração inteira espera do futuro. Diferente de países ricos que investiram em máquinas para suprir a falta de gente, o Brasil estagnou na mecanização e continuou dependendo de mão de obra barata. Com agravante que no Brasil há excesso de alunos em cursos de humanas e pouco em STEM (Science, Technology, Engineering and Math), que são, os mais importante para criar riqueza.
O Peso da História: O Estigma do Trabalho Braçal. A herança da escravidão e uma visão marxista, ainda moldam a visão brasileira sobre o trabalho manual, visto por muitos como "degradante". O economista Daniel Duque da FGV, aponta que o estigma reduz o salário, e o salário baixo perpetua o estigma. O próprio pedreiro muitas vezes não quer que o filho siga a profissão, incentivando o estudo para "não ser pedreiro".
A Falta de Produtividade e Tecnologia. Enquanto canteiros de obras nos EUA são repletos de máquinas, no Brasil a construção ainda é artesanal e de baixa produtividade. Surpreendentemente, muitas construtoras brasileiras sequer sabem medir sua produtividade (homens-hora por metro quadrado), algo comum na indústria automobilística. A informalidade e a tecnologia cara (juros e impostos de importação) dificultam essa modernização.
A Agenda para o Futuro: Os 5 Degraus da Modernização. Para reverter esse cenário, o setor (SindusCon, sindicatos e Senai) propõe uma "escada de cinco degraus":
Nomenclatura: Substituir "pedreiro" por termos como "montador de drywall" ou "assentador de revestimentos" para dignificar a função.
Qualificação: Criar trilhas de carreira claras, de aprendiz a mestre de obras.
Industrialização: Trocar o "tijolo sobre tijolo" por painéis e processos industriais.
Produtividade: Aprender a medir e otimizar o tempo de trabalho.
Salário e Jornada: Uma batalha eterna entre patrões e empregados que se torna mais urgente conforme a mão de obra escasseia.
A conclusão é que a frase está incompleta: o filho do pedreiro não quer ser o pedreiro “do jeito que o pai foi “— sob sol e chuva, carregando sacos de cimento nas costas e com baixa remuneração. O desafio do Brasil é transformar a construção em uma indústria moderna, tecnológica e atrativa, antes que não reste ninguém para levantar os prédios do futuro.
A economia brasileira tem vários desafios e dificuldades, em minha opinião o primeiro e maior barreira é a altíssima carga fiscal, nossos impostos elevados estão impedindo as empresas de lucrar e até sobreviver. O Banco Mundial em relatório antigo, estimava que a carga de impostos em economias médias como a nossa, deveria ser no máximo 25%, já estamos em 34 e muitos setores passam de 40%. Nesse patamar não sobra dinheiro, a empresa não investe, deprecia e morre.
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