COLUNA
Euges Lima
Euges Lima é historiador, professor, bibliófilo, palestrante e ex-presidente do IHGM.
Euges Lima

Silvério dos Reis no Maranhão: um relato inédito atribuído a César Marques

O manuscrito traz o seguinte título: “Joaquim Silvério no Maranhão”.

Euges Lima

Atualizada em 05/03/2026 às 17h37

Pesquisando sobre o historiador maranhense César Augusto Marques nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), encontramos, por acaso, um relato manuscrito inédito e sem data, atribuído a esse historiador, que neste ano comemora o bicentenário de seu nascimento. Trata-se, ao que tudo indica, de um registro feito por uma terceira pessoa, possivelmente um secretário ou consócio da instituição, contendo a síntese de uma comunicação oral realizada por Marques em uma das sessões do Instituto. O manuscrito traz o seguinte título: “Joaquim Silvério no Maranhão”.

Até o momento, não havia registro conhecido de que César Marques tivesse escrito ou apresentado algum estudo específico sobre a estada de Joaquim Silvério dos Reis no Maranhão. De fato, não se encontra qualquer menção ao tema no célebre Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão, publicado em 1870. Esse silêncio documental leva a crer que o relato seja posterior à elaboração dessa obra, possivelmente produzido já no período em que Marques residia na capital do Império, a cidade do Rio de Janeiro.

Até então, os primeiros escritos conhecidos de historiadores maranhenses sobre a presença de Silvério dos Reis no Maranhão datavam apenas do século XX. Em ordem cronológica, trataram do tema: José Ribeiro do Amaral, em 1913 e 1923, em suas Efemérides Maranhenses; Viriato Correia, na década de 1940; Arnaldo Ferreira, em 1957; Jerônimo de Viveiros, em 1954; Waldemar Santos, em 1982; Jomar Moraes, em 1989, brevemente em seu Guia de São Luís; e o professor Manoel de Jesus Barros Martins, também em 1989.

Diante disso, o achado do manuscrito atribuído a César Marques revela-se de grande importância para a historiografia, sobretudo para os estudos relativos à passagem e permanência de Silvério dos Reis no Maranhão.

A comunicação atribuída a Marques inicia-se com o relato de uma notícia publicada no Jornal do Comércio, cerca de dois anos antes da exposição, segundo a qual o destino final de Silvério dos Reis teria sido a capitania de Minas Gerais. Sabedor de que o delator da Inconfidência Mineira teria, na verdade, terminado seus dias no Maranhão, nas primeiras décadas do século XIX, Marques propôs-se a “restabelecer a verdade” nas páginas do mesmo periódico. O conteúdo dessa resposta publicada no jornal parece ter constituído a base da exposição posteriormente apresentada no IHGB.

Nos primeiros parágrafos do documento, César Marques demonstra possuir informações relativamente detalhadas sobre o paradeiro de Silvério dos Reis após a delação. Menciona sua viagem a Portugal, cerca de dois anos após a execução de Tiradentes, com o objetivo de receber as recompensas advindas de sua delação. Registra também seu retorno ao Brasil e o profundo desprezo que passou a sofrer da população, o que lhe teria impedido de continuar residindo em Minas Gerais ou no Rio de Janeiro, obrigando-o a buscar novo lugar para viver.

O documento apresenta, contudo, alguns elementos novos e inesperados, divergindo em pelo menos cinco pontos da documentação maranhense conhecida até então. Segundo César Marques, com base em memórias pessoais, observações diretas e possivelmente em outras fontes não explicitadas, Silvério dos Reis teria migrado para o Maranhão integrando comboios de muares que ligavam as regiões mineradoras de Minas às localidades maranhenses de Alcântara e Aldeias Altas (atual Caxias).

De acordo com o relato, o antigo delator teria vivido em diferentes localidades, entre elas São Luís, Guimarães ou Cururupu. Marques afirma que Silvério foi reconhecido ao chegar às cidades maranhenses e recebeu demonstrações de desprezo, inclusive na capital da província. Por esse motivo, teria preferido estabelecer-se em vilas menores, como Guimarães ou Cururupu, onde acabou sendo melhor acolhido, possivelmente em virtude de suas habilidades como curandeiro.

Outro ponto relevante do relato é que Marques declara desconhecer o local exato de morte e sepultamento de Silvério dos Reis, o que sugere não ter tido acesso ao registro de óbito do personagem, ocorrido em 1819. Além disso, afirma que já não existia descendência direta do delator no Maranhão, embora mencione ter conhecido os dois últimos descendentes residentes em São Luís: um alfaiate e um funcionário da Secretaria de Governo.

O texto atribuído ao historiador maranhense César Augusto Marques constitui, assim, um registro singular, redigido em tom memorialístico e crítico, no qual se procura reconstruir a passagem de Joaquim Silvério dos Reis pelo Maranhão. Seu valor historiográfico reside justamente no fato de apresentar informações pouco conhecidas ou inéditas sobre os últimos anos de vida daquele que ficou marcado na história brasileira como o delator da Conjuração Mineira. Ao fazê-lo, Marques não apenas recompõe possíveis itinerários do personagem, mas também evidencia o profundo desprezo social que o acompanhou até o fim da vida, mesmo após as recompensas régias recebidas em Lisboa.

Joaquim Silvério no Maranhão

Ao fim desta leitura disse o nosso consocio Dr. Cesar Augusto Marques o seguinte: “Há dois anos, pouco mais ou menos”, uma correspondência enviada para o Jornal do Comercio se disse, que o desgraçado Joaquim Silvério morrera em Minas Gerais, teatro de suas tristíssimas e negras façanhas.

Eu que sabia do contrario, procurei nas paginas do mesmo periódico restabelecer a verdade e disse o seguinte, pouco mais menos.

Pouco tempo depois dos sofrimentos dos membros da Conjuração mineira, Joaquim Silvério pediu e obteve do governador [Ministro português ultramarino] Martinho de Melo e Castro, Conde de Resende, licença para ir a Lisboa, onde foi solicitar o premio de sua traição. 

Obteve essa recompensa do habito no Cristo e mais 200 Reis de tença, com a honra de lhe ser lançado ao pescoço dele venera pelas próprias mãos do Príncipe Regente, com o levantamento do sequestro e entrega de todos os seus bens, apreendidos pela real Fazenda pelo alcance de 167:553$770: com o Título de Fidalgo da Casa real com foro e moradia e finalmente com a nomeação de Tesoureiro-mor da Bula de Minas e do Rio de Janeiro.

Regressou ele a Minas, onde de novo é desprezado pela quase generalidade da população. 

Entre muitos desgostos arrastou sua existência por aí ate que resolveu mudar de residência. 

Nesse tempo havia muito negocio entre Minas – Alcântara, e Aldeias Altas no Maranhão, coexistindo um grande comboio d’animais muares que atravessavam muitos sertões e quase desertos. 

N’uma d’essas jornadas de Minas, como então se chamava, ia grande pessoal de negociantes, de lavradores, de piões, de vaqueiros e de condutores.

N’uma d’essas caravanas ligou-se ele, e chegou a esse destino, onde sendo conhecido foi desprezado e tendo a existência como se fosse um pesteado.

Foi para a Capital, cidade de São Luiz, e ai recebendo igual desprezo, embarcou para Guimarães ou Cururupu.

Nesses dois lugares encontrou ele caridade, devido talvez a seu mesinheiro de curandeiro, e ensinar remédios aos doentes.

Ai viveu com uma cabocla de quem teve alguns filhos e filhas, os quais legou o sobrenome de Montenegro. 

Morava n’uma d’essas localidades, porém não se sabe em que lugar descansou seu corpo, em quanto sua alma foi receber no outro mundo das mãos do justo Juiz a sentença, que merecia.

Coisa singular! Todos os seus descendentes em Maranhão morreram, e hoje ali não existe um só individuo com tal sobrenome. 

Os dois últimos foram um alfaiate, situado na rua tal em frente a rua do Ribeirão, e outro um empregado na Secretaria do Governo. Ambos conheci. Viviam tristíssimos embora não amaldiçoassem a memoria do seu infeliz avô.”


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