Criança e Adolescente

Falta de estrutura compromete trabalho dos conselhos tutelares

AgĂȘncia Brasil

Atualizada em 27/03/2022 Ă s 13h00

BRASÍLIA - Os conselhos tutelares sĂŁo uma das principais portas de entrada das denĂșncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cabe aos conselhos atender e aconselhar os pais ou o responsĂĄvel, requisitar serviços pĂșblicos, como os de segurança, encaminhar ao MinistĂ©rio PĂșblico denĂșncia de crime e atĂ© acionar a Justiça.

O cumprimento dessas obrigaçÔes fica comprometido, no entanto, pela falta de estrutura. “A maioria dos conselhos nĂŁo tem a estrutura de trabalho. Os salĂĄrios sĂŁo baixos, nĂŁo hĂĄ carro para deslocamento, faltam computadores e impressoras para o trabalho”, resume o advogado Ariel de Castro Alves, da ComissĂŁo de Criança e Adolescente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Segundo a pesquisa Os Bons Conselhos, feita em 2006 pelo Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor (Ceats), “as condiçÔes mais fundamentais estĂŁo longe de atingir a cobertura plena: privacidade do local de trabalho, disponibilidade de textos legais para consulta e referĂȘncia, telefone, veĂ­culo”.

A precariedade dos conselhos tutelares pode ser verificada na capital federal. A situação do recém-instalado Conselho Tutelar do Riacho Fundo 2, cidade a 18 quilÎmetros de Brasília, ilustra as constataçÔes da pesquisa do Ceats.

Segundo a conselheira Ana Maria da Silva, o atendimento à população estå sendo feito de pé porque faltam cadeiras. Além disso, não hå espaço adequado.

“O local que nos foi cedido no momento são duas salas. Deveríamos ter uma para cada conselheiro [cinco no total] para respeitar a individualidade e o sigilo de cada pessoa que vem nos procurar. Isso não existe”, lamenta. O conselho tutelar do Riacho Fundo 2 funciona em um galpão de obras da administração regional.

Para o representante da OAB Ariel de Castro, tambĂ©m falta formação aos conselheiros e a compreensĂŁo dos papĂ©is da polĂ­cia, do MinistĂ©rio PĂșblico e da Justiça no encaminhamento de casos de abuso sexual.

De acordo com a pesquisa do Ceats, em um terço dos conselhos tutelares, nenhum membro recebeu capacitação nem mesmo participou de uma palestra.

O efeito dessa situação é o mau atendimento da população, inclusive em casos de extrema vulnerabilidade como o das vítimas de abuso sexual.

“Eu trabalho no interior de Santa Catarina e a gente vĂȘ situaçÔes em que uma menina de 13 anos vai viver maritalmente com o namorado e isso Ă© aceito culturalmente inclusive pelo conselheiro. É preciso, portanto, qualificação sobre o papel do conselheiro e mais estrutura de atendimento”, defende a promotora de Justiça Helen Sanches, primeira-secretĂĄria da Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores PĂșblicos da InfĂąncia e da Juventude (ABMP).

Aos problemas de estrutura fĂ­sica e de disponibilidade material, soma-se a ausĂȘncia de polĂ­ticas pĂșblicas. “Como o conselho tutelar vai proteger se no municĂ­pio nĂŁo tem um projeto que preste atendimento psicolĂłgico? Como vai atender se nĂŁo tem uma casa abrigo? A proteção depende da polĂ­tica pĂșblica. Precisamos melhorar a estrutura dos municĂ­pios”, aponta a promotora.

De acordo com Helen Sanches, a denĂșncia ao conselho deve ser seguida de um boletim de ocorrĂȘncia na delegacia.

“Muitas vezes, a prĂłpria mĂŁe se omite de fazer a queixa porque depende [financeiramente] do agressor. É obrigação do conselheiro registrar o boletim de ocorrĂȘncia, verificar se fizeram o registro corretamente, acompanhar o que foi feito na apuração, encaminhar a criança ou adolescente para o tratamento psicolĂłgico e atendimento mĂ©dico”, ressalta ao citar as atribuiçÔes previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa pågina no Facebook e Youtube. Envie informaçÔes à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.