RIO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT à reeleição, se defendeu da acusação feita em carta, semana passada, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que seu governo e o PT são os responsáveis pelos desmandos e pela corrupção no país. Em entrevista à TV Bandeirantes, Lula ironizou a postura do ex-presidente - "ele está irritado porque não tem espaço político" - e afirmou que 81% dos casos do escândalo dos sanguessugas começaram no governo do seu antecessor.
- Eu queria lembrar que 81% dos casos que a Polícia Federal desmontou envolvendo sanguessugas começaram antes do meu governo, exatamente no governo FH. Possivelmente, ele não sabia, porque a gente só sabe quando é investigado.
Durante a entrevista, o presidente explicou ainda sua ausência nos debates e voltou a se dizer traído nos escândalos de corrupção que abalaram o governo, mas reiterou que os responsáveis serão punidos.
Confira aqui os principais trechos da entrevista:
Carta de FH: "É difícil fazer julgamento do que pensa um ex-presidente, mas eu queria lembrar que 81% dos casos que a Polícia Federal desmontou envolvendo sanguessugas e operação vampiro começaram antes do meu governo, exatamente no governo FH. Possivelmente ele também não sabia, porque a gente só sabe quando é investigado. Eu só tenho a lamentar que ele não saiba se comportar como um ex-presidente da República, ele dá mais palpite agora do que quando era governo. Certamente, ele está irritado porque não tem espaço político, está com rejeição muito forte nas pesquisas, mas acho que um homem como ele que estudou, um homem letrado não poderia ter esse comportamento. De mim, é até possível aceitar um comportamento mais rude. Mas dele, eu acho que a sociedade não consegue entender. Ele fica muito doente quando a gente faz comparações entre os dois governos".
Ausência nos debates: "Não é hábito de um presidente da República ir a debates. O FH não foi a nenhum e nunca vi ninguém cobrar dele, eu cobrava muito, mas ninguém ouvia. É difícil saber, quando me fazem uma pergunta, se eu sou o presidente ou o candidato. Agora mesmo eu estou aqui dando essa entrevista, mas estou preocupado com o problema (da Petrobras) na Bolívia. Um presidente não pode se expor num debate, é preciso preservar a instituição Presidência da República, porque ali estarão três pessoas dispostar apenas a atacar o presidente. E eu não vou (a debates) não é porque estou na frente das pesquisas, não. Em 2002, eu estive o tempo todo na frente e fui a todos os debates".
Bolívia:"Certamente os candidatos estão falando que eu deveria atacar, fazer um monte de coisa. Conheço a Bolívia, o Evo Morales e o povo daquele país. Temos que resolver nossos problemas na diplomacia e a atitude de hoje (desta quinta-feira) já foi congelada, porque qualquer coisa que acontece com a Petrobras tem que ser negociada. Agora, se a Bolívia teimar em tomar atitudes unilaterais, o Brasil terá que pensar em fazer uma coisa mais dura com a Bolívia".
Traição: "Me senti traído porque o PT foi construído para ser símbolo de que é possível fazer política diferente. De repente, vejo que algumas pessoas do PT enveredam pelo mesmo ciclo vicioso da política brasileira, achando que o PT poderia ser igual aos outros, sem pagar nenhum preço. E o PT, por cada coisa que faz, paga um preço infinitamente maior que os outros. Me senti traído por quem cometeu erros. não era preciso cometer erros. O PT nasceu para mudar a cara da política brasileira. Os que cometeram erros vão pagar, seja processado na Justiça ou pelos eleitores, que vão moralizar a política nas urnas. E pretendo dar nova contribuição quando fizermos reforma política profunda que moralize a política brasileira".
Escândalos: "As pessoas que cometeram erros têm que deixar o cargo, e eles (Antonio Palocci e José Dirceu, ex-ministros) deixaram o cargo. Esse é o papel do presidente da Republica, exonerar as pessoas, a partir daí é com a Justiça e o Ministério Público. Presidente da República não pode prender ninguém mas pode exonerar as pessoas. Minha parte esta cumprida. Estamos aqui para dar um exemplo de um país sério, e o combate a corrupção é fundamental".
Política Econômica: "O Brasil não tinha cultura de crescer mercado exportador e interno ao mesmo tempo. Estou otimista pois as coisas estão prontas, maduras. O Brasil nunca esteve em situação tão privilegiada, desde a Proclamação da Republica, para dar um salto. Meu maior erro foi não fazer isso no primeiro ano pois não podia fazer mágica. Optamos pela seriedade. Se tivesse condições, gostaria de ter feito em 2003, o que não foi possível fazer".
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