Operação policial

Operação resgata mais de 40 trabalhadores em igreja ligada a pastor preso no MA

Ação do Ministério do Trabalho, Polícia Federal e MPT-MA encontrou trabalhadores em condições degradantes na sede da Shekinah House Church, em Paço do Lumiar.

Imirante

Atualizada em 07/05/2026 às 17h47
Mais de 40 trabalhadores são resgatados em igreja no MA.

PAÇO DO LUMIAR - Uma operação realizada pelo Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho do Maranhão (MPT-MA) e Polícia Federal resgatou, nesta quinta-feira (7), mais de 40 trabalhadores em situação análoga à escravidão na sede da igreja Shekinah House Church, em Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís.

A igreja tinha como líder o pastor David Gonçalves Silva, preso por suspeita de abusos sexuais e punições físicas contra fiéis.

Segundo o MPT-MA, os trabalhadores foram encontrados em condições degradantes. A Vigilância Sanitária interditou o espaço, e os resgatados serão encaminhados para um local de acolhimento preparado pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos.

Parte dos trabalhadores deve permanecer na propriedade para cuidar dos animais do haras que funcionava no local, de acordo com a polícia.

Por causa da complexidade da operação, a ação contou ainda com apoio da Polícia Militar, Ministério Público do Estado, Defensoria Pública, assistentes sociais e equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

A igreja era comandada pelo pastor David Gonçalves Silva, investigado por suspeita de abusos sexuais e agressões contra fiéis.

Igreja já havia sido alvo de investigação

A sede da Shekinah House Church já havia sido alvo de uma operação conjunta do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal no dia 27 de abril, após denúncias de trabalho análogo à escravidão.

Na ocasião, segundo o Ministério Público, as buscas realizadas no imóvel não encontraram elementos suficientes para configurar esse tipo de crime.

Nos últimos dias, mais de dez pessoas procuraram a polícia para denunciar o pastor David Gonçalves Silva. Ele é investigado por crimes como estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa.

De acordo com a Polícia Federal, a igreja funcionava paralelamente como espaço de prestação de serviços terapêuticos, sem regularização legal, licenciamento administrativo ou comprovação de habilitação técnica dos responsáveis. Também foram identificados indícios de irregularidades nas condições de permanência, segurança e atendimento das pessoas que viviam no local.

O MPT-MA informou ainda que depoimentos e documentos foram recolhidos durante a operação e serão analisados e anexados ao processo.

Vídeo mostra adolescente em estado de exaustão

Um novo vídeo anexado ao inquérito policial mostra um adolescente em estado de exaustão após ser submetido a punições. Segundo a investigação, ele passou horas em pé, sem dormir, e foi obrigado a escrever repetidamente durante toda a noite a frase: “Eu preciso aprender a respeitar meu líder”.

David Gonçalves Silva foi preso no dia 17 de abril. Natural do Ceará, ele é suspeito de impor castigos físicos e punições psicológicas a jovens que descumpriam regras determinadas por ele. Entre as vítimas estão pessoas do Maranhão, Pará e Ceará.

Fiéis relatam agressões e controle dentro da igreja

Segundo a polícia, o sistema de punições ajudava o pastor a manter controle sobre cerca de 100 a 150 fiéis durante anos.

Entre as vítimas estão pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, que afirmam ter procurado a igreja em busca de apoio. Um dos relatos é de um jovem que chegou ao local aos 13 anos, enquanto vivia em situação de rua.

As agressões eram constantes e recebiam nomes específicos. Um dos castigos, chamado de “readas”, consistia em chicotadas com um reio, tipo de chicote usado em cavalos. Em um dos casos investigados, quatro vítimas receberam entre 15 e 25 chicotadas cada.

Áudios atribuídos ao pastor também indicam a privação de comida como forma de punição. Em uma das gravações, ele afirma: “Até resolver a situação da bomba, estão sem comer”.

De acordo com as investigações, o pastor chamava os fiéis de “piões”, enquanto o local onde dormiam era conhecido como “baia”. A polícia aponta que as agressões físicas e psicológicas também eram utilizadas para pressionar vítimas à prática de abusos sexuais.

Homens eram os principais alvos de abusos, aponta investigação

A Polícia Civil informou que, embora a comunidade fosse formada por homens e mulheres, os homens eram os principais alvos dos abusos sexuais.

“Ele dizia que, por fora, podia ser homem, mas que, em quatro paredes, tinha que ser mulher para poder nos ludibriar. Isso aconteceu por vários anos e hoje sou um cara que vive atormentado, com muitas lembranças. Tenho vergonha, mas tô lutando todos os dias para mudar esse centro na minha mente”, relatou uma das vítimas.

Durante o cumprimento do mandado, a polícia apreendeu folhas de papel com a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder” escrita mais de 100 vezes. Segundo os investigadores, esse era um dos castigos impostos aos fiéis.
 

Pastor obrigava vítimas a escrever como forma de punição. (Reprodução)

Ainda conforme a investigação, os integrantes da igreja viviam sob controle constante e sem contato com o público externo. Homens e mulheres eram separados, e havia monitoramento contínuo por câmeras, inclusive durante o banho.

“Já apanhei, já fiquei sem refeição, já fiquei trancada no quarto sem poder falar com ninguém. Ele também pedia para as pessoas lá do local me tratarem como louca”, afirmou uma das vítimas.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.